Avaliação Neuropsicológica: Epilepsia com Comorbidade em Deficiência Intelectual

Avaliação Neuropsicológica: Epilepsia com Comorbidade em Deficiência Intelectual

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ESTUDO DE CASO – AVALIAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA: EPILEPSIA COM COMORBIDADE EM DEFICIÊNCIA INTELECTUAL

Bensi, Thamara Cristina1; Memória, Cláudia Maia2, Juhas, Thiago Robles3; De Almeida, Rosa Maria Martins4; De Lúcia, Mara Cristina Souza5; Scaff, Milberto6

Resumo:

Objetivo: Verificar se um quadro de Epilepsia pode ter comorbidade com algum quadro neuropsicológico, no qual, que afeta as funções cognitivas. Método: Essa pesquisa é um estudo de caso em que foram avaliadas as habilidades cognitivas de uma adolescente diagnosticada com Epilepsia e com queixa de dificuldade de aprendizagem. Foi aplicada escala para avaliar as funções cognitivas da paciente. Resultado: Os resultados obtidos demonstram um desempenho abaixo do esperado para a idade da paciente, em todas as suas funções cognitivas. Conclusão: Há possibilidade de um quadro epilético desenvolver um quadro de deficiência intelectual, de acordo com as áreas cerebrais afetadas pela mesma e por sua gravidade.

Palavras – Chave: Epilepsia, Deficiência intelectual, Avaliação neuropsicológica, Comorbidade.

Introdução:

A epilepsia é considerada uma condição neurológica crônica, na qual, pode ocorrer em qualquer idade, raça e classe social, sendo um tipo de disfunção cerebral caracterizada clinicamente por alterações subjetivas ou comportamentais, com tendência a se repetirem durante um determinado ou todo o período de vida do indivíduo. As ditas “crises epiléticas” ocorrem espontaneamente, o que é chamado de “início súbito”, a partir de uma atividade elétrica anormal, acometendo uma ou várias áreas do córtex cerebral (Guerreiro, 2000).

A epilepsia pode causar alterações comportamentais também (não sendo obrigatoriamente), que é conhecida como “convulsão”, o que nada mais é que crises motoras, na qual, é conhecida popularmente como “ataque”. Os surtos de atividade anormal podem provocar inúmeros tipos de alterações comportamentais, tais como crises motoras, alucinações sensoriais (mais comumente conhecidas como aura), distúrbios neurovegetativos (por exemplo, crises de vômitos e ou cólicas), crises de ausências (perda momentânea da consciência) com ou sem perda do tônus motor, o que popularmente é chamado de desmaio (Guerreiro, 2000).

O córtex cerebral é subdividido em áreas, nas quais, controlam as respostas do sistema nervoso central com relação á vias sensitivas e motoras do nosso corpo. Dessa forma, as crises epiléticas podem trazer prejuízos para o indivíduo com o passar do tempo (Fernandes, 2013).

As crises devem ser avaliadas juntamente com outros dados do paciente, como idade, análise de imagem e eletroencefalograma, exame físico para definir o diagnóstico sindrômico fundamental para elaboração de uma programação terapêutica

(Yacubian, 2002). Quanto mais adequada for a resposta do paciente ao tratamento, melhor será o prognóstico

O alvo do tratamento da epilepsia não deve ser tão somente o controle das crises epilépticas, mas também a abordagem das diversas comorbidades, levando a melhor qualidade de vida e bem estar psíquico, bem como melhoria da capacidade cognitiva (Costa, Filho & Gomes, 2012).

A epilepsia traz consequências psicossociais que estão muito além das questões relativas aos estigmas e limitações sociais impostas pela doença, sendo acerca dos aspectos cognitivos, neuropsicológicos e neuropsiquiátricos ao longo do ciclo vital. Particularmente no que diz respeito ao campo pediátrico, sabemos que as diversas doenças crônicas, entre elas a epilepsia, trazem prejuízos em várias áreas da vida do sujeito, com repercussão no seu comportamento e aprendizado (Tenddé, 2012).

Estudos demonstram o aumento de problemas de comportamento de todos os tipos em crianças e adolescentes com epilepsia. Muitas vezes as comorbidades causam mais danos à qualidade de vida dos pacientes que a epilepsia propriamente dita (Costa, Filho, & Gomes, 2012).

