Entre o Rosa e o Azul: Uma Sociedade Regida por Papéis de...

Entre o Rosa e o Azul: Uma Sociedade Regida por Papéis de Gênero

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A cor rosa é de menino e a cor azul é de menina… Não, pera! Ops… O “correto” é: rosa é cor de menina e azul é cor de menino… Certo?!

Foi assim que aprendemos desde crianças. Sabemos até mesmo que carrinho é brinquedo de menino e boneca é brinquedo de menina.

Disseram-nos também que meninos não choram e que os homens devem ser fortes, inteligentes, capazes, másculos e independentes. Já as meninas sempre devem se comportar e mulheres devem ser carinhosas, pacientes, cuidadosas, frágeis e delicadas.

Baseados nessas crenças e atitudes socialmente aceitas e pré-determinadas surgiram os papeis de gênero para facilitar o entendimento do que é ser homem e do que é ser mulher. E essas crenças nos papeis de gênero se faz tão “natural” que estamos condicionados a associar homens e mulheres apenas observando as diferenças biológicas.

Então o que faz com que nos identifiquemos como homens ou mulheres? O ser “homem” e o ser “mulher” é uma determinação social. É o modo como o indivíduo se percebe e se expressa socialmente. Sendo assim, o comportamento masculino ou feminino é determinado de acordo com a cultura vigente numa região e época específica.

Num primeiro momento, precisamos diferenciar sexo e gênero.

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O sexo de uma pessoa é determinado biologicamente através de suas células reprodutoras (gametas). Machos possuem aparelho reprodutor que produz espermatozoides como células sexuais. O aparelho reprodutor das fêmeas produz óvulos como células sexuais. Justamente pela diferença do aparelho reprodutor, machos e fêmeas, além dos gametas, também possuem níveis hormonais, genitais e cromossomos diferentes.

Gênero é um conceito social formado por um conjunto de crenças que especificam o que é característico de cada sexo, determinando direitos, espaços, atividades e condutas especificas para um e para o outro de forma que legitima a ordem estabelecida e justifica a hierarquização dos homens (masculino) e das mulheres (feminino) numa determinada sociedade.

Os papeis de gênero não possuem caráter universal. Eles são construídos histórica, social e culturalmente.

Na formulação de Goffman e Berger, papel é um conjunto de prescrições e proscrições de determinado meio social. Sendo assim, quando se pensa nos papeis masculino e feminino estamos apontando configurações típicas do que é pertinente ao homem e à mulher dentro daquela cultura específica englobando aprovações, restrições e proibições.

Essa configuração sociocultural dos papeis de gênero são aprendidas e transmitidas de geração para geração ao longo de toda a vida do indivíduo. De acordo com a teoria da aprendizagem social, as diferenças psicossociais entre meninos e meninas começam a ser absorvidas desde cedo através de expectativas, reforços e disposições sociais. Observa-se também que existem atitudes e comportamentos típicos esperados culturalmente para cada sexo.

Outro fato a ser levado em consideração é que essas noções também são mantidas porque meninos e meninas possuem a tendência de imitarem os seus iguais do que os de outro sexo, baseando-se, portanto, na observação direta e na sua interpretação/percepção do que é e como deve ser o papel “masculino” e “feminino”.

clossetprofessor

Um ponto importante quando se fala de papeis de gênero numa sociedade é destacar uma discussão antiga: a desigualdade de gêneros. Histórica e culturalmente falando, as diferenças de gênero não são neutras. Em diversas sociedades o gênero se constitui como uma forma significativa de estratificação social, na qual muitas vezes se observa uma suposta superioridade masculina e uma suposta inferioridade feminina.

O resultado: ao longo da história do Brasil, mulheres têm sido consideradas como subordinadas aos homens.

A visão estereotipada dos papeis de gênero colocam o homem num papel de esfera pública e trabalho remunerado (em que é associado como a única ou a maior remuneração do casal). Cabe então à mulher ser responsável pela esfera privada (cuidar da família e do lar).

https://www.youtube.com/watch?v=jjqI3XzuqOM 

Apesar do crescente número de mulheres no mercado de trabalho, os estereótipos sobre o papel masculino e feminino impõem barreiras para a ascensão das mulheres a cargos de poder e liderança.

