Considerações Sobre o Suicídio na Infância e na Adolescência

Considerações Sobre o Suicídio na Infância e na Adolescência

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Morte é um tema tabu. Suicídio é outro tema tabu, pouco discutido, até mesmo no âmbito acadêmico. E quando se trata de suicídio infanto-juvenil percebe-se que o assunto é praticamente silenciado.

No meio cientifico, existem poucas pesquisas sobre o assunto. Dados estatísticos sobre o suicídio na infância e na adolescência são imprecisos, pois grande número das tentativas e consumações do suicídio não é notificado ou são camufladas.

A população infanto-juvenil possui baixas taxas de morbidade e mortalidade, sendo que as principais causas de morte decorrem de doenças oncológicas e violência (homicídio e suicídio).

Estima-se que quase metade dos incidentes que envolvem crianças são tentativas de suicídio. Além disso, cerca de 2% a 12% da população jovem já apresentou comportamento suicida.

Observa-se que 30% das crianças e adolescentes que cometem o suicídio possuem histórico familiar suicida. Pesquisas apontam que o bullying tem contribuído para o aumento de números de casos de suicídios, sendo assim, considerado uma das principais causas desse fenômeno em crianças e adolescentes.

Outro fator que também tem contribuído é o aumento no índice de depressão infantil. Diversos autores têm apontado que a mídia tornou-se o terceiro maior motivador de suicídios e que quanto mais violenta for a localidade, maior é a taxa de tentativas e consumações do ato.

Fonte: yumeki

Pensar no suicídio na infância e adolescência também nos faz pensar e refletir sobre o conceito de morte durante o desenvolvimento. Estudos apontam que a criança passa a compreender o conceito de morte (universalidade, não funcionalidade e irreversibilidade) a partir dos nove anos. Antes disso, ela vê a morte como um processo reversível e transitório.

Entender o conceito de morte formado até o momento da tentativa facilita ao profissional de saúde analisar determinados fatores, tais como, gravidade, motivação, grau de consciência da intenção suicida, as crenças relacionadas ao suicídio e a intensidade/persistência da ideação suicida. Através disso é possível identificar se a letalidade da(s) tentativa(s) corresponde à seriedade das intenções, bem como identificar a funcionalidade daquele comportamento suicida.

Analisa-se que o comportamento suicida de menores de 15 anos está atrelado a decisões impulsivas e influências familiares. E que os comportamentos suicidas apresentados por maiores de 15 anos estão muitas vezes ligados à presença de transtornos mentais e uso de substâncias psicoativas.

Vem-se buscando determinar os fatores de risco e precipitantes para o suicídio infanto-juvenil. Alguns fatores de risco são:

  • Depressão maior;
  • Problemas familiares de diversas naturezas;
  • Intolerância à frustração;
  • Abuso físico e/ou sexual;
  • Conduta suicida de familiares ou amigos;
  • Acesso a armas de fogo;
  • Transtornos psiquiátricos.

Dentre os conflitos familiares, os mais comuns tem sido:

  • Separação dos pais;
  • Ausência de uma das figuras parentais;
  • Violência familiar;
  • Abuso físico e/ou sexual;
  • Falta de comunicação entre os pais.
Fonte: laverdaddiario

Os maiores índices de suicídio ocorrem ao final da adolescência, compreendendo a faixa etária dos 15 aos 24 anos. Surge ai fatores de risco mais específicos, tais como:

  • Isolamento social e/ou abandono;
  • Violência intrafamiliar;
  • Histórico de abuso físico/sexual;
  • Transtornos de humor e personalidade;
  • Transtornos mentais;
  • Impulsividade e estresse;
  • Sentimentos de solidão, desespero e incapacidade;
  • Uso de álcool e outras drogas;
  • Condições socioeconômicas;
  • Homossexualismo;
  • Bullying;
  • Dificuldades de aprendizagem e baixo rendimento escolar;
  • Condições de saúde desfavoráveis;
  • Oposição familiar a relacionamentos sexuais e decepções amorosas.

Entretanto, apenas conhecer os fatores de risco não é suficiente para evitar comportamentos suicidas. Há casos em que crianças e adolescentes estão expostos a um ou mais fatores de risco e não possuem comportamentos suicidas, assim como há casos em que pode-se não estar exposto a nenhum fator de risco e ter-se um comportamento suicida.

Por isso, enquanto profissionais da saúde, é imprescindível conhecer os fatores de risco e saber interpretá-los e manejá-los. É necessário também conhecer toda a dinâmica do suicídio e quais as características envolvidas nesse fenômeno para que se possa identificar e manejar situações de risco, bem como pensar em propostas de intervenção e criação de fatores de proteção.

Identificar os fatores de proteção se torna tão importante quanto saber os fatores de risco, uma vez que somente assim será possível construir estratégias de prevenção ao suicídio e atenuar os fatores de risco.

REFERÊNCIAS

BRAGA, Luiza de Lima; DELL’AGLIO, Débora Dalbosco. Suicídio na adolescência: fatores de risco, depressão e gênero. Contextos Clínic,  São Leopoldo ,  v. 6, n. 1, p. 2-14, jun.  2013. 

COURA, Danielle M. Silva. Suicídio infantil: estudo dos multifatores de risco suicida. UNIP: São Paulo. 2013.

KUCZYNSKI, Evelyn. Suicídio na infância e adolescência. Psicol. USP,  São Paulo ,  v. 25, n. 3, p. 246-252,  Dec.  2014. 

SCHLOSSER, Adriano; ROSA, Gabriel Fernandes Camargo; MORE, Carmen Leontina Ojeda Ocampo. Revisão: comportamento suicida ao longo do ciclo vital. Temas psicol.,  Ribeirão Preto ,  v. 22, n. 1, p. 133-145, abr.  2014. 

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