“Os 13 Porquês” de se falar sobre suicídio na adolescência – Parte...

“Os 13 Porquês” de se falar sobre suicídio na adolescência – Parte I

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Vocês já conhecem a história da Hannah?

“Espero que vocês estejam prontos, porque vou contar aqui a história da minha vida. Mais especificamente, por que ela chegou ao fim.”

No livro “Os 13 Porquês” somos apresentados à história da adolescente Hannah. Ela cometeu suicídio e antes de morrer deixou algumas fitas gravadas contando os 13 motivos que a levaram a cometer suicídio. A narração nos leva a refletir sobre alguns aspectos importantes a respeito do suicídio na adolescência. E neste texto, serão abordados 13 temas que são mostrados de alguma forma no livro. 

1 ~ Suicídio é um problema de saúde pública

Conforme apontamentos da Organização Mundial de Saúde, o suicídio se tornou um problema de saúde pública a nível mundial. O suicídio encontra-se como a terceira causa de morte entre indivíduos na faixa etária de 15 a 44 anos e é a segunda causa de morte entre jovens de 10 a 24 anos.

Mulheres têm três vezes mais propensão a tentarem o suicídio, porém, homens são três vezes mais bem-sucedidos em suas tentativas. Hipotetiza-se que essa situação seja explicada por mulheres serem mais tendenciosas a apresentar quadro clínico depressivo e pelos homens utilizarem de técnicas mais violentas (por exemplo, armas, saltos de prédio).

2 ~ Taxas de suicídio tem aumentado consideravelmente entre adolescentes

“Durante mais ou menos dez minutos a Sra. Bradley disparou uma serie de estatísticas – estatísticas locais – que causaram surpresa em todo mundo.”

Nos últimos 45 anos, houve um aumento de 60% nas taxas de suicídio em todo o mundo. Estima-se que aproximadamente um milhão de pessoas morrem devido ao suicídio. Ou seja, uma morte a cada 40 segundos; 16 mortes a cada 100 mil habitantes. Nesse contexto, o grupo de maior risco atualmente é a população jovem e em alguns países o suicídio de adolescentes e jovens adultos tornou-se um padrão epidêmico.

Em se tratando de comportamento suicida, a adolescência é considerada propícia para comportamentos de ideação suicida e também para as tentativas de suicídio, especialmente quando associada com algum quadro de transtorno psiquiátrico. Cerca de 12% dos óbitos de adolescentes ocorre por suicídio e a prevalência de tentativas entre este grupo é de 14,1%.

Pesquisas brasileiras apontam uma prevalência de 6,3% de planejamento suicida entre adolescentes e os fatores associados com maior prevalência foram sentimentos de solidão e tristeza. Os métodos mais utilizados por meninas é a intoxicação medicamentosa, enquanto meninos se utilizam de métodos mais violentos. Os atendimentos à adolescentes que tentaram suicídio acontecem, em sua maioria, no período da noite e o horário em que as tentativas são efetuadas, em grande parte, são no período diurno.

Fonte: poltronanerd
Fonte: poltronanerd

3 ~ Registro do suicídio como causa da morte nos atestados de óbito

“Porque somos jovens, segundo ela, e a não ser que o suicídio ocorresse em um local público, com testemunha, provavelmente não seria noticiado. Os pais não querem que os outros saibam que seu filho, o filho que eles criaram, acabou com a própria vida. Portanto, as pessoas muitas vezes são levadas a acreditar que a morte foi um acidente.”

Os números relacionados ao suicídio são estimativas não confiáveis e muitas vezes subestimadas. Isto porque os dados estatísticos oficiais provêm das causas das mortes que constam nos registros de óbitos. Para a ONU, para cada suicídio consumado pelo menos vinte tentativas ocorreram e para cada tentativa registrada oficialmente, pelo menos quatro não são registradas.

Em relação ao óbito por suicídio existem dois pontos importantes. O primeiro é que, em muitos casos, a família pressiona para que a causa real da morte seja modificada ou ocultada. A segunda é a dificuldade em certos casos de determinar se a morte foi causada por um acidente ou se foi suicídio.

4 ~ A importância de atentar-se aos fatores de risco

“No final da aula, a Sra. Bradley distribuiu um folheto: ‘Sinais de alerta em um individuo suicida’.”

