O Olhar dos Filhos na Separação

O Olhar dos Filhos na Separação

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O divórcio e a separação consistem em um processo de mudança doloroso que acomete todos os membros da família, tanto direta como indiretamente, visto que a forma como a situação é vivida, e gerida, causa implicações psicológicas e emocionais que não devem negligenciadas.

A separação é apontada como um dos fatores responsáveis por inúmeras mudanças no cotidiano familiar, especialmente quando o casal possui filhos, uma vez que o processo modifica os papeis parentais exercidos pelos pais. E, além disso, a criança assim como o adulto, também convive com os paradigmas do divórcio, principalmente porque ela está inserida em uma situação muitas vezes conflituosa, que é desconhecida e muito nova para ela.

Antes de tudo, cabe explicar duas dimensões constitutivas do psiquismo familiar: conjugalidade e parentalidade. A ideia de conjugalidade ocorre quando dois indivíduos se comprometem a uma relação estável e duradoura, adaptando-se de forma reciproca a constituição de um modelo de funcionamento conjugal.

Com o nascimento de uma criança no núcleo familiar, o elemento parentalidade se emerge, pois ocorre a reorganização das identificações, havendo modificações em vários âmbitos, tanto do próprio casal, que deixa ser somente um casal e passam a serem também mães e pais. Nesse sentido, parentalidade refere-se “às funções executivas de proteção, educação e integração na cultura familiar das gerações mais novas” (PIRES, 2008, p. 19).

Entretanto, devido à carga emocional e os conflitos que advém com a separação, os ex-casais possuem grandes dificuldades em definir fronteiras e diferenciar a conjugalidade (ser marido e mulher) da parentalidade (ser pai e mãe) trazendo sérias consequências para a relação pais e filhos.

Fonte: Conti Outra

Assim, deve-se levar em conta que os cônjuges podem se separar, mas as entidades pai e mãe jamais deixarão de ser fundamentais para a criança. Já que a parentalidade implica em uma série de responsabilidades, que apesar de precisar ser remodelada para se adequar as modificações da separação, a tarefa de garantir a proteção integral, o bem estar e a educação dos filhos jamais deixarão de existir, e precisarão ser compartilhadas, abrindo espaço para coparentalidade[1].

Diante disso, cabe aos profissionais de psicologia trabalhar visando à promoção da saúde e a qualidade de vida das coletividades, contribuindo para a eliminação de quaisquer formas de violência, opressão, negligência, discriminação, crueldade e exploração. Bem como faz-se necessário a resolução dos conflitos decorrentes da separação sem  que os interesses necessários e próprios das crianças sejam prejudicados, a fim de garantir, em primeiro lugar, a proteção integral a quem é de direito, tanto no âmbito psicológico e existencial, quanto aos olhos da lei.

Deste modo, é nosso dever, principalmente, mediar os conflitos e realizar intervenções com as famílias, de forma que elas percebam que, mesmo diante dos novos rumos, o fato de ter havido a separação não significa que a família não tenha dado certo, uma vez que o relacionamento também trouxe bons frutos, trouxe laços, vínculos e uma caminhada que hoje faz parte da historicidade de vida de cada um.

Além disso, por mais que a criança fique confusa no início, é importante que os pais não tratem a situação como um problema. E que expliquem aos filhos que o fato de ter havido a separação não muda (e não mudará) o amor incondicional, o carinho, o cuidado, o respeito e o companheirismo nutrido por eles.

Assim, cabe a cada família a reestruturação deste caminho tão singular, para que todos possam viver bem, que possam se abrir às novas possibilidades em busca de um significado e por um sentido de vida.

REFERÊNCIAS

FRIZZO, Giana Bitencourt et al . O conceito de coparentalidade e suas implicações para a pesquisa e para a clínica: implication for research and clinical practice. Rev. bras. crescimento desenvolv. hum.,  São Paulo ,  v. 15, n. 3, p. 84-93, dez.  2005 .   Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-12822005000300010&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em:  03  jul.  2017.

GRZYBOWSKI, L. S. Ser pai e ser mãe como compartilhar a tarefa educativa após o divórcio? In: WAGNER, A. e cols. Desafios psicossociais da família contemporânea. São Paulo: Artmed, 2011.

PIRES, Ana Sofia Rodrigues. Estudo da conjugalidade e da parentalidade através da satisfação conjugal e da aliança parental. Dissertação Univ. de Lisboa. 2008. Disponível em: < http://repositorio.ul.pt/bitstream/10451/820/1/20978_ulsd056139_tm.pdf> Acesso em: 04 jul. 2017.

WAGNER, A.; LEVANDOWSKI, D. C.; Sentir-se bem em família: um desafio frente à diversidade. Revista textos & Contextos Porto Alegre v. 7 n. 1 p.88-97. jan./jun. 2008.

[1] “[…] se refere à extensão na qual o pai e a mãe dividem a liderança e se apoiam nos seus papéis de ‘chefes’ da família, ou seja, nos papéis parentais. […] muito utilizado em situações de pós-divórcio para designar a relação que se estabelece entre os ex-cônjuges, com relação à educação da criança”. (FRIZZO, et al; 2005).

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Psicóloga, graduada pela Universidade de Mogi das Cruzes. Atua na área clínica com: psicoterapia (individual, grupal e de casal) para crianças, adolescentes, adultos, idosos; Orientação Profissional (individual e grupal); Orientação Psicológica; Avaliação de Desempenho Escolar e de Aprendizagem; Orientação de pais; Consultoria escolar; e Avaliação Psicológica. Anteriormente, atuou como psicóloga em estágio na Defensoria Pública do Estado de São Paulo. Trabalhou como Assistente de Pesquisa Científica da Professora Doutora Geraldina Porto Witter, a qual realizou pesquisas na área de adoção e do sistema de garantia de direitos. Foi pesquisadora pelo Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC), com enfoque em psicologia, educação, avaliação de desempenho e avaliação psicológica. Realizou estágios em: Hospital Colônia de Longa Permanência, Instituição de Longa Permanência para Idosos (ILPI), Serviço de Acolhimento Institucional para Crianças e Adolescentes-SAICA (abrigo), Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos, Hospital-Escola e Serviço-Escola. http://www.facebook.com/evelynpinheiro.psi