Pensamento de Morte e Ideação Suicida: Um Alerta ao Suicídio

Pensamento de Morte e Ideação Suicida: Um Alerta ao Suicídio

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Resumo: Os índices de tentativas de suicídio e suicídio bem sucedido estão cada vez maiores, este ano houve um aumento exorbitante, porém, pouco divulgada essa estatística. Este artigo tem como foco, as medidas preventivas ao risco de suicídio, para que você, profissional de saúde, familiar, amigo, ou colega de trabalho possa identificar os sinais para uma possível tentativa de suicídio.

Palavras-Chave: Saúde Mental; Psicologia da Saúde e Hospitalar; Prevenção; Suicídio; Sofrimento; Ideação; Pensamento; Mitos.

Nada mais apropriado iniciar a leitura pelos MITOS, ou “senso comum” sobre o suicídio. Com um português bem claro: ISSO NÃO AJUDA, pelo contrário, SÓ PIORA AS PESSOAS QUE ESTÃO COM FRAGILIDADE EMOCIONAL.

Suicídio – MITOS

  • “Está querendo chamar a atenção”

Ninguém está querendo chamar a atenção quando manifesta pensamentos de morte, ideação suicida ou até mesmo tenta suicídio e posteriormente procura ajuda. Sofrimento psíquico e/ou descontrole de impulsos não são considerados como “chamar atenção”, e sim, uma busca por compreensão, e não julgamento!

  • “Quem quer se matar, se mata” / “não avisa”

Psicólogo Hospitalar é um psicólogo especialista, no qual está inserido no contexto hospitalar, atuando em instituições de saúde e utilizando-se de sua prática, promovendo melhor qualidade psíquica e comportamental de pacientes, familiares e também da equipe multidisciplinar.

Pensamento de Morte, Ideação Suicida e Tentativa de Suicídio:

Neste tópico irei explicar o que é Pensamento de morte; Ideação suicida; Tentativa de suicídio e a diferença entre os três.

A) Pensamento de Morte:

Pensamento de morte nada mais é do que pensamentos negativos, que podem estar em conjunto com a morte e/ou morrer, ou mesmo apenas a morte e o morrer; expressados pelo individuo (ou não). Como por exemplo: “Não vejo mais motivo para eu estar vivo”; “Gostaria de morrer”; “Não aguento mais isso, preferiria morrer a está aqui”; “Se eu morresse… Como seria pra você?”; “Será que vão sentir falta se eu não estivesse mais aqui”. Percebam que em momento algum a pessoa refere planos para atentar-se contra própria vida, sendo o Pensamento de Morte um ALERTA, antecedendo a Ideação Suicida. NÃO CONFUNDAM COM IDEAÇÃO SUICÍDA (Muito comum isso acontecer).

ATENÇÃO: Vale ressaltar, que devemos observar a frequência e a intensidade dos relatos e pensamentos, validando o sofrimento, e não julgando, como citado no tópico anterior.–

B) Ideação suicida:

  • Não-Estruturada:

Ameaçar a ferir ou matar a si mesmo, a maioria das vezes por impulsos. Não exclui o planejamento do ato suicida ou de ferir-se, apesar de ser não estruturada.

  • Estruturada:

Procurar formas de matar a si mesmo, como buscar acesso a pílulas, armas ou outros meios de forma planejada, de risco e/ou bem executada. Estar totalmente disposto a cometer o ato suicida.

C) Tentativa de Suicídio / Suicídio:

Tentativa de suicídio / Suicídio bem sucedido são caracterizados como uma forma do indivíduo livrar de suas angústias, pensamentos, emoções, sendo estes, sofrimentos de causas orgânicas (físicas, como por ex.: Diagnóstico de uma doença com prognóstico reservado; perdas das capacidades adaptativas; doenças crônicas; principalmente as doenças que envolvem o preconceito social; etc). Temos também o sofrimento emocional por diversos fatores. Posso afirmar que atendo diversos pacientes que foram admitidos por tentativa de suicídio, e a minoria possui o desejo de por um fim na vida, e sim nos eventos aversivos vivenciados.

