Tenho o Direito de ter Raiva?

Tenho o Direito de ter Raiva?

745
Compartilhe

“Qualquer um pode zangar-se isso é fácil, mas zangar-se com a pessoa certa, na hora certa, pelo motivo certo e da maneira certa, não é fácil. ”

Aristóteles

  • Já passou por uma situação em que a raiva o tomou de maneira desproporcional?
  • Já fez algo no momento de raiva que minutos depois bateu o arrependimento?
  • Já parou para pensar o que essa raiva diz sobre você mesmo?

Momentos de reflexão, rs

Esses questionamentos podem nos remeter a possíveis situações nas quais estivemos em algum momento da vida envolvidos. E de certa maneira, tão pouco percebemos os possíveis estragos em relação as consequências posteriores, isso sem falar que acabamos naturalizando esse modelo emocional e comportamental de forma disfuncional.

Contudo, é importante conceituar e compreender o que é a raiva, bem como se dá seu funcionamento, e claro, se temos o direito de sentir e expressar essa emoção.

Mas, enfim, o que é a raiva?

De acordo com APA (2010) Raiva é a emoção caraterizada por tensão e hostilidade originada de fontes como frustração, ataque real ou imaginário por parte de outra pessoa ou injustiça percebida. Já para Lipp e Malagris (2013) a raiva se dá no intenso desconforto que resulta da percepção de alguma provocação, seja ela uma ofensa em desacordo, mau tratamento, rejeição, agressão, frustração e desmerecimento. Ou seja, a raiva é uma emoção que pertence ao leque de emoções que compõe o ser humano, e é extremamente importante para o bom funcionamento e produtividade do indivíduo.

Como a raiva pode ser uma emoção boa?

Simples, a raiva tem a função de nos fortalecer, nos conceder energia para enfrentar as adversidades do dia a dia. Esse comportamento emocional pode ser adequado ou inadequado, isso vai depender da maneira que cada um interpreta os eventos externos. Ou seja, não são os exatamente os eventos externos que nos causa a raiva, mas a maneira que interpretamos os ocorridos.

Quando a raiva deixa de ser saudável?

A raiva pode sim ser bem prejudicial, a expressão explícita de condutas desproporcionais, intensas e com o aparecimento de comportamentos agressivo, como por exemplo: Bater, xingar ou quebrar objetos é nocivo, e acarreta malefícios e prejuízos socais.

O resultado na maioria das vezes é a transformação maciça da raiva em mágoas, tristezas, ansiedade, sintomas psicossomáticos e transtornos mentais.

Tenho o direito de ter raiva?

SIM, temos o direito de sentir raiva. Essa emoção é inerente ao ser humano, todos nós em algum momento da vida vamos sentir e expressar de alguma forma, ela faz parte de quem somos, e é importante aceitar e legitimar tanto quanto as demais emoções existentes, e sabendo utilizar de forma funcional podemos conduzir a vida emocional de maneira saudável. Logo, teremos comportamentos e resoluções de problemas percebido de maneira mais funcional.  Mas, isso não é tarefa fácil, já dizia Aristóteles.

Você possivelmente pode se questionar o motivo pelo qual agimos de forma inadequada com respeito a expressão da raiva. Bom, quando ocorre o comportamento agressivo, precisamos de maneira minuciosa refletirmos sobre a nossa relação com raiva, se questionar desde quando agimos como agimos. Talvez, isso pode estar nitidamente ligado aos modelos parentais, os modelos que nos foram apresentados no processo de desenvolvimento, mídias. Enfim, são inúmeros os fatores que permeiam tal expressão. É válido fazer uma reflexão sobre nossa subjetividade em relação a expressão da raiva.    

Qual a forma adequada de expressão da raiva e tratamento?

Como já mencionado, o que nos causa raiva não são exatamente os eventos externos, mas a maneira que interpretamos estes eventos. Neste caso, é interessante pensar sobre  as crenças que temos sobre nós mesmos, os outros e o mundo, essas crenças acabam determinando a forma que compreendemos a vida, sendo assim, quando ocorrem os eventos aversivos, acabamos tendo pensamentos disfuncionais que desencadeiam comportamentos inadequados. Logo, a educação emocional é indispensável nessas horas, em outras palavras “Eduque suas emoções. ”

A educação emocional é um recurso primordial para quem sente que as emoções estão de alguma forma causando prejuízos significativos. Aprender também que a não expressão da raiva é tão prejudicial quanto expressar com comportamentos agressivos. Guardar e não resolver alguma situação pode gerar consequências mais graves, não é mesmo?  Reconhecer e nomear as emoções é um dos primeiros passos para a qualidade de vida, e melhores resoluções de problemas.

Para Alzina (2003) a educação emocional é definida como:

“… um processo educativo contínuo e permanente, que pretende promover o desenvolvimento de competências emocionais, como um elemento essencial do desenvolvimento integral da pessoa, com o objetivo de capacitar para a vida. Tudo isto tem como finalidade aumentar o bem-estar pessoal e social.” (ALZINA, 2003, p.27).

O processo de psicoterapia na abordagem cognitivo comportamental auxilia o paciente na elaboração, reconhecimento e nomeação das emoções. As estratégias cognitivas envolvem a reestruturação cognitiva (dar novos sentidos aos eventos) descrição dos pensamentos que desencadearam a raiva, bem como compreender e se atentar aos sinais que antecedem ela, ou seja, perceber, monitorar e agir de maneira saudável aos eventos, sem que a raiva seja algo prejudicial.

Ah, sem contar as estratégias comportamentais da psicoterapia que oferecem técnicas de respiração e relaxamento ao paciente, que por sua vez possibilitam a amplitude de ações mais funcionais no dia a dia.

Por fim, a raiva é uma expressão tão importante quanto as demais que possuímos, a maneira que expressamos dirá quem somos e como funcionamos diante do mundo.

Caso esteja em conflito com suas emoções, busque um profissional!!!

Referência Bibliográfica

O treino cognitivo de controle da raiva: o passo a passo do tratamento/ Marilda Emmanuel Novaes Lipp, Lucia Emmanoel Novaes  Malagris. 1. Reimp – Rio de Janeiro: Cognitiva, 2013. 

Dicionário de psicologia da APA – Porto Alegre: Artemed, 2010.

Views All Time
Views All Time
4855
Views Today
Views Today
2

Comentários

comments

Compartilhe
AnteriorComplexo de Édipo e as Contribuições Winnicottianas
PróximoO Lado Negro da Força: A Sombra em Anakin Skywalker (Star Wars)
Psicólogo clínico, graduado pela Universidade Cruzeiro do Sul, atuante na abordagem Cognitivo Comportamental, sendo esta minha paixão. Mantendo uma página no facebook intitulada @EryelPsi, sendo esta destinada a compartilhar conhecimento a cerca da terapia cognitivo comportamental, bem como assuntos pertinentes a sociedade contemporânea e suas ramificações. Trabalhei por 6 anos em uma Organização Social, com crianças e adolescentes, com projetos que visam a construção da cidadania, convivência e fortalecimento de vínculos. Sou aspirante a pesquisador em comportamentos, neuropsicologia, intervenções psicoterapêuticas, habilidades sociais e psicopatologias, ingressei na área através do congresso 23º Encontro de Serviços-Escola de Psicologia em 2016, sediado pela PUC-SP. Tenho afinidade em temas advindos da Psicologia Social, bem como sociedade contemporânea e relações humanas. Colunista do Blog “Mundo da Psicologia”, com imenso prazer na leitura e escrita, a fim de ampliar e propagar conhecimentos.