Um Mundo em Preto e Branco: A Realidade dos Moradores de Rua

Um Mundo em Preto e Branco: A Realidade dos Moradores de Rua

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Atualmente em nosso país e em nosso cotidiano vivenciamos regularmente situações e fatos que remetem ao abandono, mas o que realmente seria esse abandono?

Cabe e é experenciado em diversas situações como: abandona-se costumes, crenças, objetos, lugares, momentos/fatos e pessoas (família, crianças, pacientes e a si próprio). Por tanto se faz necessário definir o termo abandono e ressaltar que não refere-se a algo negativo, em determinados momentos é essencial abandonar e recomeçar.

Ato ou efeito de deixar um local; afastamento; ato pelo qual uma pessoa renuncia a um direito, um bem, etc.; renúncia; desistência; cessão; desamparo; falta de cuidado; desleixo (DICIONÁRIO DA LÍNGUA PORTUGUESA, 2003 – 2015).

Por tanto configura-se o abandono como um ato de deixar ir, largar e afastar-se. Que pode em diferentes aspectos significar perspectivas positivas ou negativas, porem que envolve sempre uma reconfiguração, mudanças e incontáveis sentimentos (pós e pré abandono). A situação de abandono que iremos enfatizar é conhecida por uma grande parte da população, porém em pontos de vista diferentes, pois vemos, ouvimos falar, conhecemos pessoas que vivenciaram esta situação e alguns podem afirmar que  experenciaram este tipo de abandono. Trata-se da situação e a realidade dos moradores de rua.

Este moradores que evidenciam-se em nosso dia-a-dia representam um grande número de habitantes em situação de rua. Estima-se que no Brasil há cerca de 192 milhões de habitantes, segundo o CENSO do IBGE e cerca de 0,6% à 1% são população de rua. Em números calcula-se que aproximadamente 1,8 milhões tratam-se de moradores de rua.

E todos os dias estes habitantes fazem parte do nosso cotidiano nos mais variados aspectos e cenários, acredito que ao experenciarmos essa realidade nos proporciona questionamentos que nos levam a reflexão como: O que os levou a esta atual situação? Como convivem com esta realidade? Como interagem e interpretam essa situação de abandono? O que sentem estes moradores? Possuem perspectivas futuras? E quais seriam elas?

Segundo Bulla, Mendes, Prates e outros (2004, p. 113-114) uma sequência de perdas precede a situação de rua, como perdas familiares, desemprego, violência, perda de entes queridos, perda da auto-estima, drogadição, doença mental e prostituição. E aspectos como drogadição e alcoolismo frequentemente estão vinculados a históricos familiares, e em geral a situação de rua envolve mais de uma destas rupturas.

Outra realidade também encontrada na história de moradores de rua, é a de pessoas que mudaram de cidades ou estados em busca de melhores oportunidades e qualidade de vida, porém ao chegaram nas grandes cidades se deparam com uma realidade que não corresponderam as suas expectativas, acabam por ver-se desempregados e sem vínculos com pessoas/familiares que residem próximas. Ou recebem remunerações que limitam as possibilidades de manter-se econômicamente, acabam por residir nas ruas, albergues e abrigos. Há também os andarilhos que acabam por mudar de cidades com frequência, em busca de oportunidades de emprego e moradia.

Frente a esta situação os moradores desenvolvem e adaptam-se a novos grupos, passam a conviver em pequenas comunidades, onde protegem uns aos outros e os poucos bens matérias que possuem. Esta convivência propõem novos costumes, hábitos e passaram a desenvolver gírias/linguagem próprias destas pequenas comunidades, como:

É bastante comum, entre aqueles que dormem nas ruas, o uso do termo maloqueiro, que se refere a quem usa a maloca, ou mocó – lugar de permanência de pequenos grupos durante o dia, ou usado para o pernoite, com, normalmente, colchões velhos, algum canto reservado para os pertences pessoais (VIEIRA, 1999)

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Fonte: Internet

Alguns encontram auxilio em albergues, abrigos e instituições não governamentais que oferecem refeições, porém é importante enfatizar que essas instituições oferecem apoio provisório devido ao número de moradores que necessitam desse acolhimento e em geral muitas destas instituições não oferecem suporte, com atividades de reinserção social e econômica. A política social oferecida pelo nosso pais ainda encontra-se defasada e falha em diferentes aspectos, por tanto não fornece o apoio necessários nessas situações de abandono dos residentes de rua.

