“Não Consigo Me Controlar!” – O Transtorno de Controle dos Impulsos

“Não Consigo Me Controlar!” – O Transtorno de Controle dos Impulsos

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“M, 39 anos, casada, com dois filhos e um histórico de cleptomania desde seus 30 anos. Antes do tratamento, ela furtava aproximadamente 25 vezes por mês, com uma variação de 1 a 90 episódios por mês. Ela observou que normalmente sente o impulso de furtar quando acorda de manhã e que esse impulso aumenta em intensidade durante o dia. Em lojas de departamento, ela furta itens dos quais ela não necessita ou que não pode utilizar (ex: brinquedos para bebês). M normalmente coloca o item furtado na caixa de doações do shopping center, pois tem receio de acumulá-los pelo risco de que seu marido ou seus filhos os encontrem. Inicialmente, quando rouba, ela experimenta alívio da tensão e, quando volta para casa, ela sente grande culpa e vergonha. Relata ser uma mãe, esposa e filha inapta, apresentando sintomas de depressão. Relata que não costuma sair com seus amigos ou participar de quaisquer atividades sociais, por se sentir constrangida devido aos seus comportamentos de furtar. Também apontou que seu marido sabe sobre uma condenação anterior por furto, mas que desconhece acusações atuais”.

O comportamento de M se assemelha ao de milhões de indivíduos no mundo e ao encontrar-se nesta situação, o sujeito apresenta muita dificuldade em identificar e buscar o tratamento em relação a essas atitudes. Pois a linha entre comportamentos saudáveis e exacerbados é tênue. Por tanto a proposta é entender o que é e quais são eles que relacionam-se ao transtorno de controle dos impulsos.

Segundo o DMS IV TM a característica essencial dos transtornos de controle dos impulsos é o fracasso em resistir a um impulso ou tentação de executar um ato perigoso ou que pode trazer danos para a própria pessoa ou para outros. Na maioria das vezes o indivíduo sente uma crescente excitação antes de cometer o ato, após cometê-lo pode ou não haver arrependimento, auto recriminação ou culpa.

No CID 10 (Classificação Internacional de Doenças) o TCI é encontrado como Transtornos dos Hábitos e dos Impulsos (F63), que compreende tais transtornos do comportamento que não podem ser classificados sob outras rubricas, caracterizados por atos repetidos, sem motivação racional clara, incontroláveis, e que vão em geral contra os interesses do próprio sujeito e de outras pessoas.

O transtorno de controle de impulsos se classifica em:

Jogo Patológico (312.31 – F63. 0)

Comportamento mal adaptativo, recorrente e persistente a apostas e jogos de azar. Os indivíduos com jogo patológico frequentemente continuam jogando, apesar de repetidos esforços no sentido de controlar, reduzir ou cessar o comportamento. O indivíduo pode jogar como uma forma de fugir de seus problemas ou para aliviar um humor disfórico, ainda pode mentir para familiares, terapeutas ou outras pessoas para encobrir a extensão de seu envolvimento com o jogo, quando não possuem mais dinheiro ou a quem pedir emprestado o sujeito pode recorrer a comportamentos antissociais como falsificação, fraude, furtos ou estelionatos. Mais comum em homens a partir da adolescência e aproximadamente um terço de pessoas com jogo patológico são mulheres.

gazeta.inf.br

Cleptomania (312.32 – F63. 2)

Caracteriza-se por fracasso recorrente em resistir a impulsos de roubar objetos, que geralmente são desnecessários para uso pessoal ou em termos de valor monetário, ou seja, a pessoa tem condições financeiras de compra-los. Essa pessoa tem consciência de que o ato é errado e sem sentido, e tem com frequência medo de ser apanhada no ato.  Essa condição é rara e mais comum em mulheres.

Transtorno explosivo intermitente (312.34)

Caracterizado por episódios distintos de fracasso ao resistir impulsos agressivos, resultando em sérias agressões ou destruição de propriedades. Está mais presente em homens a partir da adolescência até a 3ª década de vida.

Piromania (312.33 – F63. 1)

Caracterizada por um padrão de comportamento incendiário deliberado e proposital por prazer, gratificação ou alívio de tensão. Os indivíduos com esse transtorno experimentam tensão ou excitação afetiva antes de provocarem um incêndio, são expectadores regulares de seus atos ou de outros incêndios, ficando ao redor, testemunham, e podem até participar em combates de incêndios que eles mesmos provocaram. A piromania ocorre com maior frequência em homens a partir da adolescência.

Tricotilomania (312.39 – F63. 3)

Consiste em arrancar cabelos de forma recorrente, resultando uma perda capilar perceptível em todas as partes do corpo, entretanto os pontos mais comuns são o couro cabeludo, sobrancelhas e cílios. Circunstâncias estressantes frequentemente aumentam o comportamento, mas este também ocorre em estados de relaxamento e distração. Os dois sexos são igualmente representados em casos de tricotilomania.

Transtornos do Controle dos Impulsos sem outra especificação (312.30 – F63. 9)

Essa categoria serve para transtornos do controle de impulsos que não satisfazem os critérios para qualquer transtorno de impulsos especifico.

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Enfatiza-se que para cada indivíduo o comportamento pode variar e o que desencadeia estes transtornos são de cunho psicológico, podem tratar-se de eventos traumáticos, problemas do cotidiano e/ou altos níveis de estresse. E em geral a família e amigos apresentam dificuldades em identificar estes comportamentos, pois assim como M os indivíduos dedicam-se a oculta-los e omiti-los. Porém ao descobrirem, o essencial é a compreensão e o apoio familiar, pois os comportamentos não são opcionais e encontram-se à quem da escolha do indivíduo.

E em relação ao tratamento o sujeito que apresentar quaisquer transtorno dos impulsos, apresenta dificuldade em buscar pelo auxilio, devido ao fato de ocultar e negar estes comportamentos. Com frequência emitem justificativas e pensamentos como: “ É só uma fase”, “ Ah quem nunca fez isso!?”, “ Essa foi a última vez” e entre outros.  Estes comportamentos causam profundo sofrimento, pois acompanham sentimentos de culpa e arrependimento, apesar do indivíduo esforçar-se para controlar esses impulsos, está acima de seu controle, pois à questões internas a serem elaboradas.

Por tanto devemos nos atentar e acima de tudo não apresentar nenhum preconceito e julgamentos em relação aos transtornos, a fim de fornecer a eles o apoio de que necessitam para que busquem e encontrem no tratamento o alivio para as suas aflições, dificuldades e estes impulsos que lhe causam sofrimento. Atentando-se que independente da escolha dos indivíduos, eles não emitem esses comportamentos por escolha ou por vontade própria e realmente não conseguem controlar-se.

REFERÊNCIAS

DSM-IV TR – Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. Trad. Dayse Batista – 4ª edição rev – Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000.         

CID – Organização Mundial da Saúde. Trad. Centro Colaborador da OMS para a Classificação de Doenças em Português. 9ª ed rev – São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2003.

HODGINS, D.C; PEDEN, N. Tratamento cognitivo-comportamental para transtornos do controle do impulso”. Rev. Brasileira de Psiquiatria. 2008; 30(Supl I): S31-40.

NOGUEIRA, S.B. “Superação do Medo de Janela por Meio da Dessensibilização Sistemática“. 2013. Acessado em 17 de Agosto de 2015 às 14h33min.  Link de acesso: http://artigos.psicologado.com/abordagens/comportamental/superacao-do-medo-de-janela-por-meio-da-dessensiblizacao-sistematica.

 

 

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