Uma das comorbidades a ser considerada em crianças e adolescentes com epilepsia é a Deficiência Intelectual. A D.I. é uma das deficiências mais encontrada em crianças e adolescentes, atingindo 1% da população jovem (VANCONCELOS, 2004). Caracterizada pela redução no desenvolvimento cognitivo, ou seja, no QI, normalmente abaixo do esperado para a idade cronológica da criança ou adulto, acarretando muitas vezes um desenvolvimento mais lento na fala, no desenvolvimento neuropsicomotor e em outras habilidades (Tenddé, 2012).

A deficiência intelectual não é considerada uma doença ou um transtorno psiquiátrico, e sim um ou mais fatores que causam prejuízo das funções cognitivas que acompanham o desenvolvimento diferente do cérebro. (Honora & Frizanco, 2008). Portanto, o objetivo deste estudo foi verificar e discutir o resultado de uma avaliação neuropsicológica de uma adolescente diagnosticada com Epilepsia e queixa de dificuldade de aprendizagem. Tendo como finalidade associar a Epilepsia a uma possível comorbidade que afeta as funções cognitivas.

Método:

Delineamento:

Estudo de caso, obtido através do encaminhamento para avaliação neuropsicológica.

Apresentação do caso:

Foi avaliada uma adolescente do sexo feminino, com 15 anos de idade, no qual foi encaminhada para avaliação neuropsicológica pelo setor de neurologia do Hospital das Clínicas da cidade de São Paulo, obtendo as queixas de atraso escolar e epilepsia. A paciente mora com a mãe e a irmã mais nova (13), cursando o primeiro ano do ensino médio de uma escola Estadual da cidade de São Paulo.

Em entrevista com a mãe de M. os sintomas referentes a menor foram de falta de compreensão por parte da mesma, sendo relatada como extrema ingenuidade, além de “crises de ausência” presenciadas pelos familiares.

A partir das sessões com a paciente foi possível observar dificuldades relacionadas ao nível de compreensão por parte da adolescente, levantando a hipótese de deficiência intelectual.

Instrumento de avaliação:

Foi utilizada a versão resumida da Escala Wechsler de Inteligência para Crianças – 4a Edição (WISC-IV), sendo um instrumento clínico de aplicação individual que tem como objetivo avaliar a capacidade intelectual do indivíduo e o processo de resolução de problemas. Faixa etária: 6 anos e 0 meses a 16 anos e 11 meses. A avaliação foi composta por 8 subtestes, sendo vocabulário, semelhanças, cubos, raciocínio matricial, dígitos, aritmética, códigos e procurar símbolos, no qual, foi avaliado o índice de Compreensão Verbal, Índice de Organização Perceptual, Índice de Memória Operacional e Índice de Velocidade de Processamento, alem do QI Total. (Wechsler, 2013)

Índice de Compreensão Verbal (ICV): É formado por subtestes que se destinam à aferição das habilidades verbais por meio do raciocínio, da compreensão e da conceituação; é constituído pelos subtestes: Semelhanças; Vocabulário; Compreensão; Informação e Raciocínio com Palavras (Wechsler, 2013).

Índice Organização Perceptual (IOP): Mede organização perceptual; constituído pelos subtestes Cubos; Conceitos Figurativos, Raciocínio Matricial e Completar Figuras.

Índice de Memória Operacional (IMO): Analisa a atenção, a concentração e a memória operacional, os subtestes utilizados são Dígitos, Sequência de Números e Letras, Aritmética (Wechsler, 2013).

Índice de Velocidade de Processamento (IVP): Avalia a agilidade mental e processamento grafo motor; constituído pelos subtestes Código, Procurar Símbolos e Cancelamento (Wechsler, 2013).

Procedimento e análise dos dados:

O instrumento utilizado descrito acima foi aplicado em uma sessão de uma hora e meia de duração no Hospital das Clínicas do Estado de São Paulo. Foram efetuadas análises e os resultados foram obtidos através do referencial teórico pesquisado.

Resultados:

O resultado do teste utilizado na avaliação neuropsicológica pode ser visto na Tabela 1, e, na Figura 1 pode ser observada a curva normal de aprendizagem esperada para cada resultado e a classificação, com relação aos pontos compostos adquiridos por cada pessoa em avaliação.

Figura 01 (para ampliar a figura clique sob ela)

Discussão:

O diagnóstico diferencial entre epilepsia e deficiência intelectual não é uma tarefa fácil, pois a correlação entre elas não ocorre em todos os casos. A maioria dos estudos revisados para este presente estudo, investigam o desempenho cognitivo do sujeito com relação à epilepsia, não correlacionando a um possível quadro de deficiência intelectual.

