Divertida Mente: Psicologia e o Seu Estudo Sobre as Emoções

Divertida Mente: Psicologia e o Seu Estudo Sobre as Emoções

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Divertida Mente definitivamente não é apenas uma animação para crianças. É um prato cheio para a Psicologia e a sua mania (encantadoramente divertida) de analisar tudo. Que tal aprofundar-se nas emoções com um panorama do que acontecia dentro da cabeça de Riley?!

Existem várias definições na literatura científica para explicar o que é emoção, assim como também existem diversas teorias para explicá-las. A definição mais utilizada atualmente parte do pressuposto de que as emoções envolvem múltiplas variáveis. Sendo assim, pode-se defini-la como uma condição complexa e momentânea que surge com a ocorrência de experiências afetivas e provocam alterações psicológicas e fisiológicas.

Pode-se enxergar as emoções como um pacote organizado de respostas de vários subsistemas do organismo:

  • Cognitivo – emoções alteram o foco da atenção para aspectos importantes, além de ativar lembranças relevantes da memória de longo prazo.
  • Fisiológico – preparam o organismo para uma resposta efetiva e condizente com a situação apresentada pelo ambiente (expressões faciais, tom de voz, alterações musculares, etc).
  • Comportamental – produzem comportamentos expressivos que veiculam informação para as outras pessoas.

Três aspectos importantes caracterizam as emoções. O primeiro é a sua funcionalidade e adaptação, sendo reações evolutivas no cérebro para enfrentar situações-problema. O segundo está ligado às reações condizentes com o enfrentamento da situação disparadas pelas emoções. E o terceiro é o processamento da emoção, que ocorre em estruturas primitivas do cérebro de forma automática e inconsciente, percebendo mudanças ambientais sensíveis e disparando o pacote de reações emocionais.

Entende-se também que quanto à apreensão dos fatores ambientais externos ao indivíduo, as emoções estão diretamente relacionadas com o estabelecimento de funções psíquicas superiores e se manifesta nos processos de formação e manifestação da memória, do pensamento abstrato e da imaginação.

As primeiras informações a respeito das emoções numa perspectiva evolucionista vieram das teorias de Darwin. Ele descreveu as reações emocionais considerando suas origens evolucionárias em relação com sua utilidade biológica, descrevendo as topografias e as reações fisiológicas que elas expressam. Foram propostas seis emoções básicas: medo, raiva, nojo, tristeza, alegria e surpresa. As mesmas são consideradas inatas e cada uma se expressa de maneira diferente.

Darwin considerava a expressão das emoções básicas como uma poderosa forma de comunicação não verbal, já que elas são identificadas em qualquer pessoa e qualquer cultura, pois suas manifestações físicas e faciais são semelhantes. Portanto, quando se diz que a emoção é básica não se está dizendo de um fenômeno único e isolado, com características exatamente iguais. Refere-se sim a grupos que dividem afetos, cognições e comportamentos semelhantes.

Em Divertida Mente somos apresentados ‘basicamente’ a cinco personagens bem caracterizados e distintos: alegria, tristeza, nojinho, medo e raiva.

Os pulinhos de alegria que a Alegria dava e o seu sorriso sempre constante eram o suficientes para identificá-la imediatamente. A emoção alegria surge quando ganha-se algo avaliado como sendo de valor. Pode ser desde um objeto até uma situação ou evento que seja valorizado. Em consequência da expressão da alegria observa-se o ganho de recursos e a interação positiva com o que a propiciou.

Ela estava sempre meio “caidinha”, pra baixo e a Tristeza preferia ficar deitada ou quietinha enquanto chorava. Essa emoção aparece quando perde-se algo ou alguém de valor, são diversos os tipos de perda. Reproduz a sensação de abandono e a busca por uma ligação novamente com o mesmo ou com outro objeto. Suas manifestações mais frequentes compreendem choro, afastamento e silêncio.  É considerada como uma das emoções mais duradouras.

mente4Eca! A Nojinho estava sempre com nojo, aversão, repulsão, rejeição ou desgosto de algo ou alguém. A emoção nojo aparece na presença de objetos que são considerados repulsivos e indesejáveis. Sua tendência é querer expulsar ou remover esse objeto (tipo o brócolis, afinal quem coloca brócolis na pizza?!).

mente5O Medo sempre tinha medo de tudo e gostava de fazer listas das coisas que poderiam dar errado. A emoção básica medo é expressada quando ocorre um evento causado pelo ambiente ou por outra pessoa que é entendido como ameaçador. Pode gerar incerteza ou falta de controle ao que pode acontecer e resulta numa resposta de fuga com o objetivo de manter a pessoa em segurança.

mente6O Raiva era meio “esquentadinho” quando fazia as coisas. Quando surge um obstáculo considerado como hostil e interfere no que se está fazendo ou pensando em se fazer aparece a raiva. A tendência é atacar para remover aquele impedimento e mudar a situação atual e, com frequência, é para destruir ou prejudicar o alvo. Quando percebemos que a interferência foi intencional, e não acidental, o nível de raiva pode ficar ainda maior.

