Ops! Caí da Escada: O Ciclo de Violência Contra a Mulher

Ops! Caí da Escada: O Ciclo de Violência Contra a Mulher

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Em nossas relações diárias e vivencias presenciamos atos de violência ou realizamos esses atos. Muitas vezes sem possuir o conhecimento de que tratam-se de atitudes que agridem psicologicamente ou fisicamente o outro. Nunca podemos imaginar como estes atos são recebidos/experienciados pelos outros indivíduos. Por tanto é importante ressaltar que para evitar a violência ou intervir em relação a ela, devemos possuir o conhecimento do que é violência e de seus aspectos.

Segundo Ritt (2002) a violência trata-se de um ato de brutalidade, constrangimento, abuso, proibição, desrespeito, discriminação, imposição, invasão, ofensa, agressão física, psíquica, moral ou patrimonial, realizada contra o outro, com características envolvendo medo e terror.

Violência vem do latim violentia, que significa caráter violento ou bravio. O termo violare significa tratar com violência, profanar, transgredir. Esses termos devem ser referidos a vis, que significa a força em ação, o recurso de um corpo para exercer a sua força e, portanto, a potência, o valor, ou seja, a força vital (CAVALCANTI, 2007)

Derivada do latim “violentia”, a palavra violência é definida pelo Dicionário Houaiss como sendo “a ação ou efeito de violentar, de empregar força física (contra alguém ou algo) ou intimidação moral contra (alguém); ato violento, crueldade, força”.

Arent (1994) propõem que a violência está relacionada com o poder, que trata-se da manifestação do poder. E o poder é utilizado como um instrumento de dominação, a necessidade de dominação é na verdade um instinto inato ,presente em todos os seres humanos, por tanto faz parte da interação humana.

Esta relação de poder que estimula os seres humanos a cometerem atos de violência, pois através da violência o indivíduo pode fortalecer seu poder sobre o outro, subjugando e controlando. Através da coerção de atos violentos, passa a exercer um controle sobre o outro. O mesmo ocorre na relação familiar, entre companheiro/marido e companheira/esposa, relações de poder, que envolvem princípios culturais/sociais que definem e impõem os conceitos e hierarquização de gêneros.

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Fonte: Catraca Livre

A frase histórica de Simone de Beauvoir (Beauvoir, 1967) “Não se nasce mulher, torna-se mulher!” é, em si, uma das mais diretas e simples formas de se compreender a distinção entre “sexo” e “gênero”. O primeiro sendo quase sempre determinado no momento que nascemos, enquanto o segundo será construído no decorrer de nossas vidas (LIMA et all, 2008).

Por tanto o sexo é incutido ao nascimento do indivíduo e o gênero trata-se de uma perspectiva passada e ensinada socialmente, pois as relações hierarquizadas variam em relação a comunidade, nacionalidade e área em que o indivíduo habita e em que se desenvolveu.

As diferenças entre homens e mulheres seriam facilmente verificáveis se tais distinções não transcendessem o mero aspecto biológico. Ao se observar as relações entre os sujeitos, verifica-se que as características sexuais foram fatores condicionantes para a identificação de papéis impostos pela sociedade (…) (OLIVEIRA, 2012)

Na relação intra familiar a violência está relacionada aos instintos presentes nos seres humanos e as relações de poder vinculados aos gêneros. Pois o marido/provedor/companheiro sente-se movido/estimulado a cometer atos de violência devido a relação de poder entre os gêneros, está relação que foi imposta culturalmente. Pois em seu papel de provedor do gênero masculino sente-se superior ao papel da esposa/mulher/companheira do gênero feminino, suposto sexo “frágil”. E por encontrar-se nesse papel já de fragilidade, acaba por emitir comportamentos de submissão ao receber esses atos de violência.

Segundo Miller (1999) considera que as interações violentas de um casal estão vinculadas ao aumento de tensão nas relações de poder estabelecidas e que a relação de dominação e subordinação necessita ser confirmada. A situação de violência pode ser, então, uma tentativa de restaurar o poder perdido ou nunca alcançado, ou ainda confirmação da identidade.

E de acordo com Organização das Nações Unidas (ONU) de 2006 os atos de violência contra a mulher estão realmente vinculados aos conceitos de gênero pré estabelecidos e incutidos socialmente, afirma que a  “violência contra a mulher” é todo ato de violência praticado por motivos de gênero, dirigido contra uma mulher.

Neste contexto de violência doméstica é importante ressaltar que segundo o artigo 7º da Lei nº 11.340/2006 existem diferentes tipos de violência que podem ser realizados contra a mulher como: a violência física, psicológica, sexual, a patrimonial e moral.                           