Não devemos seguir essa ordem como uma regra, mas para facilitar o raciocínio, segue o ciclo que é comum desde o pensamento até o ato suicida:

FATORES DE RISCO:

— ATENÇÃO: Vale ressaltar que este tópico refere-se a FATORES DE RISCO, ou seja, não é 100% que o paciente irá cometer suicídio, mas FIQUE DE ALERTA aos pensamentos e comportamentos. Os dois primeiros são os principais

-> Histórico de tentativa(s) pregressa(s) de suicídio: Não é porque a pessoa tentou suicídio uma ou mais vezes é certeza que isso irá acontecer novamente, contudo, temos que ficar de observação nos comportamentos, pensamentos e gatilhos para que isso não aconteça novamente. Se você perceber que o paciente/cliente ou familiar/amigo estiver com comportamentos e pensamentos sujeitos à recaída, procure ajuda;

-> Histórico de Transtorno(s) Psiquiátrico(s) pregresso(s): Há um índice significante de pacientes que tentam suicídio em decorrência de transtornos mentais graves e/ou não cuidados à tais como Transtorno de Personalidade Bordeline; Transtorno Depressivo Maior; Transtorno Bipolar de Humor (Tanto no polo depressivo, quanto no maníaco); Esquizofrenia; Dependência Química (fase aguda principalmente); Transtorno Obsessivo-Compulsivo (fase aguda, e/ou TOC de pensamentos); entre outros;           

-> Automutilação / Autoflagelo e/ou autoagressão: Automutilação ou autoflagelo nada mais é do que o comportamento de cortar-se e/ou machucar-se como alívio da “dor emocional”. Este fator poderá desencadear comportamentos suicida tanto involuntariamente, quanto voluntariamente;

-> Doenças crônicas, Incapacitantes, ou com prognóstico reservado (sem cura, sem tratamento, condições que levarão ao sofrimento e morte, e/ou processos dolorosos): Existem diversas literaturas e casos clínicos, principalmente em pacientes já na terceira idade ou jovens (adolescência). Condições físicas e emocionais que levam ao sofrimento, muitos pacientes optam por “adiar” sua morte e “por um fim” no sofrimento, como um processo de fuga;   

-> Pacientes com escassa rede de apoio familiar e/ou social: Vale ressaltar que a rede de apoio tanto familiar quanto social tende a ser um pilar para qualquer ser humano. Imagine sua vida sem ambos! Por isso eu reforço: menos julgamento e mais apoio; 

-> Ideação suicida e/ou pensamentos de morte recorrentes: Como dito nos tópicos anteriores, é essencial prestar atenção aos sinais do paciente;

-> Perdas importantes (familiares, relacionamento amoroso, amigos, emprego, instabilidade financeira, etc): Perdas importantes podem ser impactantes para qualquer pessoa, principalmente para as pessoas com tendência à comportamentos suicidas e/ou portadores de transtornos psiquiátricos graves.

ALTERAÇÕES MAIS COMUNS NO EXAME PSÍQUICO:

A) O que é Exame Psíquico?

Exame psíquico nada mais é do que a avaliação do estado mental atual do paciente, ou nos dias anteriores à avaliação como comparativo se houve piora, se manteve ou se houve melhora dos aspectos psíquicos e comportamentais. No exame psíquico avaliamos também o aspecto geral do paciente, ou seja, cuidado pessoal (higiene, roupas, postura, atitude global, etc). Segue alguns exemplos de aspectos psíquicos no item a seguir.

B) Quais alterações mais comuns, e como identificar?

— ATENÇÃO: Este tópico não se caracteriza como fator de diagnóstico, apenas uma breve conceituação para a melhor percepção. Para isso é de extrema importância o trabalho do PSICÓLOGO e PSIQUIATRA

  • Alteração em Afetividade: Refere-se ao humor (Humor deprimido / Disforia à ‘Humor irritável’ / Humor atrelado à Mania);
  • Alteração em Pensamento: (Delirante / Obsessivo) à Muito comum em quadros de Esquizofrenia;
  • Alteração em Juízo Crítico: (Juízo de realidade / Contra os valores moral e social / Pensamentos que possam ferir/matar a si ou ao outro):
    Juízo: Capacidade de dar valor a fatos e ideias, e apresenta-se alterado no paciente que tem delírios. à Interpretação delirante; Intuição delirante; Percepção delirante;
    Crítica: Capacidade do paciente de entender sua condição, ter insight* sobre seu estado, se alterada, observamos se está parcialmente alterada ou abolida, tendo dificuldade ou não consegue definir o que ocorre em si e/ou no ambiente;
  • Alteração em Senso Percepção: (Presença de alucinações audiovisuais) é muito comum em quadros de Esquizofrenia ou outros Transtornos;
  • Alteração em Motivação e Volição: (Pouca ou ausência de motivação ou incapacidade de tomar decisões voluntárias / Atos compulsivos e/ou impulsivos);
  • Alteração em Controle de Impulsos: Agir por impulsos por descontrole, ou até mesmo planejado. Caracteriza-se como o ato de atentar-se contra a própria vida ou ferir-se. Muito ligado com o Juízo Crítico alterado.

