Psicologia, Reflexão e a Série ‘13 Reasons Why’

Psicologia, Reflexão e a Série ‘13 Reasons Why’

1455
Compartilhe
Fonte: Jovem Nerd

Gostaria de começar esse texto deixando bem claro que esta é a minha opinião crítica, depois de assistir com atenção aos episódios da série e refletir bastante acerca do que eu acredito e do que eu estudei em 05 anos de faculdade.

Sei que muitos defendem a série com unhas e dentes, dizendo que é a melhor série do ano, que não incita o suicídio, etc. Eu discordo totalmente. Pra mim essa série foi feita de forma extremamente desnecessária e beira o absurdo em alguns aspectos. Vamos aos meus porquês:

1) A série mostra, com detalhes, o suicídio de Hannah Baker

O último episódio mostra o último porque de Hannah Baker ter tirado a própria vida, com cenas do ato bastante explícitas, que para mim, uma mulher de 24 anos foi DEMAIS. Eu vejo filmes e cenas fortes sempre, porque como acredito que a Psicologia está em tudo, costumo assistir a filmes e séries de terror, suspense, drama para poder discutir e refletir como estou fazendo agora.

Porém assistir aquilo foi DEMAIS (“too much” como diriam em inglês), foi difícil até ouvir os sons do momento. Acredito que toda e qualquer cena de violência tenha dois lados:

– criar aversão e confirmar ao leitor que ele nunca faria algo assim;

– dar abertura e confirmar que existe aquela possibilidade para encerrar o sofrimento.

Para mim o segundo é o mais sentido na hora desta cena, pessoas que estão sofrendo com transtornos psicológicos ou com qualquer tipo de violência (violência física, sexual, psicológica, bullying na escola, entre ‘amigos’, assédio no trabalho, etc.) provavelmente vão ver isso como saída!

E aí? Quem se responsabiliza pelo resgate dessas pessoas?

Fora que é uma forma apresentada como barata, ela rouba lâminas de gilete da loja dos pais (mas que não custariam muito) e faz tudo em casa.

Indo totalmente contra a regulamentação da OMS – Organização Mundial da Saúde acerca de mostrar imagens deste tipo e ignora os estudos que mostram que essas cenas aumentam SIM a probabilidade de suicídio!

Fonte: Crônicas do Agora
Fonte: Crônicas do Agora

2) A série não mostra NENHUMA outra saída para o sofrimento dela

Hannah foi negligenciada pelos pais, que estavam tão preocupados com os problemas financeiros, que não conseguiam ver as dificuldades da filha. Mas, isso acontece todos os dias, em muitas casas. Já parou pra pensar que nosso sistema capitalista nos exige 24hs por dia? Que trabalhamos para poder ter dinheiro e dar o melhor para os filhos? E muitas vezes esse esforço todo não nos deixa atentar para o que acontece na nossa casa?

E Hannah? Ela poderia ter contado aos pais pelo que estava passando, porque eles não sabiam! Mas ela estava tão entristecida que não conseguia verbalizar tudo aquilo, não queria preocupar os pais com mais uma questão.

Porém, é preciso saber que existem alternativas para transformar o sofrimento psicológico em possibilidades de vida, e mesmo que Hannah não tivesse buscado, poderiam ter sido apresentadas no episódio final ou indiretamente durante a série, para mostrar as pessoas que existe outra saída! Isso não é abordado!

  • Aqui no Brasil:

– CVV: Centro de Valorização da Vida, ligue 141 (http://www.cvv.org.br/);

– Atendimento Psicológico: estamos a disposição para indicar locais particulares (com preço acessível) e gratuitos para que você busque Psicoterapia, nos contate via inbox no Facebook ou através do mundodapsico@gmail.com;

– Atendimento Psiquiátrico de Emergência: CAISM 24hs – Centro de Atenção Integrada à Saúde Mental Vila Mariana (em São Paulo/SP), ligue 3466-2100;

– Atendimento Combinado (Psicologia + Psiquiatria / Acompanhamento): CAPS – Centro de Atenção Psicossocial, procure o mais próximo a você, existem diversas unidades;

– Delegacias da Mulher: se você sofre/sofreu com violência física, sexual e/ou psicológica busque ajuda nas DDMs da sua cidade, muitas delas possuem um Psicólogo de plantão que pode te ajudar no ato da denúncia e as Assistentes Sociais estão preparadas para indicar abrigos e grupos de apoio. Temos texto sobre o assunto AQUI.

Fonte: opiniaoepalavras.com
Fonte: opiniaoepalavras.com

3) Não informa sobre os dados acerca do suicídio, deixando tudo muito ‘solto’

Não apresenta nenhuma estatística acerca do suicídio na adolescência, não aborda nenhuma ação anti-bullying, não fecha o ciclo da questão (não chega ao fim o processo contra a escola, não mostra o que acontece com os outros envolvidos, etc.) e não apresenta formas para que os pais/educadores identifiquem esse sofrimento em seus filhos/alunos.

*Sei que a série terá 2ª temporada e que os autores disseram que ainda não terminou a história de Hannah, mas não acho correto deixar um assunto tão pesado sem amarração.

