Keep Calm and Fique Sóbrio

Keep Calm and Fique Sóbrio

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Ei, doutor, doutor, por favor, me salve
Isto está me deixando louco
Não faça rodeios
Me deixe dizer

Ficar sóbrio é difícil para mim
Eu não posso fazer nada
Ficar sóbrio é a coisa que eu mais odeio

Eu tenho tantas malditas coisas para fazer, mas eu não quero fazer nada

Os olhos das pessoas são cortantes
As pessoas não me entendem

Fique bêbado e vá para o céu
Quando acordar, você estará no inferno, não pode ir mais longe que isto
Agora eu sou o Popeye, sem o espinafre.

(Sober – Big Bang)

Quando falamos em comportamento, estamos afirmando que modificações no ambiente produzem alterações no organismo. Alguns de nossos comportamentos são inatos ou reflexos, são os chamados comportamentos respondentes. Contudo, a maioria de nossos comportamentos é aprendida, são os chamados comportamentos operantes. Dizer que um comportamento é operante significa dizer que ele produz consequências (modifica o ambiente) e é afetado por essas consequências.

Se essa consequência aumenta a probabilidade daquele comportamento ocorrer novamente é chamado de reforço. Quando há o acréscimo de um estímulo falamos de reforço positivo e se há a retirada de um estímulo falamos de reforço negativo. Porém, se a consequência produzida diminuir a probabilidade desse comportamento ocorrer novamente é chamado de punição. Da mesma forma, se houve o acréscimo de um estímulo temos uma punição positiva e com a retirada de um estímulo temos uma punição negativa.

Se estamos falando em comportamentos aprendidos, ingerir bebidas alcoólicas é um comportamento operante. O indivíduo aprende a beber. Será apresentada aqui uma análise comportamental a respeito da dependência ao consumo de álcool de forma genérica.  Mas cabe lembrar que, especificamente, cada organismo se comporta de uma forma diferente, devido à sua filogênese e ao seu repertório comportamental.

Para nossa análise, vamos falar sobre o Pedro.

Quando Pedro bebeu uma dose de uma bebida alcoólica, ele se sentiu bem e teve sensações agradáveis. Nos efeitos do álcool, podemos citar a euforia e o relaxamento, muitas vezes acompanhados com a desinibição. Ou seja, foi reforçador. Se a consequência é reforçadora, ela aumenta a probabilidade do comportamento acontecer novamente. Então, Pedro continuou a emitir o comportamento de beber.

Um detalhe importante é que quanto mais uma pessoa ingere bebidas alcoólicas, maior é a tolerância criada pelo organismo. E isso resulta em maiores quantidades de bebida que o organismo poderá ingerir. Se a bebida produz sensações agradáveis e de forma rápida, ela é um reforçador positivo e imediato. Se Pedro está em busca desse tipo de reforço, beberá continuamente.

baresias

Quando uma pessoa passar a consumir drogas (álcool é uma droga lícita) contínua ou periodicamente para obter prazer (reforço) falamos em dependência. No início do texto foi dito que o comportamento operante é controlado pelas consequências que produz. Ora, se a consequência do comportamento de beber é ‘se sentir bem’, Pedro aprendeu que se ele quiser ‘se sentir bem’ poderá beber. O dependente é caracterizado por não conseguir controlar esse consumo. Portanto, passa a agir de forma impulsiva e repetitiva.

Existem duas formas de dependência. A física, que é evidenciada com a presença de sintomas ou sinais físicos quando o uso da droga é interrompido ou diminuído bruscamente; e a psicológica, que seria um estado de mal-estar e desconforto quando o uso é interrompido (por exemplo, ansiedade, sensação de vazio e dificuldade de concentração).

A tolerância de Pedro foi aumentando aos poucos e ele também aumentou as doses de consumo. Um dia Pedro percebeu que a falta do álcool lhe causou tremores, taquicardia e sudorese. A chamada abstinência.

A Síndrome de Abstinência do Álcool aparece quando a pessoa interrompe o uso ou diminui de forma abrupta a quantidade que habitualmente consome. Essa síndrome pode evoluir para quadros cerebrais graves. Podem surgir sintomas como confusão mental, ilusões e alucinações (delirium tremens). Sem tratamento, o quadro pode até mesmo evoluir para a morte.

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Pedro também começou a ficar ansioso e sentia-se vazio. Para Pedro, a ausência de álcool passou a ser aversivo. Então, para se livrar dessa sensação desagradável, basta Pedro beber novamente. E assim, o comportamento de beber, que antes era mantido por reforçamento positivo, passa a ser mantido por reforçamento negativo.

Se Pedro beber ele não sentirá todos os efeitos da abstinência, que é aversivo. Quando o organismo se comporta para evitar um estímulo aversivo, falamos de esquiva. E dizemos que é reforçado negativamente porque retira o estímulo aversivo (no caso, os sintomas da abstinência).

Mas e os prejuízos causados pelo álcool? Há os transtornos ocasionados pela intoxicação aguda pelo álcool, surgimento de lesões no aparelho digestivo, lesões cerebrais e cardíacas, e vários outros sintomas clínicos adicionais. Além disso, também há os problemas sociais e psicológicos decorrentes.

Podemos afirmar que todas sejam consequências aversivas para o individuo. Contudo, são efeitos que aumentam cumulativamente e que possuem efeitos postergados. Isso é chamado de punição a longo prazo, e ela pesa mais do que o reforço a curto prazo. Contudo, o comportamento de beber acaba sendo uma armadilha de reforço. A bebida traz reforços imediatos. Então a pessoa age de forma impulsiva sob controle de reforço a curto prazo.

Referências:

BAUM, William M. Compreender o Behaviorismo: comportamento, cultura e evolução. 2ª ed. Porto Alegre: Artmed. 2006.

RESENDE, Geraldo Luiz Oliveira de. Análise do comportamento de prontidão para mudança em alcoolistas. In.: ROOSEVELT, R. Starling (org). Conhecer e Avançar. Santo André: ESETec Editores Associados. Vol. 5. 2006.

SILVEIRA, Dartiu Xavier da; DOERING-SILVEIRA, Evelyn. Classificação das substâncias psicoativas e seus efeitos. In.: Secretária Nacional de Políticas sobre Drogas. Prevenção dos problemas relacionados ao uso de drogas: capacitação para conselheiros e lideranças comunitárias. 6ª ed. Brasília: SENAD-MJ/NUTE-UFSC. 2014.

SILVEIRA, Dartiu Xavier da; DOERING-SILVEIRA, Evelyn. Padrões de uso de drogas. In.: Secretária Nacional de Políticas sobre Drogas. Prevenção dos problemas relacionados ao uso de drogas: capacitação para conselheiros e lideranças comunitárias. 6ª ed. Brasília: SENAD-MJ/NUTE-UFSC. 2014.

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