Automutilação: Entendendo o Comportamento Autolesivo

Automutilação: Entendendo o Comportamento Autolesivo

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O comportamento autolesivo é um fenômeno pouco estudado no Brasil, por isso, existe pouco material científico brasileiro sobre conduta autolesiva. A autolesão é mais frequentemente observada em adolescentes, principalmente, do sexo feminino. A prevalência na população geral é cerca de 0,05% a 0,4% e estimavas sugerem que pelo menos 10% dos adolescentes apresenta comportamento autolesivo ao menos uma vez na vida; sendo que em populações clínicas de adolescentes, a taxa de prevalência pode atingir 82%.

O ato de provocar ferimentos em si mesmo já foi denominado de para-suicídio, automutilação e, atualmente, autolesão. Porém, existem diferenças entre essas denominações:

  • Para-suicídio é considerado como uma imitação da tentativa de suicídio, ou seja, não existe a intenção real de consumar o ato e o indivíduo simularia essa tentativa como forma de chamar a atenção de outros.
  • Automutilação é um termo que sugere um ferimento mais grave e violento que implica na desfiguração do indivíduo.
  • Autolesão é um termo utilizado para o ato de se machucar intencionalmente de forma superficial ou moderada e não se trata de uma simulação de suicídio ou de uma mutilação desfigurante.

Existem na literatura várias definições para a autolesão. Sendo assim, pode-se descrever o comportamento autolesivo como o ato de se machucar sem intenção suicida ou perversão sexual, provocando danos físicos leves ou moderados. São exemplos de autolesão aqueles comportamentos que provoquem o aparecimento de um ferimento, tais como: cortar-se, queimar-se, bater-se, morder-se, beliscar-se, impedir que ferimentos se cicatrizem, derramar líquidos corrosivos na pele.

Comportamentos autolesivos ou SIB (do inglês self-injurious behaviors) podem se apresentar de forma crônica, além de apresentarem padrões rítmicos e/ou repetitivos que possuem variação de intensidade, grau da lesão e rompimento com o ambiente social.

As lesões causadas por estes comportamentos são denominadas dermatites factícias e podem ter quatro origens diferentes:

  • Lesão provocada por movimentos mecânicos: apertar, esfregar, cortar, picar, tocar e morder;
  • Lesão por dano tóxico: aplicação de ácido ou produzir queimaduras em si mesmo;
  • Lesões provocadas por infecções: são causadas por comportamentos que dificultam a cicatrização, causando inflamações;
  • Lesões provocadas por uso de medicações desnecessárias: injeções de heparina e insulina, por exemplo.

O SIB é um comportamento complexo e possui diversas motivações, existindo na literatura científica fatores biológicos, psicológicos e sociais. Neurologicamente falando, existem componentes das funções executivas que estão estritamente relacionados ao SIB:

  • Estratégias de enfrentamento do estresse;
  • Resolução de problemas;
  • Tomada de decisões;
  • Controle de impulsos.

Estas funções executivas são responsáveis pelas habilidades do indivíduo em planejar e direcionar o seu comportamento, além de monitorar e avaliar a eficácia deles e modificá-los sempre que necessário.

O comportamento autolesivo pode ser dividido em:

  • Estereotipado: associado à deficiência mental, autismo e algumas síndromes.
  • Estereotipado maior: são inclusas formas graves de ferimento que causam danos irreversíveis, associado a quadros psicóticos graves e transtorno de personalidade severo.
  • Compulsivo: ocorrem movimentos repetitivos, podendo aparecer várias vezes no mesmo dia.
  • Impulsivo: é o mais observado e envolve comportamentos impulsivos, tais como cortar-se, queimar-se e bater-se.

Existem comportamentos autolesivos que são socialmente aceitáveis ou até mesmo legitimados. É o caso de rituais de sacrifício em certas tribos (passagem da adolescência para a vida adulta) ou o uso de brincos, piercings e tatuagens. Entretanto, existem condutas em que esse comportamento pode ser considerado patológico.

