“Os 13 Porquês” de se falar sobre suicídio na adolescência – Parte...

“Os 13 Porquês” de se falar sobre suicídio na adolescência – Parte II

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Fonte: crescendoemflor

A primeira parte deste texto você pode conferir AQUI

Agora vamos dar continuidade aos 13 temas que são mostrados de alguma forma no livro. 

6 ~ Comportamento suicida na adolescência: ideação, planejamento, tentativa e consumação

“Antes daquela festa, eu pensava em abandonar tudo muitas vezes. Sei lá, talvez algumas pessoas sejam mais pré-condicionadas a pensar nisso do que outras. Porque toda vez que acontecia alguma coisa ruim, eu pensava nisso.”

O comportamento suicida é dividido em categorias.

A ideação suicida é considerada o primeiro passo para a efetivação do suicídio, sendo um importante preditor de risco. Na ideação vê-se a ocorrência de pensamentos, ideias e desejo de se matar. Ideias de morte são diferentes de ideação suicida. Nas ideias de morte, a pessoa pensa que a morte poderia ser um alívio, mas ela não cogita o suicídio. São falas que expressam o desejo de dormir e não mais acordar ou mesmo de ter uma doença fatal. O desejo suicida é resultado das ideias, do sentimento de desesperança e da falta de perspectiva de futuro.

A ideação é considerada um fator de risco para o comportamento suicida. Cerca de 60% das pessoas que consumaram o ato suicida tinham apresentado ideação anteriormente. Enquanto fator preditor, é preciso detectar precocemente esses pensamentos e buscar compreender os motivos que o fizeram se originar.

A ideação suicida, mesmo quando o suicídio não é consumado, acarreta consequências negativas para o indivíduo, pois está associada a um maior risco de transtornos psiquiátricos, baixa autoestima, problemas comportamentais, baixas habilidades sociais e problemas com relacionamentos interpessoais.

“Mas, às vezes, eu levava a ideia em frente e ficava imaginando de que maneira faria isso.”

Na ideação não ocorrem manifestações ou propósitos de autoagressão. Nessa fase, a própria pessoa pode reconhecer tais pensamentos como absurdos e intrusivos, mas à medida que se tornam frequentes, esses pensamentos podem adquirir proporções significativas e a pessoa passa a não conseguir evitá-los.

Deve-se atentar para a intensidade dos pensamentos suicidas, sua profundidade e duração, quais os contextos aparecem e se o jovem consegue “se desligar” deles. Esses fatores são determinantes para se identificar uma possível crise suicida.

 “Pela primeira vez, pensei no meu próprio funeral. Cada vez mais, bem genericamente, eu vinha pensando na minha própria morte. Apenas no fato de morrer.”

Em seguida temos o planejamento suicida. Nesta etapa a pessoa determina e estabelece quando, onde e como irá realizar o ato em si. O planejamento é a preparação para o ato suicida. É nessa fase que o individuo decide e verifica a viabilidade do método escolhido.

A intenção suicida pode ocorrer anterior ou concomitantemente ao planejamento e está associada com o grau de ameaça ao fim da vida, mesmo quando a ação não é realizada.

Nesse estágio, existem alguns elementos que apontam para o risco iminente, tais como:

  • Alta letalidade;
  • Facilidade de acesso a métodos;
  • Dificuldade de interceptação de outros;
  • Preparação do indivíduo (por exemplo, bilhetes e mensagens).

“Mas, às vezes, eu levava a ideia em frente e ficava imaginando de que maneira faria isso. Eu me deitava embaixo das cobertas e me perguntava se havia alguma coisa em casa que eu poderia usar. Um revolver? Não. Nunca tivemos um. E eu não sabia onde arrumar. Que tal um enforcamento? Bem, o que eu poderia usar? Onde eu faria isso? […] Isso se tornou uma espécie de jogo doentio, imaginar maneiras de me matar. E algumas delas são bem esquisitas e criativas. […] decidi optar pela maneira menos dolorosa possível. Comprimidos. Que tipo de comprimido? Quantos? Não sei ao certo. E não tenho muito tempo para descobrir, porque amanhã… eu vou fazer isso.”

