Eu Não Sou Todo Mundo

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Quem nunca ouviu a célebre frase (atribuída às sábias mamães) “você não é todo mundo”? Pois é, sua mãe tinha toda razão; você não é todo mundo. A psicologia possui diversas teorias que buscam explicar a subjetividade humana, aquilo que torna cada indivíduo único. Nosso foco hoje será no estudo do comportamento humano sob o olhar analista comportamental.

O objeto de estudo da Análise do Comportamento é o comportamento humano. E comportamento é definido como a interação do organismo com o ambiente, sendo também um fenômeno histórico.

De acordo com o Behaviorismo Radical, não existe uma causa única para o comportamento. Diz-se desta forma que o comportamento é multideterminado. Para explicar o comportamento humano, Skinner ampliou o modelo selecionista da teoria darwiniana e propôs três níveis de seleção por consequências: filogenético, ontogenético e cultural.

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Primeiro nível de seleção: Filogênese

Lembra-se da teoria darwiniana de seleção das espécies, na qual o organismo que se adapta melhor ao meio tem mais chances de sobrevivência? Essa adaptação trouxe mudanças anatômicas, fisiológicas e comportamentais em diversas espécies. As mudanças anatômicas modificaram a forma; as fisiológicas, o modo como o organismo funciona; e no aspecto comportamental, como os mesmos reagem ao meio.

Quando se fala em filogênese, refere-se sempre aos comportamentos reflexos inatos. Entende-se que todas as espécies animais nascem com um repertório comportamental inato, ou seja, apresentam comportamentos reflexos que são ditos como uma preparação mínima para que ocorra a interação com o meio e, assim, garantir a sobrevivência. Esses comportamentos são ditos reflexos por ocorrem sempre que há uma alteração no ambiente que produz uma alteração no organismo.

Na Análise do Comportamento, o reflexo é uma relação entre um estímulo (aspectos e/ou mudanças ambientais) e uma resposta (aspectos e/ou mudanças do organismo).

Segundo nível de seleção: Ontogênese

A ontogênese refere-se aos comportamentos que são selecionados ou não pelas suas consequências. Esses comportamentos são ditos operantes, pois são aprendidos. Dessa forma, esse nível é representado pela história individual do sujeito. Além disso, a ontogênese permite a produção e reprodução de repertórios comportamentais novos e adaptativos ao ambiente no qual o indivíduo está inserido.

Comportamento operante é definido como o comportamento que produz mudanças no ambiente e é afetado por elas. Assim, dizemos que toda resposta comportamental operante possui um estímulo antecedente e um estímulo consequente. O reforço é um estímulo consequente que aumenta a probabilidade de ocorrência do comportamento, sendo denominado então como estímulo reforçador. Quando esse estímulo consequente está apresentando algo reforçador (agradável) ao indivíduo, ele é chamado de reforço positivo.

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É importante destacar que quando o organismo aprende algo, observa-se o aumento na frequência desse comportamento. Não aprendemos simplesmente fazendo algo, mas, sim, a partir do momento em que aquele comportamento específico produz consequências reforçadoras. Por isso, aprendizagem e reforço estão intimamente ligados.

Contudo, quando não se produz mais consequências reforçadoras para aquele comportamento, ele é suspenso. É o que chamamos de extinção. O curioso é que um comportamento colocado em extinção não deixa de ser emitido imediatamente. É preciso que um certo número de respostas seja emitido sem serem reforçadas, o que é denominado como resistência à extinção. Mas, algumas vezes, após a extinção do comportamento, com o passar do tempo pode ocorrer o aumento da probabilidade dele voltar a ocorrer. Essa recuperação espontânea apenas manterá o comportamento se o mesmo for novamente reforçado, caso contrário, as chances da recuperação espontânea acontecer diminuem cada vez mais.

Mas, não é apenas o reforço positivo que determina o comportamento. O controle aversivo também é outra forma de controlá-lo. O controle aversivo engloba o reforço negativo, a punição positiva e a punição negativa.

Começando pelo reforço negativo, ele também aumenta a probabilidade do comportamento ocorrer. Contudo, nele ocorre a retira de um estímulo aversivo (desagradável) do meio. Entendemos então que o organismo se comporta para que algo não aconteça. Esses comportamentos, chamados de evitativos, se enquadram em dois tipos: comportamento de fuga e comportamento de esquiva.

Quando se fala em fuga significa que diante da presença de um estímulo aversivo o organismo emite uma resposta para retirá-lo do ambiente. E quando se fala em esquiva significa que o indivíduo emite respostas que adiem e/ou evitem o aparecimento do estímulo aversivo.

A punição diminui a probabilidade de o comportamento ocorrer. A punição positiva se caracteriza por apresentar um estímulo aversivo e a punição negativa se caracteriza por remover um estímulo reforçador.

Terceiro nível de seleção: Cultural

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A evolução dos ambientes sociais, ou cultura, deve-se principalmente ao comportamento verbal. Isso porque, através da linguagem, a seleção cultural colabora na aquisição de novos padrões de comportamento. Esse nível se inicia a partir de um nível individual, em que se busca, por exemplo, uma forma de produzir alimentos e a melhor maneira é reforçada por suas consequências – os alimentos.

As práticas que contribuem para o sucesso da solução de problemas de um grupo praticante resultam na evolução da cultura. Contudo, observa-se que essa evolução está ligada ao efeito sobre o grupo e não às consequências reforçadoras para um membro em isolado.

Quando somadas as contingências responsáveis pela sobrevivência da espécie, mais as contingências de reforçamento dos comportamentos operantes, mais as contingências mantidas pelo ambiente cultural temos como produto o COMPORTAMENTO HUMANO. Sendo assim, o repertório comportamental do indivíduo é formado por esses três níveis de seleção e cada pessoa possui um repertório único. Ou seja, cientificamente, sua mãe estava totalmente certa! Você não é todo mundo!

Referências

FARIAS, A. K. C. R. (Org). Análise comportamental clínica: Aspectos teóricos e estudos de caso. Porto Alegre: Artmed. 2010.

MOREIRA, M. B; MEDEIROS, C. A. Princípios básicos de análise do comportamento. Porto Alegre: Artmed. 2007.

SKINNER, B. F.. Seleção por consequências. Rev. bras. ter. comport. cogn.,  São Paulo,  v. 9, n. 1, p. 129-137, jun. 2007. 

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