Quero Comer Toda Hora: Obesidade e Transtorno da Compulsão Alimentar Periódica

Quero Comer Toda Hora: Obesidade e Transtorno da Compulsão Alimentar Periódica

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Quando ocorrem severos distúrbios no comportamento alimentar, diz-se da ocorrência de um Transtorno Alimentar (TA). Nos TAs chama-se a atenção para o medo excessivo de ganhar peso e pela preocupação intensa com a alimentação e a imagem corporal. Dentre os TA, a obesidade se configura como uma doença crônica, multifatorial e geneticamente relacionada com o acúmulo excessivo de gordura corporal. Define-se a obesidade quando o IMC está acima de 30kg/m2.

De acordo com dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), estima-se que 1,7 bilhões de pessoas no mundo estejam com sobrepeso ou obesas, tornando a obesidade um problema de saúde pública.

O que se têm observado nos quadros clínicos de obesidade é o aumento da prevalência de transtornos psiquiátricos, como por exemplo, depressão, ansiedade e transtornos alimentares. Sugere-se que em quadros de obesidade há maior depreciação da imagem física e preocupação excessiva com o peso. Tais condições propiciam práticas alimentares anormais.

Existem algumas desordens alimentares que são mais comuns e prevalentes em obesos do que na população em geral. Os comedores de doces são aqueles que consumem acima de 50% da quantidade total de carboidratos a se ingerir diariamente, ultrapassando 150 kcal por refeição. Os beliscadores ingerem pequenas quantidades de alimentos salgados de forma contínua ao longo do dia e entre refeições, em quantidades superiores a 150 kcal por no mínimo seis meses. Os comedores noturnos (Síndrome do Comer Noturno) ingerem mais de 25% das calorias diárias no período da noite e apresentam insônia e anorexia matutina, em pelo menos três noites na semana no mínimo por três meses. E os comedores compulsivos que perdem o controle e consomem superiores quantidades de alimentos em relação ao que a maioria das pessoas ingere num período de duas horas, de forma a se sentirem desconfortáveis.

A compulsão alimentar é um sintoma caracterizado pela sensação de perda de controle sobre o quanto se come, ingerindo grandes quantidades de calorias num curto intervalo de tempo. É considerado um sintoma, pois pode estar presente numa ampla variedade de quadros clínicos, tais como, bulimia nervosa, anorexia nervosa, transtorno da compulsão alimentar periódica, depressões atípicas, intoxicações, dentre outros.

O Transtorno de Compulsão Alimentar Periódica (TCAP) é o transtorno mais observado na obesidade e nele ocorre a ingestão alimentar exagerada (cerca de 1500 kcal ou mais) num curto espaço de tempo (período de duas horas). Existem algumas situações que seguem os episódios de comer compulsivo no TCAP:

  • Comer mais rápido do que o habitual;
  • Comer até se sentir cheio e desconfortável;
  • Comer grandes quantidades de comida sem estar com fome;
  • Comer sozinho por ficar constrangido com a quantidade de comida que ingere;
  • Ficar triste, decepcionado ou culpado após os episódios compulsivos.
Fonte: mulherescompimenta

Na população geral a prevalência da compulsão alimentar varia entre 1,5% a 5% e a prevalência de TCAP na população obesa é estimada entre 33% a 43%. Entretanto, somente 20% das pessoas que apresentam episódios de compulsão alimentar possuem TCAP. Em adolescentes, observa-se a prevalência dos episódios de compulsão alimentar entre 18,5% a 24%.

Indivíduos obesos com compulsão alimentar costumam apresentar maiores variações no peso, níveis maiores de desinibição na ingestão, comportamento alimentar disfuncional mais grave, maior prevalência de complicações médicas e psiquiátricas. O DSM determina os seguintes critérios para o diagnóstico do Transtorno da Compulsão Alimentar Periódica:

A) Episódios repetidos de comer compulsivo. Um episódio de comer compulsivo caracteriza-se por ambos os seguintes critérios:

(1) comer, durante certo período de tempo, uma quantidade de alimento definitivamente maior do que a maioria das pessoas comeria em intervalo de tempo e circunstâncias similares;

(2) sensação de perda de controle sobre o comer durante o episódio (por exemplo, de que não pode parar ou controlar o que ou o quanto está comendo).

B) Os episódios de comer compulsivo estão associados a três (ou mais) dos seguintes critérios:

(1) comer bem mais rapidamente do que o habitual;

(2) comer até sentir-se desconfortavelmente cheio;

(3) comer grandes quantidades de comida quando não fisicamente com fome;

(4) comer sozinho por envergonhar-se da quantidade que está comendo;

(5) sentir-se mal consigo mesmo, deprimido ou muito culpado após o comer excessivo.

C) O comer compulsivo provoca acentuado mal-estar psicológico.

D) O comer compulsivo ocorre, em média, no mínimo dois dias na semana durante um período de seis meses.

E) O comer compulsivo não está associado com uso regular de comportamentos compensatórios inapropriados (por exemplo, purgativos, jejum ou exercícios excessivos) e não ocorre exclusivamente durante o curso de anorexia nervosa ou bulimia nervosa.

Nos episódios compulsivos a ingestão pode ser de coisas palatáveis ou também, algumas vezes, de alimentos “estranhos” (manteiga pura, arroz cru, comida congelada, etc). O diagnóstico diferencial para o TCAP inclui bulimia nervosa, síndrome do comer noturno e obesidade sem compulsão alimentar.

Ao analisar o comportamento do indivíduo, o objetivo principal é entender a relação entre ingestão alimentar-atividade física e os eventos ambientais (por exemplo, horário, humor, outras pessoas).

Em termos de psicoterapia, atualmente a TCC tem sido a mais estudada e a que demonstrou bons resultados no tratamento de transtornos alimentares ao enfocar aspectos cognitivos da autoavaliação centrada no peso e forma do corpo, baixa autoestima e perfeccionismo, ao mesmo tempo em que também possui enfoque nos aspectos comportamentais dos hábitos alimentares inadequados.

A TCC tem se baseado em alguns pressupostos para o tratamento da perda de peso. Ela entende que o peso corporal é influenciado pela ingestão alimentar e pela atividade física, logo, quando estes dois comportamentos são alterados, o peso corporal também o é. Estes comportamentos são aprendidos, portanto, podem ser modificados e para uma modificação efetiva é necessário que ocorra modificações no ambiente que os esteja influenciando.

Referências

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