Transtorno de Personalidade Borderline: À Borda das Relações

Transtorno de Personalidade Borderline: À Borda das Relações

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Você já se relacionou com alguém que nunca se sente completo em suas relações? Já imaginou uma pessoa que sempre manipula situações para se tornar o centro das atenções?

Pois é… Esses podem ser sintomas de Transtorno de Personalidade, não é de hoje que nos deparamos com indagações acerca deles, suas causas e efeitos ou até mesmo de onde surgiram. Cabe situar que para Cabalo (2014) os Transtornos de Personalidade tomaram formas e descrições há muitos anos atrás, como expõe as características dos quatro temperamentos hipocráticos: melancólico como pessimista, o sanguíneo-otimista em todas as situações, colérico (irritável) e o fleumático sendo apático e melancólico; essa ótica é baseada nas observações iniciais pela teoria grega dos temperamentos .

Atualmente, em concordância com CID-10 (1993) e DSM-V (2014) os transtornos de personalidade agrupam modelos de comportamentos enraizados e contínuos, emergindo-se como respostas inflexíveis as múltiplas situações tanto pessoais como sociais.    

Neste texto, o objetivo é situar o leitor de um Transtorno de Personalidade ainda pouco conhecido, embora muito vivenciado, o Transtorno de Personalidade Borderline (TPB). Linehan (2010 apud GUNDERSON E ELLIOTT, 1985) relata acerca do aumento dos estudos nos últimos anos, explicando que a tendência na literatura teórica e pesquisas nada mais são do que conceber a síndrome borderline, classificando-a no corriqueiro dos principais transtornos afetivos.  

No tocante a prevalência o DSM-V (2014) elucida que em média 1,6% da população pode desenvolver TPB, podendo chegar até 5,9%. Sendo mais comum a estabilidade crônica no começo da vida adulta, com ocorrências de descontrole emocional, com maior índice de risco de suicídio em adultos mais jovens. Vale apena ressaltar que este transtorno é significativamente predominantemente em indivíduos do sexo feminino, representando cerca de 75% dos pacientes, visto que um dos fatores de risco torna-se o abuso na infância, principalmente de ordem sexual.    

Conforme APA (2015) baseia-se da inadequação de alguém com Transtorno de Personalidade, de quem vive à margem de um objeto, no limite entre dois elementos referente a qualquer fenômeno difícil em sua categorização, para Caballo (2008) esse transtorno instala-se por um padrão obstinado de inconstância nas relações interpessoais, interferindo até na imagem de si mesmo, munido de grande impulsividade. Os sujeitos que manifestam o TPB costumam se deparar com grande vazio interior, automutilação, ira inconveniente e falta de controle desta, ideias paranoides transitórias, podendo chegar a sintomas dissociativos graves, enxergando a solidão como algo insuportável de se viver, assim evita-se o abando real ou imaginário.

[…] Instabilidade emocional estão presentes; em adição, a autoimagem, objetivos e preferências internas (incluindo sexual) do paciente são pouco claras ou perturbadas. Há em geral sentimentos crônicos de vazio. Uma propensão a se envolver em relacionamentos instáveis pode causar repetidas crises emocionais e pode estar associada com esforços excessivos para evitar abandono e uma série de ameaças de suicídio […] (CID 10, 1993 p. 200)  

Com relação ao tratamento, a abordagem Cognitivo Comportamental e terapias de 3ª geração partindo do pressuposto da Terapia Cognitivo Comportamental, tornam-se a mais indicadas acerca do tratamento. Porém, no momento vamos nos ater a Terapia Comportamental Dialética, elaborada especificamente para pacientes com Transtorno de Personalidade Borderline e hoje já usada para os transtornos em geral.

Conforme Linehan (2010) a Terapia Dialética Comportamental (TDC) baseia-se no programa de tratamento desenvolvido para pacientes com TDB, ressaltando uma grande variedade de estratégias cognitivas e comportamentais. A TDC prioriza a coleta de dados acerca dos comportamentos atuais, afim de avalia-los para então definir o alvo de trabalho do terapeuta, visto que o subjacente da TDC é o trabalho colaborativo entre terapeuta e paciente, visando o estabelecimento de acordos terapêuticos, ressaltando o processo constante de síntese na consolidação dos opostos, ou seja com sua principal característica dialética (Linehan, 2010).

O acompanhamento psicoterapêutico é de extrema importância para pessoas com esse transtorno, visto sua complexidade e gravidade. Uma frase que resume o transtorno e abarca o significado da síndrome: Pessoas que vivem à borda de suas relações!

Referências

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM V. Porto Alegre: Artes Médicas, 2014.

BECK, S. J; Terapia Cognitivo Comportamental.  2ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2013.

CABALLO, V. E; Manual Para o Tratamento Cognitivo Comportamental. 1ª Ed. São Paulo: Santos Editora, 2008.

CABALLO, V. E; Manual de Transtornos da Personalidade: descrição, avaliação e tratamento. 1ª Ed. São Paulo: Santos Editora, 2014.

Coord. Organiz. Mund. Da Saúde; Classificação de Transtornos mentais e de Comportamento da CID-10: Descrições Clínicas e Diretrizes Diagnósticas. Porto Alegre

MARSHA, M. L; Terapia Cognitivo Comportamental para Transtorno da Personalidade Borderline.Porto Alegre: Artmed; 2010.

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Psicólogo social e clínico, graduado pela Universidade Cruzeiro do Sul, atuante na abordagem Cognitivo Comportamental. Trabalho há 3 anos em uma Organização Social em acolhimento institucional (SAICA- serviço de acolhimento institucional a criança e adolescente) visando a construção da cidadania, convivência comunitária e fortalecimento de vínculos, militante da causa de garantia de direitos da criança e adolescente. Sou aspirante a pesquisador em comportamentos, neuropsicologia, intervenções psicoterapêuticas, habilidades sociais e psicopatologias, ingressei na área através do congresso 23º Encontro de Serviços-Escola de Psicologia em 2016, sediado pela PUC-SP. Tenho afinidade em temas advindos da Psicologia Social, bem como sociedade contemporânea, filosofia, história, teologia e relações humanas. Colunista do Blog “Mundo da Psicologia”, com imenso prazer na leitura e escrita, a fim de ampliar e propagar conhecimentos.