Através de observações realizadas em relação ao que ocorre entre a mulher e o homem, em casos de violência contra a mulher, e dessa perspectiva envolvendo os gêneros impostos e ensinados culturalmente, comprovou-se que costuma-se ocorrer um padrão em relação ao ato de violência. Nomeado como ciclo de violência, que ocorre pré, no decorrer e pós ato de violência, costuma se repetir em diferentes casos e em determinadas situações prolonga-se por tempo indeterminado. Ocorrem pois o parceiro/marido costuma após o ato de violência propor a parceira/esposa promessas de melhoria, que a situação em que se encontraram irá mudar e que o ato de violência cometido não irá se repetir.

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Fonte: Top Media News

Estas constantes promessas de mudança dão à violência um caráter cíclico, traduzido por momentos intercalados de agressões e amor, fato que contribui para que a mulher permaneça durante anos vivenciando uma relação violenta. Por esta razão, é importante que a mulher conheça as especificidades do ciclo em que está envolvida, a fim de encontrar meios de sair da situação (MILLER, 1999).

Aponta-se três fases do ciclo de violência, que variam em frequência e intensidade, podem variar também entre os casais. A primeira fase compõem-se pela violência/ construção que inicia-se com incidentes verbais e espancamentos em menor escala, tendem a evoluir para atos de brutalidade em larga escala. O segundo momento é o momento de tensão, onde a mulher descarrega a sua tensão independe do agressor estar portanto armar ou não. E por fim o terceiro momento nomeado como reconciliação/lua de mel, caracteriza pelas promessas do agressor de que o fato não irá ocorrer novamente e a aceitação/crença da vítima nessas promessas (Walker, 1979).

Por tanto cabe em diferentes perspectivas atentar-se a estes atos de violência, que podem ocorrer com todas as mulheres independente de sua classe social, cor, ração ou crédulo. E evidenciou-se que a violência contra a mulher ocorre devido a aspectos sociais e culturais, as distinções e preconceitos entre os gêneros incutidos historicamente e socialmente. Porém a partir do que foi exposto não cabe a ninguém julgar, pois o que impede estas mulheres de realizarem a denúncia/evitarem estes atos e de muitas vezes permanecerem presas neste ciclo de violência, envolve proporções abrangentes como aspectos físicos, psicológicos, históricos de comportamentos, histórico familiar, sociais, culturais e a subjetividade. Afinal não é fácil tentar compreender o outro e dificilmente podemos realmente dizer do outro, pois o que é experenciado por cada um é único. Então quem pode dizer de si, se não o próprio?

Referências

ARENDT, Hannah. Sobre a violência. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1994.

BRASIL. Lei nº 11.340/2006, de 07 de agosto de 2006. Brasília, 7 de agosto de 2006; 185º da Independência e 118º da República Acessado em 27 de Maio de 2015 às 12:09min.

Link de acesso: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2004-2006/Lei/L11340.htm.

CAVALCANTI, Stela Valéria Soares de Farias. Violência Doméstica: análise da lei “Maria da Penha”, nº 11.340/06. Salvador, BA: Edições PODIVM, 2007.

FONSECA, D.H et all. Violência doméstica contra a mulher: realidades e representações sociais. Psicol. Soc. vol.24 no.2 Belo Horizonte May/Aug. 2012.

GADONI-COSTA, L. M. & Dell’Aglio, D. D. (2010). Mulheres em situação de violência doméstica: vitimização e copingInterinstitucional de Psicologia2(2), 151 – 159.

HOUAISS, Antônio. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro, Ed. Objetiva, 2001.

LIMA, D.C et all. Homens, Gênero e Violência Contra a Mulher. Saúde Soc. São Paulo, v.17, n.2, p.69-81, 2008.

MILLER, Mary Susan. Feridas invisíveis: abuso não-físico contra mulheres. Tradução Denise Maria Bolanho. São Paulo: Summus, 1999.

OLIVEIRA, E.R. Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher: Um Cenário de Subjugação do Gênero Feminino. Ano 2012 – Edição 9 – Maio/2012.

RITT, Eduardo. O Ministério Público como instrumento de democracia e garantia constitucional. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2002.

SILVA, A.C.G et all. Violência Contra Mulher: Uma Realidade Imprópria. Rev. Ciênc. Saúde Nova Esperança – Set. 2013;11(2):101-15.

SCHRAIBE,L.B et all. A Violência Contra Mulheres: Demandas Espontâneas e Busca Ativa em Unidade Básica de Saúde. Saúde e Sociedade 9(1/2): 3-15, 2000.

WALKER, Leonore E.A. The battered woman. New York: Harper and How, 1979. Apud AGUIAR, Cristina et al. Guia de serviços de atenção a pessoas em situação de violência. Salvador: Fórum Comunitário de Combate a Violência/ Grupo de Trabalho Rede de Atenção, 2002.

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