Os moradores ao depararem-se com esta realidade de perda que caracteriza-se como uma situação de fragilidade, desestruturação dos vínculos e relações com o outro , criam mecanismo compensatórios, a fim de suprir estes sentimentos  que acompanham o abandono como: solidão; tristeza e baixa estima. Em geral se os vícios como álcool e drogas não antecederam o quadro atual, passam a se fazer presentes frente a esta situação de rua, buscando amenizar estes sentimentos e propiciando um escape desta realidade.

Esta realidade e estas perdas não limitam os habitantes de rua a almejarem melhores condições e perspectivas de vida, muitos sonham e buscam por reencontrarem suas famílias, por possuírem uma residência ou um lugar que possam chamar de lar. A palavra lar para eles configura-se como algo fundamental, um objetivo almejado e uma esperança. A grande maioria que busca por auxilio em albergues e/ou abrigos visa alcançar estas expectativas, recuperar o que se foi perdido, reencontrar suas famílias, reconstruir suas vidas e definidamente recomeçar. Os que encontram-se em situação de rua, possuem também estas perspectivas, porém por estarem vinculados a vícios encontram maiores dificuldades em buscar auxilio, devido a dependência.

Enfim destaca-se que assim como todos, os moradores de rua sentem o abandono, e diferente dos demais deparam-se com ele e com os sentimentos que ele carrega frequentemente. Porém não limitam-se a ele, independente da realidade em que encontram-se apresentam esperança, expectativas e perspectivas futuras. Não deixam de possuir necessidades e almejam satisfaze-las. Acredito que o que lhes faltam como falta também aos demais, mais a eles grita essa necessidade, é a de um olhar, de um abraço e de uma palavra. Palavras…que mudam, o que almejam não é ouvir palavras como “Adeus” e sim  “ Vou ficar aqui” e “Pode contar comigo”. Deixo para vocês um trecho de um poema que nos leva a refletir, sobre o que foi falado, sobre o abandono e o abandonar.

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Fonte: Internet

 “ Coisa triste, que incomoda…
Muitas vezes somos abandonados…
Muitas vezes abandonamos…
Ideias, sonhos, objetivos, lutas, desejos, amigos, gente, animais…
Dores de ser abandonado…
Dores de quem abandonam…
Escolha? Oportunidade? Capricho? Necessidade?
No momento não tenho a resposta…
Só sei que é difícil abandonar e ser abandonado…
Mas sei também que há uma decisão para tal atitude.
Muitas vezes a vontade de chutar tudo para o alto
Leva-nos a tomar atitudes impensadas e irresponsáveis.
Ferimo-nos e ferimos alguém, nunca ninguém…
Talvez seja um dos piores sentimentos…
Abandono… 
Sejamos atitude sim, mas atitude centrada e pensada.
Principalmente pensada no outro.
O que não queremos não devemos fazer para o outro.
Abandono…
Sejamos coerentes! Muitas vezes é preciso abandonar, largar a mão,
Para deixar as amarras, os inimigos, os sentimentos negativos, o que não serve!
Para deixar vir ideias, sonhos, objetivos, lutas, desejos, amigos, gente, animais…
E ao contrário do abandonar,
Devemos adotar, devemos trocar, devemos mudar!”

Maykira

 

Referências

Estimativa de Moradores de Rua no Brasil. 30 de março de 2012. Acessado em 19 de Junho de 2015 às 12:07min.

Link de acesso: http://moradoresderua.org.br/portal/estimativa-de-moradores-de-rua-no-brasil/

Abandono in Dicionário da Língua Portuguesa com Acordo Ortográfico [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2015. [consult. 2015-06-19 16:13:57]. Disponível na Internet: http://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/abandono.

BULLA, L. C.; MENDES, J. M. R.; PRATES, J. C. (Orgs.). As múltiplas formas de exclusão social. Porto Alegre: Federação Internacional de Universidades Católicas: EDIPUCRS, 2004.

COSTA, A.P.M. População em situação de rua: contextualização e caracterização. Revista Virtual Textos & Contextos, nº 4, dez. 2005

VIEIRA, M. A. C. Trecheiros e pardais. In: SIMPÓSIO INTERNACIONAL MIGRAÇÃO: Nação, Lugar e Dinâmicas Territoriais, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1999.

ADORNO, R.C.F & VARANDA, W. Descartáveis urbanos: discutindo a complexidade da população de rua e o desafio para políticas de saúde. Saúde e Sociedade v.13, n.1, p.56-69, jan – abr 2004.

 

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