Relações de Poder, Gênero e Trabalho: As Facetas do Machismo Contemporâneo

Relações de Poder, Gênero e Trabalho: As Facetas do Machismo Contemporâneo

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Inicio meu texto, sem saber por onde começar e o que escrever, pois é, justamente eu que tenho tanta facilidade na escrita e em me expressar desta forma. Então, percebi que não é a falta do que falar, vai muito além, até por que como se explica algo inexplicável, de forma sucinta, objetiva e coerente?

Não é fácil ser mulher e explicar o emaranhado da subjetividade que o “Dia internacional da mulher” carrega. Até por estar em um movimento interno também, de estar desconstruindo crenças machistas diariamente.

O machismo tem várias facetas. Aquele explícito não está mais “na moda”, mas ainda acontece e muito. As mudanças na sociedade às quais o homem está sujeito, o leva a modificar sua relação com as mulheres em geral. Elas tem sempre mais espaço e poder social, são colegas e chefas, estão na televisão e nos órgãos de governo. Tornou-se complicado praticar o machismo explícito, e também muitos homens não acreditam mais nele. Nem por isso, chegamos à idade de ouro das relações de gênero.

É através do trabalho que o homem consegue ser capaz de criar a felicidade, mas essa afirmativa parece se constituir muito mais como um desejo do que propriamente como condição da sociedade contemporânea. Ao mesmo tempo em que o trabalho possibilita ao homem tornar-se eterno, deixar sua marca para as gerações futuras e assim recriar-se, é no trabalho que a subjetividade pode ser aviltada.

O homem aprendeu a dominar a natureza e quando estabeleceu novas formas de organização do trabalho passou a dominar seus semelhantes. Esta discussão põe em foco um aspecto específico dessa dominação do outro, representada pela opressão nos ambientes de trabalho, principalmente pelo machismo.

O machismo é um conjunto de leis, normas, atitudes e/ou traços sócioculturais do homem cuja finalidade, explícita e/ou implícita, tem sido e é, produzir, manter a submissão da mulher em todos os níveis: sexual, procriativo, trabalhista e afetivo. Portanto, suas decorrências não se limitam às relações de trabalho.

Na sociedade em que vivemos a relação entre homens e mulheres é baseada na desigualdade. Entre as inúmeras manifestações dessa desigualdade está a violência sexista, ou seja, seu alicerce está na subordinação das mulheres, destacando as relações de poder que estão presentes em ambos os casos, configurando uma imposição hierárquica.

Entre tantas facetas do machismo, encontra-se o estilo, no qual, o homem é governado pela perspectiva de superar aquele tipo de dependência da mulher, que o deixa inseguro todas as vezes, em que sente estar perdendo o controle sobre os movimentos dela. Ele absorveu algumas necessidades humanas, do tipo: respeito, liberdade de expressão e de movimento. Reconheceu na mulher uma individualidade diferente com suas próprias legítimas exigências. Mas o que acontece se ela for mais inteligente do que ele? Ou mais culta? Ou ganhar mais?

Nesta situação, a disputa pelo poder continua não no plano físico, mas naquele mental e intelectual. É bastante normal uma mulher aprender com seu homem, ele lhe explicar alguma coisa, abrir-lhe horizonte, levá-la para novos lugares reais e metafóricos. Mas será que ele aceita o mesmo? Sente-se ele à vontade para ter uma troca honesta e harmoniosa com ela, onde a reciprocidade é um fato e não um termo vago? Mulheres mestras, gurus, intelectuais podem ser reconhecidas e apreciadas sem tirar nada à identidade masculina do homem, mas o mesmo acontece raramente com a mulher com quem vive e dorme. 

O machismo explícito como o pirracento remetem à mesma raiz: ambos são infantis. Um usa a força para impor sua vontade, o outro a pirraça. Entre medo e sentimento de culpa as mulheres tendem a deixarem-se dobrar.

Vivenciei na prática uma situação dessas, inclusive por trabalhar em uma área, no qual, existe e muito a disputa pelo poder. Sou Neuropsicóloga e atuo principalmente na área da Saúde Mental, ou seja, é necessário o meu contato direto com Neurologistas e outros médicos.

Atendi um caso, em que não concordava com o diagnóstico dado à criança, no caso de Transtorno do Espectro Autista, desde pelas minhas observações clínicas, avaliação e experiência na demanda. Foi exposto à família, o neurologista foi questionado e mais uma vez, a voz da mulher não foi prevalecida.

Como uma profissional mulher, que não é médica, está contrariando um médico neurologista, especializado em TEA e com anos a mais de profissão?. Não entrarei no mérito do que foi dito à mim, mas só posso lamentar pela criança, por ela está recebendo o tratamento equivocado, com possibilidade de agravar seu prognóstico e inserido em um ambiente machista também, pois após consulta com o médico, desconsiderando a minha posição profissional, a família o retirou da instituição, na qual, eu trabalho.

Se formos analisar, o perfil da dinâmica familiar e a postura dos pais, se encaixa perfeitamente no que estamos falando, mãe submissa e pai controlador e autoritário, bingo.

Bem diziam os estudos de psicanálise da primeira infância que a construção da identidade masculina é mais complicada para o menino do que para a menina, que distingue-se da mãe mas é ela mesma mulher. O homem moderno, que tem, geralmente, exemplos masculinos falhos em seus pais ou que simplesmente não quer ser como ele, e que, por outro lado, não está confortável em transformar sua mulher numa mãe à qual obedecer, onde encontra esse homem modelos de referência? O que é ser homem afinal?

Nesses tempos de transição e crise, tem-se a impressão que, caindo a armadura do machismo, todos vão poder ver que “o Rei está nu”.

REFERÊNCIAS

GRASSI, M.V.F.C.; THIELEN, I. P. Departamento de Psicologia – Universidade Federal do Paraná – Curitiba, PR, Brasil (mv.grassi@terra.com.br; thielen@terra.com.br).

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Psicóloga clínica, especialista em Neuropsicologia infantil, pelo CEPSIC – Hospital das Clínicas da FMUSP. Atende na região do Grande ABC em equipe multidisciplinar e consultório Particular, com foco em transtorno do desenvolvimento infantil, principalmente Transtorno do Espectro Autista (TEA) e Transtorno de Humor em adolescentes e adultos. Admiradora, apaixonada e grata pela Psicologia, tendo como um de seus maiores objetivos, propagar informação e conhecimento em torno dessa profissão tão encantadora.