Não se pode ignorar a desigualdade macroeconômica entre homens e mulheres, nem a divisão sexual do trabalho. Dentro das organizações, bem como nas relações de trabalho, a masculinidade é sinônimo de controle, desempenho e poder. Já a feminilidade é tida como sinônimo a atitudes de colaboração e suporte.

https://www.youtube.com/watch?v=rq-jogDdKFU

Falar em políticas públicas de gênero significa combater as desigualdades de gênero num contexto que engloba um vasto conjunto de desigualdades sociais. Ou seja, além do Estado pressupor práticas de cidadania ativa com o intuito de concretizar a justiça de gênero, deve também assumir, sobretudo, a responsabilidade de redistribuir riqueza e poder entre regiões, classes, etnias, raças, homens e mulheres.

Em seu texto ‘A ação feminista diante do Estado: a mulher na elaboração de políticas públicas’, Tatau Godinho explica que:

“Foi uma conquista do movimento de mulheres, como parte do reconhecimento destas como sujeitos sociais, como sujeitos de reivindicação, colocar-se como uma questão legítima as instituições políticas, os governos, os Estados se obrigarem a reconhecê-las na construção de políticas. Isso foi construído nesses 25, 30 anos, em alguns países 40 anos de organização política e social de mulheres, de um crescimento nosso enquanto um sujeito social coletivo, que faz com que as instituições e a sociedade não possam nos ignorar nem deixar de falar em políticas de gênero, políticas dirigidas às mulheres. Mas, à medida que se perde a radicalidade e se arrefecem as bases fundamentais do feminismo, de construção da igualdade real entre mulheres e homens – o que pressupõe uma luta por igualdade real entre os indivíduos -, essa legitimidade conquistada vai sendo assimilada ao mesmo tempo em que constrói novos traços para o feminismo. Traços que o limitam e introduzem uma face perversa: a igualdade ganha uma face segmentada e perde, portanto, seu desafio universal. Merecerá o nome de igualdade? Enquanto setores das mulheres podem usufruir um certo nível de igualdade que vai sendo construída, ou, pelo menos, um certo nível de direitos aos quais não tínhamos acesso, enquanto gênero, essa igualdade é totalmente permeada pela desigualdade geral da sociedade.”

Um Estado democrático possui como função elementar garantir políticas que reconheçam a desigualdade de poder entre homens e mulheres. As políticas públicas devem atuar pensando sempre no impacto diferenciado para homens e mulheres ao mesmo tempo em que reconheçam ações específicas para o fortalecimento das mulheres, pois estas, dentro do contexto coletivo social, se apresentam em condições subordinadas na sociedade.

https://www.youtube.com/watch?v=fyOubzfkjXE

O que vemos atualmente é que a discussão de gênero é complexa e abrangente. As expectativas sobre o que é ser menino ou menina já começam durante a gravidez e após o nascimento todas essas expectativas se transformam na educação sexista daquele indivíduo numa configuração social baseada em diferenças e desigualdades. Em suma, somos levados a nos basear em diferenças sexuais entre homens e mulheres e a não considerar o ser humano em sua totalidade e com todas as suas possibilidades.

Referências

GODINHO, Tatau; SILVEIRA, Maria Lúcia da (orgs.). Políticas públicas e igualdade de gênero. Cadernos da Coordenadoria Especial da Mulher, São Paulo, n. 8. 2004.

JESUS, Jaqueline Gomes de. Orientações sobre identidade de gênero: conceitos e termos. 2ª ed. Brasília. 2012.

NEGREIROS, Teresa Creusa de Góes Monteiro; FÉRES-CARNEIRO, Terezinha. Masculino e feminino na família contemporânea. Est. Pesqu. Psicol., v. 2004, n. 1. 2004.

REIS, Kellen Cristina Florentino; MAIA, Ana Claúdia Bortolozzi. Estereótipos sexuais e a educação sexista no discurso de mães. IN: VALLE, Tânia Gracy Martins do (org.). Aprendizagem e desenvolvimento humano: avaliações e intervenções. São Paulo: Cultura Acadêmica. 2009.

SANTANA, Anabela Maurício de. Mulher mantenedora/homem chefe de família: uma questão de gênero e poder. Itabaiana: GEPIADDE, ano 4, v. 8. 2010.

SANTOS, Jean Carlo Silva dos; ANTUNES, Elaine Di Diego; relações de gênero e liderança nas organizações: rumo a um estilo andrógino de gestão. III Encontro de Gestão de Pessoas e Relações de Trabalho. João Pessoa. 2011.

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