Atenção a fala? Depois da última fita revelando a conversa com o Conselheiro? SEMPRE! Ele deveria ter alertado a família de Hannah acerca do conteúdo da conversa, ela deu algumas pistas acerca do sofrimento e de como pretendia agir quanto a isso, ele deveria ter investigado mais a fundo, fazer perguntas abertas que fizessem com que ela falasse mais livremente, deixa-la falar sem julgar. Mas lembrando, ele é CONSELHEIRO, de uma escola, e escolas em sua maioria não se importam com o bem estar psicológico dos alunos. Ele não é PSICÓLOGO, ou pelo menos, na escola, não executa esse papel!

E, lembrando, as sessões são sigilosas sim, entretanto quando o paciente/cliente ameaça a própria vida ou a vida do outro o sigilo pode e deve ser quebrado. Os responsáveis devem ser contatados imediatamente e isso deve ser dito ao paciente/cliente para que ele não se sinta traído, mas sim protegido.

Fonte: Huffington Post
Fonte: Huffington Post
  • Alguns passos para identificar sofrimento e possível ação suicida:

A) Comportamento

A pessoa vem sofrendo com tristezas intensas (pequenas situações tornam-se grandes)? Diz que não tem vontade de viver? Possui indiferença frente a tudo (até coisas positivas)? Não consegue partilhar de alegria dos amigos/família (está sempre nos cantos, não participa de festas/aniversários/encontros)?

Pode ser que essa pessoa esteja em grande sofrimento, o que você pode fazer? A primeira opção é conversar (ou relatar o caso a um responsável, no caso da pessoa ser menor de idade), perguntar como a pessoa está, porque vem se afastando e NÃO JULGAR, os motivos são grandes pra ela, mesmo que para você não sejam. Depois, você pode indicar que essa pessoa procure ajuda especializada, de acordo com as opções que colocamos ali em cima, bem como se dispor para ajuda-la no que estiver a seu alcance. Seja compreensivo e escute! 

B) Avisos

Se a pessoa diz querer tirar a própria vida (“não quero mais viver”, “quero que isso acabe”, “não quero ser um peso na vida de vocês”, “vai ser melhor se eu não estiver aqui”, etc.) não é para chamar atenção! Ela realmente pensa (pensou) nessa possibilidade, porque não consegue encontrar outra. Não menospreze! Ofereça ajuda!

C) Abuso de drogas e/ou álcool

Seu amigo começou a beber muito de repente? Bebe em dias que não costumava beber? Leva bebida alcoólica escondida ao trabalho/escola? Podemos ver esse comportamento na Jéssica, personagem também da série, ela possui dificuldades em lidar com as questões que ocorreram com ela e recorre ao álcool (porém ela consegue se libertar da bebida e se abrir com seu pai no último episódio). Isso pode ser um aviso de que algo não está legal, de que a embriaguez é um recurso para não entrar em contato com a realidade tão sofrida. Novamente, converse! Diga que existe ajuda de outro jeito, álcool e drogas não são amigos, não são solução para nada!

D) Correr para resolver assuntos pendentes

De repente a pessoa começa a resolver tudo na vida dela, até o que não precisaria ser resolvido tão cedo (encerra conta em banco, doa roupas que ainda estão ‘boas’, deixa objetos queridos com amigos, procura quem possa ficar com os animais de estimação se precisar ‘ficar fora’, vê se alguém da empresa poderia substitui-lo por um tempo, vende o carro, etc) é um sinal de alerta! A pessoa pode estar se preparando para deixar tudo ‘no jeito’ para sua partida.

4) Também não apresenta saída para os demais personagens

Justin sofre com uma família disfuncional, Jéssica sofreu abuso sexual, Sheri sofre com a culpa de ter causado um acidente que matou um colega, Alex sofre com um pai abusivo emocionalmente, Tyler também sofre bullying na escola, Tony sofre por não poder ser quem realmente é (não pode mostrar que é homossexual), Marcus quer chamar atenção para a masculinidade dele (tendo um comportamento ofensivo), Ryan é narcisista e não consegue enxergar que está machucando as pessoas em função da sua popularidade, Zach tem sentimentos e os esconde para manter a pose de ‘jogador durão’, Courtney não consegue aceitar sua orientação sexual (e também sofreu quando criança por ter pais homossexuais), o Conselheiro sofre com a situação da culpa, do processo da escola e com a situação familiar com a esposa, Clay sofre por todo conteúdo que ouviu nas fitas e ao ver que todos estavam acobertando suas dificuldades emocionais, que resultaram em todo desenrolar da série.

Fonte: Youtube.com
Fonte: Youtube.com

E o Bryce? Devem achar que ele não sofre, mas ele sofre, só não percebe ainda e provavelmente vai sofrer muito mais…Porque? Porque ele foi criado sem limites, tendo tudo que queria e um pouco mais, isso traz muitos prejuízos para a pessoa e aos que estão ao seu redor (vide seus atos).

Qual saída foi mostrada pra esses jovens e seus sofrimentos? NENHUMA!! Absurdo! Absurdo! Só evidencia mais ainda a questão de que a série se apresenta de forma irresponsável.

Enfim, finalizamos esse longo e necessário texto (me empolguei), porque estou muito preocupada na forma como as pessoas vem lidando com o assunto. É preciso estar atento e conversar com seu filho, pai, amigo, colega, companheiro de vida. É preciso se informar para conseguir identificar, encaminhar, informar outra pessoa com os dados corretos! A sua vida é importante, a vida dele é importante! Existe saída! <3

Views All Time
Views All Time
808
Views Today
Views Today
1

Comentários

comments