A tentativa pode ser definida como o ato autoagressivo não fatal de ampla variedade, que causa (ou não) sequelas leves ou graves. Existem quatro tipos de tentativas:

  • Tentativas reais: ato autolesivo cometido com alguma intenção explícita ou não e morrer em decorrência daquele ato;
  • Tentativa interrompida: quando a tentativa é interrompida por circunstâncias externas;
  • Tentativa abortada: quando o próprio indivíduo interrompe a tentativa;
  • Tentativa ambígua: quando o ato parece ter a intenção de letalidade, mas o indivíduo nega a intenção e o clínico, por sua vez, não consegue inferir a intencionalidade.

A tentativa de suicídio também é classificada de acordo com o método utilizado, podendo ser:

  • Violento: enforcamento, queda de alturas, mutilações, disparos, armas brancas;
  • Não violento: intoxicação voluntária de drogas, inalação de gases tóxicos.

E ainda é classificada quanto à gravidade ou letalidade do ato e pode ser avaliada em: grau de impulsividade; planejamento; danos médicos; e possibilidade de escape da tentativa. Os atos impulsivos são repentinos e não possuem planejamento prévio. Neste caso, observa-se o emprego de métodos repetitivos e estereotipados, mas que pode ter êxito letal.

Geralmente, depois da primeira tentativa aumenta-se a probabilidade de outras ocorrerem, até que uma seja fatal. Essa tentativa fatal é denominada consumação e se constitui como a última categoria.

Fonte: sobresagas
Fonte: sobresagas

7 ~ Depressão e suicídio

“Você já não tem quase mais nenhum controle sobre nada. E, a certa altura, a luta se torna excessiva – cansativa demais – e você considera a possibilidade de largar tudo. De deixar acontecer uma tragédia… Ou seja lá o que for.”

A depressão é um dos principais fatores de risco para o comportamento suicida em todas as faixas etárias. Sintomas depressivos são importante fator de risco para o suicídio, principalmente em adolescentes. Estatísticas revelam que cerca de dois terços dos casos de suicídio na adolescência ocorreram em jovens com histórico clínico depressivo.

A depressão na adolescência é bem caracterizada e possui algumas particularidades. Ela pode se manifestar por longos períodos de tempo, afetar múltiplas funções e ocasionar prejuízos psicossociais. Dentre os sintomas depressivos na adolescência, pode-se citar:

  • Humor irritável e instável;
  • Frequentes episódios de explosão e raiva;
  • Perda de energia;
  • Apatia e retaro psicomotor;
  • Desinteresse;
  • Perturbações do sono e alterações de apetite;
  • Dificuldade de concentração;
  • Isolamento e sentimentos de desesperança;
  • Uso e abuso de substâncias psicoativas;
  • Comportamento suicida.

 8 ~ O contexto escolar, a adolescência e o suicídio

“Isso não parece nada demais, parece? Não, talvez não para vocês. Mas há muito tempo a escola não era mais um abrigo seguro para mim.”

Em relação à escola, um de seus papeis é a promoção e proteção da saúde dos alunos, já que seu ambiente pode propiciar a reprodução de comportamentos e relacionamentos inadequados que causem risco à saúde [física e mental] dos adolescentes. Nesse sentido, a escola precisa integrar-se à atenção ao adolescente, principalmente, quando se fala na questão do suicídio.

O ideal seria que a escola estivesse preparada para identificar precocemente situações problemáticas e fatores de risco. Torna-se importante que profissionais da educação sejam qualificados para identificar situações de risco para a tentativa ou para o suicídio propriamente dito.

