O Impacto Bidirecional na Dinâmica Familiar de um Autista

O Impacto Bidirecional na Dinâmica Familiar de um Autista

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Fonte: diferenteedaiautismo.blogspot.com

O contexto familiar sofre rupturas imediatas diante do início da apresentação e observação dos sintomas do Transtorno do Espectro Autista (TEA), em que há interrupção de suas atividades rotineiras e transformação do clima emocional no qual se vive.

As dificuldades apresentadas pela criança tornam-se muitas vezes a causa do estresse apresentado na dinâmica familiar, pois esses comprometimentos, no qual, ocorrem em etapas precoces do desenvolvimento, tendem a perdurar ao longo do ciclo vital da família. Portanto, trata-se de um processo crônico, ou seja, se estendendo pelos diferentes períodos evolutivos do indivíduo, sendo caracterizado por déficits claros, estáveis e previsíveis ao longo do tempo, aumentando o potencial de exaustão familiar.

Considerando-se que a família é uma instituição social significativa, e que a presença de um membro com Autismo repercute em cada membro e em todos os relacionamentos familiares, cabe investigar os fatores de impacto e adaptação a este transtorno.

Existe um “modelo” de Adaptação Familiar à Doença Crônica, sendo um estudo biopsicossocial, integrando conceitos da teoria sistêmica e de teorias cognitivas. Nele foram identificados quatro fatores determinantes para que a adaptação familiar ocorra, sendo eles:

1. Modos do funcionamento familiar.

2. Padrões de comunicação intra e extra-familiar.

3. Qualidade dos sistemas de saúde e crenças sobre saúde, instalados na dinâmica familiar.

4. Características individuais.

A inter-relação entre estes fatores determina se o surgimento de uma enfermidade representará, ou não, um evento adverso para a família. Assim, o impacto das dificuldades inerentes ao Autismo sobre a família vai depender de uma complexa interação entre a gravidade dos sintomas da criança e as características psicológicas dos pais.

Fonte: site.medicina.ufmg.br
Fonte: site.medicina.ufmg.br

Porém, considerando os processos que ocorrem na família como bidirecionais, deve-se observar tanto o impacto de um membro com autismo sobre a sua família, quanto a influência do comportamento dos membros da família sobre o indivíduo com Autismo.

Alguns autores apontam que o papel social dos pais de um filho diagnosticado com TEA e a sua maior responsabilidade sobre os cuidados as tornam alvo de maior estresse. Apontam que possui diferenças a cerca da função materna e paterna, ou seja, eventos estressores parecem variar entre eles: pais estressam mais com comportamentos inadequados do que as mães, enquanto ambos estressam com as dificuldades sociais da criança.

Dessa forma, diante da presença de um filho com Autismo, a relação conjugal pode ser afetada, pois na medida em um dos membros do casal apresenta sintomas de depressão ou ansiedade, o nível de estresse é elevado, podendo surgir conflitos entre os cônjuges, apoiando um modelo bidirecional de influência, em vez de simples influências unidirecionais, pode-se dizer, diante disso, que problemas de comportamento da criança e estresse parental exacerbam um ao outro, ou seja, havendo quadros de depressão dos pais, é possível que o subsistema parental seja afetado e, com isso, o nível de estresse e dificuldades de comportamento da criança também.

Diante da presença de um membro com Autismo na família, os pais gradualmente desenvolvem diferentes estratégias para lidar com as dificuldades, sendo elas:

1. Negação ativa.

2. Foco no problema.

3. Pensamento positivo.

4. Religiosidade.

As formas de enfrentamento podem ser subdivididas em:

  • Enfrentamento passivo (ou de fuga e esquiva):

– Ignorar.

– Tentar esquecer as questões pertinentes.

– Usar drogas, ou esperar por milagres.

Ao se instalar neste movimento de enfrentamento, a dinâmica familiar apresenta maiores níveis de depressão, isolamento, e maior tensão conjugal,

ou seja, aumentando os níveis de estresse, prejudicando a qualidade de vida geral da família.

  • Enfrentamento ativo.

Já as famílias que utilizam uma variedade de estratégias de enfrentamento ativas não apenas experienciam a diminuição dos níveis de estresse, mas também têm como consequência o aumento da coesão familiar. Essas estratégias de enfrentamento são desenvolvidas tanto dentro da família, quanto por meio de apoios externos a ela, como o das redes sociais.

Fonte: updateordie.com
Fonte: updateordie.com

Em relação às diferentes formas de se desenvolver recursos de enfrentamento em famílias com um membro autista, destacam-se a execução de reestruturação e desenvolvimento de crenças, ou seja, é por conta disso que é tão importante a participação dos pais em orientação diante das terapias e tratamento do seu filho, independente de seu diagnóstico.

Os pais constroem crenças e explicativas da causalidade do Autismo de seus filhos, geralmente atribuem o transtorno a causas únicas e/ou inabilidade dos médicos, à hereditariedade e ao ambiente. No geral, atribuições à própria culpa e ao ambiente se relacionam a um pior ajustamento dos pais à condição dos filhos, ou seja, a formulação de um sistema de crenças de aceitação, adaptação e otimismo possibilitam sentimentos de esperança e controle e permitem extrair sentido da adversidade.

Considerando-se que mães emocionalmente mais saudáveis têm melhor engajamento em atividades cognitivas e de suporte com a criança e que um baixo grau de estresse paterno aumenta a efetividade de processos de intervenção precoce, torna-se necessário o enfoque em intervenções centradas nos pais, tornando-os aptos a funcionarem como parceiros ativos importantes no tratamento do Autismo, uma vez que esse deve ser intensivo, abrangente e duradouro.

Concluindo, o profissional de saúde que atua com famílias em que haja algum membro com Autismo deve ter em mente, em primeiro lugar, que a participação da família no tratamento é fundamental para o desenvolvimento da criança. A partir do momento em que nascemos já nos encontramos inseridos nessa estrutura social básica, em que interações primárias são estabelecidas para garantir nossa sobrevivência. Além disso, sabe-se que, apesar da forte influência dos aspetos genéticos, o ambiente se constitui em fator decisivo na determinação das características comportamentais da criança.

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