O luto não é uma doença, mas um processo!

O luto não é uma doença, mas um processo!

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Ouve-se falar constantemente no termo luto patológico. De acordo com o dicionário, patológico é um adjetivo que se refere àquilo que está relacionado com uma patologia. Diz-se ser algo doentio, mórbido e que revela doença.

Entretanto, devemos entender que o luto não é uma doença! O luto é uma reação diante da perda.

Perda é “deixar de se ter o que se tinha” (Torres, 2013). Ela sempre ocorre de forma abrupta e modifica o ambiente, que anteriormente gerava bem-estar. A perda é relacionada a algo ou alguém com o qual se tinha um vínculo afetivo. E essa perda pode ocasionar um desamparo profundo na pessoa.

Em termos comportamentais, dizemos que o vínculo é a relação em que os comportamentos de duas pessoas se influenciam reciprocamente, proporcionando reforço mútuo e contingências aversivas mínimas. Essa reciprocidade entre duas pessoas resulta em sentimentos de afetividade e apego, criando assim um vínculo.

Costuma-se pensar que o luto advém apenas com a perda pela morte de um ente querido. Contudo, outros tipos de perda também podem ocasionar o luto, como por exemplo, mudança de casa/cidade/país, afastamento de alguma atividade, perda de capacidades físicas ou psicológicas, experiências que envolvam mudanças e reorganização.

Entende-se que o luto é um processo, não um estado. Com a perda, tem-se uma modificação de uma situação ambiental na qual o indivíduo precisará se reorganizar. Perder algo ou alguém de valor é uma situação aversiva que pode em alguns casos trazer um sofrimento intenso para a pessoa.

Elaboração do luto é sinônimo de vivenciar a perda. Somente assim, a pessoa conseguirá lidar com as novas contingências presentes em seu ambiente. A finalidade da vivência do processo de luto “não é esquecer aquele que lhe foi importante; e sim, tão apenas aprender a viver apesar da perda” (Torres, 2013).

 Mas essa vivência pode ser tão dolorosa que algumas pessoas se esquivam de eventos associados ao processo do luto. Elas evitam pensamentos, sentimentos ou conversas sobre o assunto, deixam de participar de atividades e locais que relembre o evento ou a pessoa. Tais comportamentos podem levar o indivíduo a desenvolver sintomas de ansiedade, depressão e estresse. E aí, utiliza-se o termo luto patológico.

Fonte: bossamae.com.br

Particularmente, prefiro a utilização do termo luto complicado, pois, em Análise do Comportamento entendemos que a pessoa não possui repertório suficiente para enfrentar o processo de luto e reorganizar a sua vida. O luto é sempre mediado pela intensidade do vínculo. Quanto mais forte é o vínculo afetivo, mais a perda será sentida.

A primeira coisa que deve ser clara ao abordamos um processo terapêutico em caso de luto, é que não existe uma forma correta, certa e ‘mais fácil’ de se viver o luto.  “O que realmente existe é um ser humano único, com uma história única e, portanto, expressará sua perda, tão somente, a partir dessa sua história” (Torres, 2013). A terapia do luto se propõe a facilitar a expressão dos sentimentos e pensamentos da pessoa, auxiliá-la a aceitar a realidade da morte e a vivenciar o pesar, além de ajudá-la a rearranjar suas contingências ambientais e reinvestir em novas relações que sejam prazerosas e lhe proporcione bem-estar.

As intervenções que podem ser utilizadas para o processo terapêutico de um luto complicado, incluem a psicoeducação, controle da ansiedade e depressão, rituais de despedida, resolução de problemas, formação de uma rede de apoio, readaptação ao cotidiano e reorganização do meio familiar.

A morte, apesar de ser um evento natural, ainda é um assunto tabu e pouco discutido. Pensar sobre o luto quase sempre nos remete a pensar sobre a morte. Sendo assim, finalizo o texto com uma citação para reflexão:

“Devemos encarar a morte, tanto quanto profissionais quanto em qualquer outro papel de nossas vidas. Pois, quanto mais pensamos na morte, mais temos motivos para prestar atenção à vida, e vivê-la com qualidade.” (Oliveira, 2014).

  • Você pode ler mais sobre Luto aqui:

A Vivência do Luto Infantil e o Desenvolvimento Cognitivo

Emoção, Sentimento: Luto X Saudade

Fases do Luto e o Fim dos Relacionamentos

Referências

OLIVEIRA, Dafne  Rosane. Terapia do Luto: contribuições e reflexões sob a perspectiva da Análise do Comportamento. Monografia, Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo. 2014.

TORRES, Nione. Luto: a dor que se perde com o tempo (…ou não se perde?). Londrina: IACEP. 2013.

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