A prevenção do suicídio nas escolas pode ocorrer através de discussões sobre o assunto, além de ações para identificar fatores de risco e intervenções que ofereçam apoio aos jovens. Além disso, os educadores podem servir de porta voz no apoio de programas que abordem essa questão, divulgando instituições que trabalhem com esta abordagem.

Fonte: filmow
Fonte: filmow

9 ~ Despreparo dos profissionais de saúde frente ao suicídio

“Uma enxurrada de emoções corre dentro de mim. Dor e raiva. Tristeza e pena.”

Muitas vezes os profissionais da saúde podem se sentir despreparados quando estão diante de uma tentativa de suicídio.

Isso pode ocorrer tanto pelo despreparo técnico como pelos sentimentos, crenças e valores pessoais que surgem naquela situação. Tais situações fazem com que esses profissionais não saibam como agir diante de um adolescente que tentou suicídio.

Diversas vezes, o suicida é tido como uma pessoa que só queria chamar a atenção, que fez drama, que não merece cuidados de saúde, etc. Uma equipe de saúde é comprometida e treinada para salvar vidas. E o indivíduo que atentou contra a própria vida frequentemente desperta um sentimento de aversão para esses profissionais, levando-os a serem incompreensíveis com a pessoa que tentou o suicídio. Geralmente, a equipe de saúde acaba desenvolvendo sentimentos de impotência, raiva, ansiedade, ausência de empatia e desesperança por esses pacientes.

As posturas preconceituosas e discriminadoras em relação ao jovem que tentou suicídio por parte dos profissionais de saúde estão muitas vezes associadas com esta crença de que o suicida é uma pessoa que não precisa de ajuda, pois consideram uma demanda indigna.

Referências

ABREU, Lena Nabuco de. Avaliação do impacto da comorbidade com transtornos ansiosos no comportamento suicida em pacientes com transtornos de humor. Tese [doutorado], Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, São Paulo. 2015.

ARAUJO, Luciene da Costa; VIEIRA, Kay Francis Leal; COUTINHO, Maria da Penha de Lima. Ideação suicida na adolescência: um enfoque psicossociológico no contexto do ensino médio. Psico-USF (Impr.),  Itatiba,  v. 15, n. 1, p. 47-57,  Apr.  2010.

BAGGIO, Lissandra; PALAZZO, Lílian S.; AERTS, Denise Rangel Ganzo de Castro. Planejamento suicida entre adolescentes escolares: prevalência e fatores associados. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 25(1):142-150, jan, 2009.

BOAS, Laís Macêdo Vilas. O julgamento clínico no contexto do risco de suicídio. [Online]. 2011.

BRAGA, Luiza de Lima; DELL’AGLIO, Débora Dalbosco. Suicídio na adolescência: fatores de risco, depressão e gênero. Contextos Clínic,  São Leopoldo,  v. 6, n. 1, p. 2-14, jun.  2013.  

HILDEBRANDT, Leila Mariza; ZART, Franciele; LEITE, Marinês Tambara. A tentativa de suicídio na percepção de adolescentes: um estudo descritivo. Rev. Eletr. Enf. [Internet], v. 13, n. 2. 2011.

MELEIRO, Alexandrina Maria Augusto da Silva. Atendimento de pacientes com comportamento suicida na prática médica. Rev. Bras. Med., v. 70, n. 4. 2013.  

SOUZA, Ana Claudia Gondim; BARBOSA, Guilherme Correa; MORENO, Vânia. Suicídio na adolescência: revisão de literatura. Rev. UNINGÁ, v. 43. 2015.

SOUZA, Luciano Dias de Mattos; ORES, Liliane; OLIVEIRA, Gabriela Teixeira de; CRUZEIRO, Ana Laura Sica; SILVA, Ricardo Azevedo; PINHEIRO, Ricardo Tavares; HORTA, Bernardo Lessa. Ideação suicida na adolescência: prevalência e fatores associados. J. Bras. Psiquiatr., v. 59, n. 4. 2010.

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