Os Sentimentos Especiais dos Pais de Deficientes

Os Sentimentos Especiais dos Pais de Deficientes

177
Compartilhe

Uma mulher nunca entra em um hospital para dar à luz, emocionalmente preparada, para uma criança deficiente, pois as chances de que ela tenha um bebê saudável, como todos os pais idealizam, são muitas. Independente de qual seja à força de uma pessoa, dificilmente ela se encontra de fato preparada para se defrontar com o desespero real.

“É muito difícil alguém se furtar à dor durante toda a vida, pois assim como yin e yang, a alegria e a dor andam juntas. Na maioria das vezes, a dor que vivemos é temporária, vai tão rápido quanto vem. Nada mais é do que outro evento consciente que se aprende a esperar no processo normal da vida. Como tal, é vivido e depôs esquecido. É possível, porém, que muitas pessoas vivam sem conhecer o verdadeiro desespero, o tipo inevitável que não será esquecido, mas com o qual se deve conviver. Aquele que não se pode modificar. A pessoa terá de mudar seu estilo de vida e seus sentimentos a fim de acomodá-lo, pois ele estará sempre presente, não se pode escapar dele. A deficiência permanente pode provocar esse tipo de desespero”.

O choque inicial a essa percepção e o conseqüente sentimento de descrença serão determinados, a princípio, dependendo de até que ponto a deficiência é claramente visível ou irremediável. Com certeza ela não está pronta para o conhecimento de que seu filho talvez tenha de viver com uma deficiência por toda a vida, a qual poderá impor limitações permanentes a todas as atividades e que exigirá dela, assim como dos outros membros da família, tempo, energia e dinheiro em proporções extraordinárias.

A criança perfeita que esperavam não veio e, em seu lugar, terão de aceitar algo muito aquém de suas expectativas, pois a tomada de consciência traz consigo urna dor profunda e a decepção para toda a família. Uma deficiência tal como a paralisia cerebral ou a ausência de membros em um recém nascido não passará despercebida, uma constante lembrança da dor daquela família.

Fonte: Cantinho dos Cadeirantes

Portanto, a priori, é mais difícil de lidar com o aspecto físico e visível do que com a deficiência interna, aparentando uma criança perfeita. Neste ultimo caso, porém o estresse e a ansiedade vêm do fato de que a extensão real do problema não pode ser avaliada e os pais estarão constantemente à mercê de um futuro imprevisível, observando e esperando.

Algumas mães sentem-se pessoalmente responsáveis pela condição em que seu filho vem ao mundo, questionando-se por não terem sido mais cuidadosas durante a gestação. Pensamentos e emoções como esses produzem fortes sentimentos de auto-recriminação e autocensura instalando-se profundos sentimentos de culpa.

Os pais de deficientes demonstram essa recriminação aparentando sentirem vergonha, sentimento esse mais centrado nos outros do que a culpa. Aqui, a preocupação é com as atitudes das outras pessoas:

– “O que os outros vão pensar?”.

– “O que vão dizer?”.

Isso acontece, pois a vergonha atinge o âmago do nosso ser e alcança as camadas mais profundas de nossas emoções. Quando os indivíduos se tornam pais, vêem seus filhos como umas extensão de si mesmos, ou seja, esses pais esperam que seus filhos, de certa forma, se tornem um reflexo do melhor de si próprios e sentem-se envergonhados quando isso não acontece. Quando qualquer esperança com relação à isso lhes é tirada, sentem-se indefesos, desesperados e envergonhados.

O medo é outra emoção comum aos pais de deficientes, pois temos um medo natural daquilo que não compreendemos. Em histórias em quadrinhos, o medo é representado como grupo de nuvens negras pairando ameaçadoras sobre determinado indivíduo.

“Parecia que eu estava sempre sendo perseguida por negras nuvens de medo, que constantemente impediam qualquer percepção clara. Essas nuvens impenetráveis tornavam a tomada de decisões quase impossível para mim no inicio. Eu simplesmente não podia ver através delas.” (Desconhecido).

