O Peso da Masculinidade

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“Um homem também chora
Menina morena
Também deseja colo
Palavras amenas

Precisa de carinho
Precisa de ternura
Precisa de um abraço
Da própria candura…”

Gonzaguinha

Composta na década de 1980, a música Um homem também chora trouxe em seu enredo principal o homem e o mito da masculinidade. Uma reflexão da maneira como a sociedade é estruturada, cercada de muros e aprisionamentos sociais. O homem somente homem, quando detentor de seus deveres e obrigações.

Mas, afinal: O homem também chora?

O que é ser homem está associado a uma carga de regras de comportamento pessoal e social, que com o passar dos anos definem a masculinidade do sujeito. Segundo Bourdieu (1999 apud SANTOS, 2010), é ainda na família que são ensinados os primeiros modelos sociais de comportamento masculino, então as instituições religiosas contribuem, em sua maioria, com seus dogmas patriarcais, supervalorizando o homem em sua essência, há a escola e, no meio de tudo isso, a sua participação no convívio e nas interações sociais, orientados por diversas regras.

Logo os meninos ouvem essas seguintes afirmações:

“Anda que nem Homem”

“Fala que nem homem”

“Medo é coisa de mulherzinha”

“Se você apanhar na escola, eu te bato!”

“Engole o choro”

“Você é sensível demais para um homem”

“Deixa de ser viadinho.”

Essas são algumas frases que os garotos ouvem no decorrer da vida, que formam a construção da identidade masculina, permeada por estereótipos e estigmas do que é aceitável ou não pelo padrão ideal de masculinidade.

Desde pequenos, os meninos são ensinados por meio de contos, ilustrações e histórias que o mundo é violento e que existem vilões e guerreiros imbatíveis. Fora isso, é claro, a mídia exerce papel essencial nessa alienação e no reforço dessas ideias. A imagem do personagem forte, viril e corajoso, o “Herói”, é o modelo de homem ideal para esses homens no início do desenvolvimento. Por sua vez, aprendem que a violência é um dever do gênero masculino, onde os objetivos sãos alcançados mediante o uso da força. Com o passar do tempo, o menino passa a restringir e desprezar suas emoções, controlando os sentimentos que, segundo essas crenças, possam o tornar vulnerável, já que ser fraco e chorar não é coisa de “macho”, e sim de “mulherzinha”.

O período da adolescência é caraterizado pelo capital viril, o homem precisa provar sua masculinidade a qualquer custo, a sociedade incentiva a manifestação da sexualidade, sendo um modelo forte, viril e másculo, em detrimento às mulheres que são, dentro dessa ideia, frágeis, dóceis e femininas. Qualquer homem que porventura se distancie desse padrão de “Macho Alfa” é descaracterizado e obviamente estigmatizado. Os grupos sociais indicam e reforçam categoricamente os estereótipos hipermasculinazados e extremamente nocivos ao indivíduo. Diariamente, os noticiários citam a incidência entre homens de irresponsabilidade na direção, drogas/bebidas e brigas, ou seja, tudo o que demonstre o poder que supostamente é concedido a eles.

Sem contar o exercício obrigatório de uma profissão que seja reconhecida e valorizada no ambiente profissional, essa socialmente vista como principal ferramenta da identidade masculina, tornando-se o provedor insubstituível, uma vez que comporta valores morais e éticos; quando essa atuação é pouco satisfatória, desencadeiam-se sentimentos expressos de fraqueza, insegurança e fracasso, gerando o adoecimento no que tange à saúde emocional, o que aumenta cada dia mais.

Observa-se muito a discussão do que é ser mulher, bem como seu papel na sociedade. No entanto, pouco se fala sobre o que é ser homem, seu peso, carga e restrições diante de uma sociedade machista, esquecendo-se que o machismo afeta também, obviamente menos, o masculino; logo, a crença sempre é reforçada no sentido de sua superioridade, homogeneizando a experiência do homem como indivíduo.   

São necessário espaços de discussão que propiciem meios de expressão e produção da subjetividade masculina, para desmistificarmos conceitos que reforçam cada vez mais o machismo. Lugares nos quais os homens possam expandir de maneira efetiva, e afetiva, suas necessidades e anseios, sem serem julgados por suas atitudes de forma estereotipada e limitadora, para que possam rever sua masculinidade e vivê-la em uma configuração menos tóxica e violenta. Para isso, a educação pessoal e social necessita de uma reestruturação, visto que ainda se vê pais e responsáveis exercendo a reprodução maciça dos ensinamentos padronizados e mantenedores do machismo.

Homem chora sim, sabe por quê? O choro é um mecanismo fisiológico e inato a qualquer indivíduo, relacionado com elementos emocionais muito mais complexos do que o querer ou o poder, independente do gênero.          

Referência Bibliográficas

Rapport de Pesquisa Qualitativa. Precisamos falar com os homens? Disponível em: <https://issuu.com/onumulheresbrasil/docs/relat__rio_onu_eles_por_elas_pesqui>. Acesso em 04 de Maio de 2017.

SANTOS; S. M. O Modelo Predominante de Masculinidade em Questão.Universidade Federal do Rio Grande do Norte, São Luís , v.14, n. 1, p.59-65, Janeiro. 2010. Disponível em: <http://www.revistapoliticaspublicas.ufma.br/site/download.php?id_publicacao=232>. Acessado em 3 de Maio de 2017

HONÓRIO; D. M. Cabra-Macho, sim senhor! Um estudo sobre a masculinidade no nordeste do Brasil. Universidade Federal do Rio Grande do Norte, ISSN2175-6880, 2009.
Disponível em:<http://www.humanas.ufpr.br/site/evento/SociologiaPolitica/GTs-ONLINE/GT1/EixoIII/cabramacho-Maria-Dores-Honorario.pdf>.  Acessado em 3 de Maio de 2017

Defensoria Pública do Estado de São Paulo. Vamos falar sobre masculinidade? Disponível em: https://www.defensoria.sp.def.br/dpesp/repositorio/41/Cartilha_masculinidade_machismo_feminilidade%20(1).pdf> Acessado em 02 de Maio de 2017

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Psicólogo clínico, graduado pela Universidade Cruzeiro do Sul, atuante na abordagem Cognitivo Comportamental, sendo esta minha paixão. Mantendo uma página no facebook intitulada @EryelPsi, sendo esta destinada a compartilhar conhecimento a cerca da terapia cognitivo comportamental, bem como assuntos pertinentes a sociedade contemporânea e suas ramificações. Trabalhei por 6 anos em uma Organização Social, com crianças e adolescentes, com projetos que visam a construção da cidadania, convivência e fortalecimento de vínculos. Sou aspirante a pesquisador em comportamentos, neuropsicologia, intervenções psicoterapêuticas, habilidades sociais e psicopatologias, ingressei na área através do congresso 23º Encontro de Serviços-Escola de Psicologia em 2016, sediado pela PUC-SP. Tenho afinidade em temas advindos da Psicologia Social, bem como sociedade contemporânea e relações humanas. Colunista do Blog “Mundo da Psicologia”, com imenso prazer na leitura e escrita, a fim de ampliar e propagar conhecimentos.