Dentre os comportamentos autolesivos considerados patológicos, podemos encontrar:

  • Skin Picking: são autolesões que produzem escoriações, crostas, erosões e cicatrizes na pele. É caracterizada pela ausência de controle de impulso sobre o comportamento de escoriação. As lesões são mais comuns nas pernas e braços e seu objetivo é produzir sensação de alívio.
  • Escoriação da acne: é considerada como um tipo específico de skin picking e ocorre no rosto. Os comportamentos envolvidos são cutucar, espremer ou arranhar a acne utilizando a unha, causando ulcerações, escoriações e erosões na pele.
  • Tricotilomania: são comportamentos repetitivos em que se arrancam cabelos ou pelos com o objetivo de reduzir a tensão.
  • Onicofagia: inclui os comportamentos de roer e mastigar unhas e/ou cutículas. Pode ocorrer frequentemente com comportamentos de chupar os dedos.

O comportamento autolesivo é entendido como sintoma em diversos transtornos psiquiátricos. Entre esses transtornos, pode-se destacar:

  • Transtorno de Escoriação: é um transtorno específico ao SIB, também chamado de skin picking, que produz lesões na pele e que clinicamente causa sofrimento e prejuízos significativos na vida social e/ou profissional do indivíduo.
  • Transtorno de Personalidade Bordeline: o comportamento autolesivo faz parte dos critérios diagnósticos para esse transtorno. Aqui, o SIB pode ocorrer durante experiências dissociativas e está ligado à sensação de alívio pela reafirmação da capacidade de sentir, pela expiação de sentimentos de culpa e para evitar o abandono. Geralmente, os ferimentos são superficiais.

A ocorrência do SIB está associada com vivências de fortes emoções (p. ex., a raiva) e são vistos como uma maneira de lidar com elas. Sendo assim, os comportamentos autolesivos podem ser desencadeados após uma vivência traumática ou com sua recordação.

Entre os fatores de risco para o SIB, encontra-se:

  • Abuso emocional, físico ou sexual;
  • Conflitos familiares;
  • Conhecimento de algum familiar ou amigo que pratica a autolesão;
  • Viver com apenas um dos pais;
  • Ser vítima de bullying;
  • Abuso de álcool, tabaco e outras substâncias psicoativas;
  • Sintomas depressivos e ansiosos;
  • Impulsividade e baixa autoestima;
  • Ideação e/ou tentativa prévia de suicídio.

Referências

ARAUJO, Juliana Falcão Barbosa de et al . O corpo na dor: automutilação, masoquismo e pulsão. Estilos clin.,  São Paulo ,  v. 21, n. 2, p. 497-515, ago.  2016 . 

ARCOVERDE, Renata Lopes; SOARES, Lara Sá Leitão de Castro. Funções neuropsicológicas associadas a condutas autolesivas: revisão integrativa de literatura. Psicol. Reflex. Crit.,  Porto Alegre,  v. 25, n. 2, p. 293-300, 2012. 

BERNARDES, Suela Maiara. Tornar-se (in)visível: um estudo na Rede de Atenção Psicossocial de adolescentes que se automutilam. Dissertação [mestrado]. Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Ciências da Saúde. 2015.

CEPPI, Bruno; BENVENUTI, Marcelo. Análise funcional do comportamento autolesivo. Rev. psiquiatr. clín.,  São Paulo,  v. 38, n. 6, p. 247-253, 2011. 

JORGE, Joana Calejo; QUEIROS, Otília; SARAIVA, Joana. Descodificação dos comportamentos autolesivos sem intenção suicida: Estudo qualitativo das funções e significados na adolescência. Aná. Psicológica,  Lisboa,  v. 33, n. 2, p. 207-219,  jun.  2015.  

RICHARTZ, Marisa. Comportamentos autolesivos da pele e seus anexos: definição, avaliação comportamental e intervenção. Dissertação Mestrado. Universidade Estadual de Londrina, Centro de Ciências Biológicas, Programa de Pós-Graduação em Análise do Comportamento, 2013.

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