*Insight:in”, que significa “em” ou “dentro” e a palavra “sight” que significa “vista”. Assim, insight pode significar “vista de dentro”. Definição:  Caracteriza-se um acontecimento cognitivo que pode ser associado a vários fenômenos podendo ser sinônimo de compreensãoconhecimentointuição.

Paciente apresenta comportamentos suicidas e/ou pensamentos de morte e ideação suicida, ou tentou suicídio há pouco tempo (sem internação em psiquiátrica). O que devo fazer?

Primeiramente mantenha a calma. Converse sobre o assunto, forneça apoio, CUIDE. Siga estes tópicos referentes aos cuidados preventivos ao risco de suicídio:

-> Retirem do recinto todos os objetos que possam por em risco a vida do paciente ou familiar/amigo (objetos que possam enforcar, cortar, asfixiar -sacolas/travesseiros-, furar, engolir, injetar, etc), use apenas colher como talher, retire espelhos, “chuveirinho” do banheiro, fios, tesouras, etc;

-> Esconda TODAS as medicações (de preferência, coloque em cofre, armários com chave/cadeado), e faça medicação assistida, ou seja, se o paciente precisar de QUALQUER MEDICAÇÃO, dê a ele a posologia indicada/prescrita;

-> Tranque as sacadas, proteja as escadas (lugares que façam com que o paciente ou familiar/amigo se jogue);

-> Não deixe em hipótese alguma o paciente ou familiar/amigo trancar-se no banheiro, quarto, etc. Por mais que não haja objetos que não ponham em risco a vida, poderá haver autoagressão (bater cabeça, quebrar costelas, pescoço, etc);

-> Leve seu familiar/amigo aos lugares (trabalho, lazer, etc), a priori, não deixe sair sozinho (a), pois há risco de jogar-se contra veículos (carro, metrô, trem, etc) ou lugares altos (pontes ou algo do tipo);

Não é nada fácil tudo isso, eu sei! Por isso é INDICADA a transferência para Clínica Psiquiátrica (Hospital Psiquiátrico*) para cuidados mais intensivos.
* Hospital Psiquiátrico NÃO É MANICÔMIO, não é o que você lê, vê na televisão (filmes/seriados/etc).

LEMBRANDO: VOCÊ NÃO PODERÁ CUIDAR SOZINHO, PROCURE PROFISSIONAIS E INSTITUIÇÕES ESPECÍFICAS!

-> Paciente DEVERÁ estar em acompanhamento ambulatorial (Psicológico e Psiquiátrico, com auxílio de psicofármacos);       

-> Existem diversos apoios psicossociais, como por exemplo, os CAPS;

-> Temos também ONGs muito importantes com profissionais e voluntários capacitados e extremamente treinados para dar a assistência correta aos pacientes e familiares/amigos, como por exemplo, o Centro de Valorização da Vida – CVV (Como Vai Você?).

 

 

 

Contatos:
Site oficial: https://www.cvv.org.br/
Informações pelo número de telefone: 188 (Ligação gratuita)   
Ligue: 141 (ligação gratuita). Você é atendido por um voluntário, com respeito, anonimato, que guardará estrito sigilo sobre tudo que for dito e de forma gratuita.

Vá pessoalmente, conheça os postos de atendimento em todo o país: Segue o link para busca por localização: https://www.cvv.org.br/postos-de-atendimento/     

Espero que tenham gostado do texto! Identificou-se com algum tópico citado no texto? COMENTEM no blog ou na página!

Para referir este artigo: Santos, F. F. (2017). Pensamento de Morte e Ideação Suicida: Um Alerta ao Suicídio. In. Mundo da Psicologia, Internet. Disponível em <http://mundodapsi.com/pensamento-de-morte-e-ideação-suicida-um-alerta-ao-suicídio /> 2017.

Referências:

CVV (2003). Manual do voluntário. Ed. São Paulo

Organização Pan-Americana da Saúde (Opa) (2017). Prevenção do Suicídio Manual dirigido a profissionais das equipes de saúde mental. Disponível em <https://www.cvv.org.br/wp-content/uploads/2017/05/manual_prevencao_suicidio_profissionais_saude.pdf

Dalgalarrondo, P. (2008). Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. 2 ed. Porto Alegre: Artmed

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