O prejuízo cognitivo em indivíduos com epilepsia pode apresentar diferentes padrões e gravidade dependendo de vários fatores envolvidos nessa síndrome, como a variabilidade etiológica, os diferentes tipos de crises, a idade de início, a duração da epilepsia, o esquema terapêutico e a frequência das crises (Manreza, 2003).

Pela epilepsia se tratar de um distúrbio da atividade elétrica cerebral, pode levar a dificuldades cognitivas, que se severas caracterizam um quadro de deficiência mental/intelectual. Nessas condições atua como um fator coadjuvante na promoção da redução da capacidade de processamento cerebral (Manreza, 2003).

Como o cérebro é um sistema de processamento inteligente distribuído, no qual a solução de um problema requer uma ampla associação de áreas cerebrais, cada uma especializada na realização de uma tarefa, a alteração da atividade elétrica cerebral na epilepsia, dificulta, por si só, a atividade mental do indivíduo. Se essa alteração de atividade for mais generalizada e importante, pode, portanto, ser a causa primordial da deficiência mental/intelectual. Quando localizada há áreas específicas que podem explicar as dificuldades particulares com uma atividade cognitiva determinada (Guerreiro, 2000).

Conclusão:

No presente estudo, os resultados da avaliação neuropsicológica mostraram que a paciente possui um extremo prejuízo em suas funções cognitivas, em geral. Apresentando um desempenho bem abaixo do esperado para a sua idade, sendo possível classifica-la como deficiente intelectual.

Portanto, a partir do presente estudo é possível afirmar que há possibilidade de um quadro epilético desenvolver um quadro de deficiência intelectual, de acordo com as áreas cerebrais afetadas pela mesma e por sua gravidade.

Referências dos Autores:

1. Aluna do Curso de Especialização em Neuropsicologia pelo CEPSIC.

2. Coordenadora do Curso de Especialização em Neuropsicologia pelo CEPSIC.

3. Neuropsicólogo do ICHC – FMUSP.

4. Neuropsicóloga do ICHC – FMUSP.

5. Diretora da Divisão de Psicologia do ICHC-FMUSP.

6. Professor Titular do Departamento de Neurologia da FMUSP.

Este estudo foi apresentado ao CEPSIC para obtenção do título de Especialista em Neuropsicologia através do Curso de Especialização em Neuropsicologia.

Contato: Thamara Cristina Bensi. Endereço: Rua. Dr. Enéas de Carvalho Aguiar, 155, PAMB. CEP: 05403-000. São Paulo, São Paulo, Brasil. Tel: # 55 11 2661-6188. E-mail: rosa.almeida@ufrgs.br

Referências:

Costa, C.R.M.C; Filho, H.S.M; Gomes, M.M (2012). Avaliação Clínica e Neuropsicológica da Atenção e Comorbidade com Tdah nas Epilepsias da Infância: Uma revisão sistemática. Recuperado em 05 Dez, 2015: http://www.scielo.br/pdf/jecn/v15n2/a06v15n2

Fernandes, M.J.S (2013). Epilepsia do lobo temporal: mecanismos e perspectivas. Recuperado em 05 Dez, 2015: http://www.scielo.br/pdf/ea/v27n77/v27n77a07.pdf

Guerreiro CAM, Guerreiro MM, Cendes F, Lopes-Cendes I. Epilepsia. São Paulo: Editora Lemos, 2000.

Honora M. & Frizanco M. L., Esclarecendo as deficiências: Aspectos teóricos e práticos para contribuir com uma sociedade inclusiva. Ciranda Cultural, 2008.

Manreza MLG, Grossmann RM, Valerio RMF. Epilepsia infância adolescência. São Paulo: Lemos, 2003.

Tende, Samantha. Crianças com deficiência intelectual: a aprendizagem e a inclusão / Samantha Tédde. – Americana: Centro Universitário Salesiano de São Paulo, 2012.

Vasconcelos, M. M. Retardo mental. Jornal de pediatria, Porto Alegre, v. 80, n.2, p. S71-S82. Abr. 2004.

Yacubian, E. M. T. Tratamento da epilepsia na infância. Jornal de Pediatria, v.78, n.1, p.S19-S27, 2002.

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