A psicopatia infantil implícita no filme ‘Precisamos Falar Sobre Kevin’

A psicopatia infantil implícita no filme ‘Precisamos Falar Sobre Kevin’

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Algumas pessoas gostam de, após assistir a algum filme, refletirem sobre a experiência cinematográfica e saírem dele transformadas. Se você é uma dessas pessoas, assista Precisamos Falar sobre Kevin. Você, certamente, não verá mais a relação entre pais e filhos da mesma maneira que antes.

A história, baseada num livro de Lionel Shriver, é um drama psicológico conduzido por Eva (interpretada brilhantemente por Tilda Swinton), que vai despindo suas memórias de maneira não-linear ao público. Assim, aos poucos, conseguimos perceber que o drama central é a relação dela com seu filho Kevin (Ezra Miller), que aparenta possui claros sinais de psicopatia.

A relação dos dois, em momento algum, se mostra sadia. Kevin, desde pequeno, não interage com a mãe e, posteriormente, com a irmã mantendo certa distância, possuindo até mesmo momentos de violência. Por outro lado, tolera o pai, apesar de também não mostrar momentos de afeição durante todo o longa. Assim, aos poucos, os traços de psicopatia no garoto vão sendo introduzidos.

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Fonte: filmecomrapadura.com

Um traço interessante a ser analisado é a relação dos pais com o garoto. Fica claro para qualquer um que Kevin possui traços de psicopatia. Até mesmo o pai, que praticamente vê apenas o lado bom do garoto, deve, em algum momento, ter notado o distúrbio psicológico. Mas, mesmo assim, não falam sobre isso; se falassem, um possível tratamento poderia ter sido feito e a tragédia evitada.

Trazendo o conteúdo do filme para uma relação teórica, a psicanalista Melanie Klein traz teorias que se encaixam perfeitamente com as características apresentadas por Kevin e pela mãe, Eva.

Desde a concepção do filho, Eva não estava feliz, ela não se sentia preparada e á vontade para criar e amar aquela criança que crescia em seu interior. Para a autora citada, a relação da mãe com o bebê é a base para a vida futura, para ela o bebê já possui um conhecimento inconsciente inato sobre a existência dessa mãe.

Devido à falta de aceitação de Eva com a gravidez não ocorreu o sentimento de unicidade (que é o fato do inconsciente do bebê e da mãe estarem interligados para conhecimento mútuo), durante o parto Eva resistia á dar a luz e isso pode ser explicado como uma forma de rejeição dela para com o bebê. A criança percebe essa rejeição mesmo dentro do útero, devido a essa falta de união e da falta de vontade da mãe em parir.

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Eva após dar a luz a Kevin

Fonte: alguminfinito.com

Além dos cuidados básicos, como higiene e alimento, a criança necessita dos cuidados emocionais, como amor, carinho e compreensão. Kevin desde o nascimento não possuía esses cuidados emocionais vindos de sua mãe, isso leva o bebê a um estado esquizo-paranóide (de zero a três meses de vida), no qual o bebê vê o mundo como ameaçador devido á falta de acolhimento, gerando choro excessivo.

O ato final do personagem de Kevin, no qual ele realiza um assassinato em massa em sua escola e a maneira com a qual a mãe Eva lida com o acontecimento. A poucos dias de completar dezesseis anos Kevin premedita o ataque na escola, mas seu objetivo central é atingir a mãe, pois com essa idade as acusações cairiam sobre ela. Como imaginado pelo garoto a mãe é levada ao tribunal para responder ás atitudes do filho.

Além do ataque na escola, Kevin mata o pai e a irmã, o que gera ainda mais problemas para sua mãe. Eva perde tudo o que tem e é hostilizada pela população da cidade, pois elas consideram que Eva havia criado um monstro, seu filho Kevin. Essa reação das pessoas ao seu redor mostra o quão pouco racional é a atitude das pessoas após um desastre ou acontecimento trágico.

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Kevin durante o ataque á escola

Fonte: R7

Eva faz visitas periódicas ao filho na prisão, mas todas as vezes ele permanece em silêncio, ignorando as perguntas da mãe. Na última visita, quando Kevin está prestes a ser libertado, ao se despedirem a mãe pede um abraço e ele retribui, pela primeira vez podemos observar uma demonstração afetiva aparentemente verdadeira entre eles.

Retornando para casa, Eva reconstrói o quarto de Kevin exatamente como era antes do ocorrido, demonstrando culpa por ter criado um filho visivelmente perturbado e com objetivo de criar reparação para com os laços deles.

Enfim, Precisamos falar sobre Kevin, é um retrato frio, mas, curiosamente, emocional sobre a psicopatia infantil e o papel importantíssimo que a família exerce sobre uma possível reversão em sua psicologia. Afinal, o mais importante é falar sobre Kevin. É falar sobre os problemas que o cercam. O importante é falar.

Texto escrito em parceria com a colunista Gabriela Blasi.

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