A identificação de risco iminente de suicídio é uma tarefa difícil e complexa, pois não há muitas evidências empíricas para a identificação desses indivíduos.

Muitas pessoas em risco de suicídio não são identificadas ou o são tardiamente. Portanto, é necessário buscar maneiras mais eficazes de identificar e manejar os fatores de risco do comportamento suicida.

Os principais fatores de risco que têm sido observados no comportamento suicida de adolescentes incluem:

  • Isolamento social;
  • Abandono;
  • Exposição à violência intrafamiliar;
  • Abuso físico ou sexual;
  • Transtornos de humor e personalidade;
  • Transtornos psiquiátricos;
  • Uso de substâncias psicoativas;
  • Impulsividade;
  • Eventos estressores ao longo da vida;
  • Suporte social deficitário;
  • Sentimentos de solidão, desespero e incapacidade;
  • Suicídio de um membro da família;
  • Condições socioeconômicas;
  • Decepções amorosas e oposição familiar a relacionamentos sexuais;
  • Homossexualidade;
  • Bullying;
  • Condições de saúde desfavoráveis;
  • Rendimento escolar deficiente e dificuldade de aprendizagem.

Vamos deixar claro que de forma isolada esses aspectos não são preditores do suicídio. Entretanto, deve-se considerar as consequências que derivam deles e que podem aumentar consideravelmente a vulnerabilidade desses indivíduos.

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Sobre os fatores de risco ao suicídio, ainda é preciso observar:

  • A intenção;
  • O acesso aos meios
  • A presença e gravidade de transtornos psiquiátricos;
  • A presença de psicoses;
  • A falta de esperança;
  • A falta de recursos pessoais, familiares e sociais;
  • Tentativas prévias de suicídio.

Um ponto que deve ser ressaltado é que o perigo de risco iminente tem um tempo limitado e está associado aos fatores estressores do ambiente e ao suporte social que o indivíduo possui.

De fato, quando existe a presença da impulsividade, o intervalo entre o inicio da ideação suicida e o ato suicida pode ser menor do que 10 minutos, ou seja, não existe um tempo preciso e pré-determinado entre a ideação e o ato.

5 ~ Rede de apoio para adolescentes com comportamento suicida

“Na verdade, não sei o que eles poderiam ter feito para me fazer pender para um lado ou para o outro. Talvez eu tivesse apenas sendo egocêntrica. Talvez quisesse apenas chamar atenção. Talvez quisesse apenas ouvir os outros discutirem sobre mim e sobre meus problemas. Ou talvez quisesse que alguém apontasse o dedo para mim e dissesse: ‘Hannah! Você está pensando em se matar? Por favor! Não faça isso, Hannah! Por favor!’ Mas, lá no fundo, a única pessoa dizendo isso era eu. Lá no fundo, essas eram as minhas palavras.”

Entende-se que a decisão de cometer o suicídio não aparece de forma rápida e repentina. Observa-se que na maioria dos casos, os indivíduos que cometeram suicídio manifestaram alguma advertência ou sinal quanto à ideia de atentar contra a própria vida. Cabe aqui ressaltar que diferentes pessoas possuem motivações diferentes e finalidades diferentes para o comportamento suicida.

Um dos fatores de risco ao suicídio na adolescência é a falta de convivência com pares durante a infância ou mesmo na adolescência. A falta de convívio social adequado pode levar a maiores probabilidades da ocorrência de problemas emocionais, comportamentais e afetivos, pois a troca afetiva nesta fase reduz o impacto das experiências adversas.

Têm-se constatado que um sentimento comum entre os adolescentes que tentam o suicídio é o de solidão, refletido através da falta de amigos ou ausência de alguém para dividir experiências e tristezas.

Sabe-se que o apoio emocional e social provindo das relações interpessoais influência de forma significativa nas características individuais (por exemplo, comportamentos, temperamentos, habilidades sociais, afetividade, habilidades para resolução de problemas), além de atuar na autoestima e amenizar o impacto causado por eventos estressores.

Assim, a convivência com pares durante a adolescência, que é um momento no qual os relacionamentos estabelecidos fora do ambiente familiar apresenta um papel importante no desenvolvimento, é um importante fator de proteção ao suicídio.

Referências

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