A Minha Vivência Com o Câncer

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Dia 4 de Fevereiro é o Dia Mundial de Combate Contra o Câncer e acabei escrevendo um texto e compartilhando na minha rede pessoal e gostaria de compartilhar através do blog também a minha experiência com essa doença. Gostaria de chegar até mais pessoas, não por eu saber lidar com ela e ter uma fórmula e palavras mágicas de fazer todos passarem por ela de forma mais amena, pois isso é impossível, mas com a iniciativa de troca, pois ninguém precisa sofrer sozinho ou ser forte sozinho.

Essa doença que com certeza entrou na minha vida para me ajudar, é isso mesmo, me ajudar e me fazer ajudar.

Meu primeiro trabalho da vida foi em um hospital, logo de cara me tornei a estagiária de psicologia responsável pelos pacientes oncológicos e pelo centro de quimioterapia. Aprendi a ser mais humana, a respeitar a dor do outro, aprendi a valorizar pequenos gestos e por muitas vezes só compartilhar força em um abraço, um olhar ou numa escuta.

Me lembro até hoje que a minha primeira paciente, no meu primeiro dia de estágio, foi uma moça de 34 anos diagnosticada com câncer de mama, sua irmã a acompanhava e logo que entrei no quarto ela faleceu, só soube ser humana nesse momento. Me recordo de outro paciente que era corinthiano e que tinha um “jeitão” bem engraçado de me “zuar” por eu ser São Paulina, ele faleceu no dia seguinte do time dele ter ganhado do meu, já eu tive que ir para a escada do andar me recompor do susto por não ter o encontrado, aprendi a ser mais profissional, mas sem deixar de me relacionar e admirar o próximo.

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Tive um paciente que estava muito debilitado e que só queria a presença da sua família, mas seus filhos o rejeitavam. Ouvi sua história e junto com a assistência social conseguimos trazer seus filhos e até sua ex-mulher para vê-lo, o acompanhei até o dia da sua alta. – Aprendi que o amor de uma família é milagroso e a habilidade de escuta também, precisa saber escutar o que o outro quer dizer…

Tive um paciente que havia se cansado de lutar e assim por decisão própria desistiu e ninguém, por mais que houvesse tentativa, conseguiu mudar o desfecho que ele mesmo optou. Aprendi a compreender, mesmo sem concordar, com a decisão do outro.

Tenho um pai que se tornou paciente do mesmo hospital que estagiei e nesse momento trouxe comigo tudo o que aprendi com todos os meus pacientes e familiares que atendi. Pude também ser filha, humana, querer ser escutada, abraçada e acolhida. Fiquei do outro lado e aprendi a ser mais empática ainda.

Com ele e a sua doença aprendi a encarar a força que tenho, a admirar a fé que deposito e a esperança que nunca deixo morrer. Pude também saber na prática que câncer não mata, a medicina auxilia e muito, mas quem decide se quer morrer ou não é a pessoa que está doente – E consigo perceber cada vez mais isso, a cada vez que estou ligada de alguma forma com essa doença.

É uma doença dura, pesada, agoniante, mas às vezes necessária. É aquele tipo de coisa que o resultado depende de como você a encara.

O câncer me ajudou a ter mais coragem, em tudo. Como profissional, como filha, como humana e consigo ser grata por isso.

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Ninguém opta por ter câncer, infelizmente não temos controle disso, mas podemos ser responsáveis como iremos lidar com ele, direta ou indiretamente.

Tentam enxergar não só o lado que todos já conhecem: o fardo. Percebam que o câncer sempre muda vidas, sempre muda as pessoas e as fazem ver um outro sentido, em tudo (positivamente ou não). Nos tira do eixo, nos sacode, tira nosso fôlego, mas nos faz (obriga, na maioria das vezes) andar”.

Quando estamos em crise por algo específico ou por tudo, uma preciosidade acontece: saímos do lugar. Damos um passo adiante. Buscamos por outras paisagens, outros personagens, novas histórias. Por mais dolorosa que seja uma crise, ela é um aprendizado. Ele nos diz que o que estamos fazendo não serve mais para que obtenhamos o resultado almejado. Ela nos mostra que aquela relação teve o seu tempo esgotado. Que aquele emprego não nos faz mais feliz. Que gostaríamos de começar outra atividade, nos especializar em outra coisa. Enquanto estamos confortáveis, não nos movemos porque tudo está do jeito que queríamos.

Quando esta fase passa é hora de subir outro degrau, abrir um pouco mais a mente e reavaliar o que tem ocupado o nosso coração. Aproveite as crises para crescer, para ousar, para criar um movimento em seu benefício. Reclamar do processo não o resolve. Aceite e ponha ação em suas palavras. E, se puder, agradeça. Há merecimento nas graças obtidas pela GRATIDÃO – (Marla de Queiroz).

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Psicóloga clínica, especialista em Neuropsicologia infantil, pelo CEPSIC – Hospital das Clínicas da FMUSP. Atende na região do Grande ABC em equipe multidisciplinar e consultório Particular, com foco em transtorno do desenvolvimento infantil, principalmente Transtorno do Espectro Autista (TEA) e Transtorno de Humor em adolescentes e adultos. Admiradora, apaixonada e grata pela Psicologia, tendo como um de seus maiores objetivos, propagar informação e conhecimento em torno dessa profissão tão encantadora.