Acompanhando o medo vem a incerteza — em relação à criança, à deficiência e ao seu prognóstico, à eficiência do médico, reações das pessoas a nós e à criança. Incerteza em relação ao novo papel e capacidade, ao nosso futuro e ao da criança.

Não é raro, portanto, que após o nascimento da criança, um dos pais siga um período de profunda depressão. É um momento em que não se deseja pensar, planejar, sentir ou fazer qualquer outra coisa, se tornando um modo de fuga, caracterizado por apatia e vazio, pois a dor emocional se torna tão aguda e penetrante que a pessoa resvala para uma espécie de inconsciência lógica.

Portanto, os pais seguem a vida em piloto automático, resultando em lágrimas, aparentemente sem dor e impróprias, fluem de modo espontâneo, para provar que as emoções estão lá e que, em seu tempo próprio, de uma forma ou de outra, irão se manifestar.

Em contrapartida, há pais que reagem de forma oposta, aparentando estarem felizes e dispostos a enfrentar o que vier pelos seus filhos, na tentativa de convencer os demais (e a sí mesmos) do quanto são fortes e como estão preparados e que amam o filho, independente de sua incapacidade e que a vida para eles seguirá em frente.

Fonte: Acessibilidade.Net

Esses pais sufocarão a dor e o desespero. Suas lágrimas serão secretas, permitidas apenas nos momentos em que estiverem sozinhos. A dor será intensa, como a de todos os outros, mas eles a manterão sob-controle. “De que adiantariam as lágrimas?”.

Há muitos desses mecanismos contra a dor. Podemos racionalizar e encontrar boas desculpas para nossas ações e reações; podemos projetar os sentimentos, culpando outras pessoas por nosso desespero e infelicidade; podemos procurar bodes expiatórios convenientes aos nossos desajustamentos; podemos culpar o médico, o cônjuge e mesmo a Deus ou a sociedade em geral; podemos sublimar esses sentimentos de medo e inadaptação e supercompensá-los tentando ser o melhor pai ou mãe do mundo. Esses padrões de defesa são formados sob grande tensão. Na maior parte dos casos, representam um quebra-galho, não uma solução permanente. Como tal, servirão a seu propósito, mas a longo prazo, cobrarão seu tributo. O controle das emoções consome muita energia. Não é fácil representar um papel falso. Fingir bem-estar é uma atitude superficial e vazia. Na maioria das vezes, a determinada altura, os pais serão forçados a encarar seus verdadeiros sentimentos em relação a si próprios, à família, ao filho deficiente e à deficiência.

Nem sempre os mecanismos de defesa são nocivos. A maioria de nós faz uso deles, em certo grau, para manter nossa existência diária. Mas é a dependência excessiva a esses sistemas que trará problemas adicionais. Esse processo de encarar sentimentos e, em especial, emoções fortes não é fácil, sob qualquer aspecto. Exigirá força, honestidade, insight, inteligência e sensibilidade. O preço é alto, mas a recompensa é maior ainda.

Deficiências são fatos, são reais. A inabilidade em atender a todas as necessidades que implicarão não é um indício de fraqueza, inadequação, ou ignorância. Em vez disso, trata-se de uma afirmação de que somos seres humanos como todos os outros, imperfeitos, gerando sentimentos nada previsíveis e lógicos, portanto, não é algo simples lidar com eles.

Queremos ter certezas e não dúvidas — resultados e não experiências —, sem nem mesmo percebermos que as certezas só podem surgir através das dúvidas, e os resultados somente através das experiências. CARL JUNG – The Stages of Life.

Por essa razão é tão importante e necessário o acompanhamento terapêutico nesses casos. Procurem auxílio e cuidem-se, pois precisamos estar bem para poder e conseguir cuidar do Outro.

REFERÊNCIAS

Ed. Os deficientes e seus pais / Leo Buscaglía; tradução de Raquel Mendes, — 5ª ed. — Rio de Janeiro: Record, 2066. Tradução de: The disabled and their parentes

Views All Time
Views All Time
401
Views Today
Views Today
5

Comentários

comments