Vemos que além de seu papel adaptativo das emoções básicas, outra de suas funções é a social. Conhecer a função delas ajuda a compreender que cada uma visa motivar, organizar e manter classes de comportamentos que contribuem para o desenvolvimento da personalidade. Assim como as ilhas da personalidade de Riley, cada uma proveniente das experiências e emoções de uma determinada ‘categoria’ distinta.  Essa organização se refere à função das emoções na percepção do individuo. Aumenta a seletividade da atenção e ajuda a determinar o conteúdo da memória. Tudo isso para favorecer a adaptação do indivíduo e auxiliar no desenvolvimento de sua personalidade.

Ainda no aspecto social, as emoções fazem parte dos processos sociocognitivos. Isso quer dizer que elas são aprendidas e desenvolvidas para facilitar a inserção do indivíduo na sociedade. Mesmo que sejam compreendidas como experiências ditas subjetivas e individuais, as emoções também fazem parte de um fenômeno que vem da vida social. É importante para a mediação das relações interpessoais, pois faz com que os indivíduos se aproximem ou se afastem de pessoas ou situações, de acordo com os interesses e valores culturais compartilhados.

É também nessa construção das relações sociais que o modo em que se expressa as emoções repercute nas respostas do outro e influência no tipo e na qualidade dessa interação. Quer um exemplo? A cena do jantar após o primeiro dia de Riley na escola. As emoções da mãe tentam resolver a situação-problema fazendo com que o pai também intervenha. E as emoções do pai também abrem mão de várias ‘respostas’ aprendidas anteriormente para resolver a situação-problema. Cada resposta das emoções de Riley interagiam e influenciavam nas emoções e respostas de seus pais.

Estudos sobre emoções em crianças apontam que à medida que as crianças vão crescendo, elas desenvolvem conceitos mais elaborados das emoções, passando a vivenciar emoções mais específicas e considerando melhor as emoções negativas. Da mesma forma, quando o conhecimento das emoções e as experiências pessoais se interligam nota-se a presença de processos metacognitivos. Isso porque quando passam a refletir sobre suas emoções as crianças podem agir melhor sobre elas, o que contribui para o seu desenvolvimento. Quem não se lembra do momento em que a Alegria percebe que precisa deixar a Tristeza tomar conta da situação?

No modelo das emoções básicas, propõe-se que estas se agrupem e formem outras emoções, chamadas de emoções complexas. O que faz ressaltar que a maioria dos estados emocionais que apresentamos são formados, geralmente, por mais de uma emoção. Percebemos esse fato quando instalam a nova mesa de controle e as memórias de Riley passam a ser formadas com a combinação das emoções.

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As emoções também podem ser identificadas como positivas (oriundas de situações agradáveis), negativas (oriundas de situações desagradáveis) ou mistas (situações que provocam o surgimento de emoções positivas e negativas ao mesmo tempo). Assim, podemos entender que o comportamento é direcionado, em parte, pelas respostas positivas e negativas, que podem ser de aproximação, evitação ou luta.

Como as emoções interferem e influenciam no que prestamos atenção, no que aprendemos, no que lembramos e também nos julgamentos e decisões que tomamos, observa-se que as emoções ditas positivas favorecem a atenção aos estímulos internos, facilitando a predominância de pensamentos e disposições internas e a assimilação dos eventos externos a esses conhecimentos preexistentes; enquanto as emoções negativas favorecem a acomodação da atenção aos estímulos externos, pois elas integram um sistema de alarme que indica perigo potencial no ambiente externo que merece ser focalizado. Sabe a lista que o Medo fez das possíveis coisas que poderiam acontecer no primeiro dia de aula?

É interessante ressaltar que quando as emoções negativas não são muito intensas, elas contribuem para que o indivíduo tenha uma visão mais precisa da realidade. A Tristeza, por exemplo, sabia muito bem como voltar para a sala de comandos e as funcionalidades da complexa rede de informações ali existentes (ainda bem que ela leu o manual!).

Referências

BRITTO, Ilma A. Goulart de Souza; ELIAS, Paula Virgínia Oliveira. Análise comportamental das emoções. Psicol. Am. Lat.,  México,  n. 16, jun.  2009.   

DIAS, Maria da Graça Bompastor Borges; SILVA, Janaína Oliveira da; SANTOS, Luciana Barboza dos Santos; ROAZZID, Maíra Monteiro. O que é emoção? Em busca da organização estrutural do conceito de emoção em crianças. Psicologia: Reflexão e Crítica, v. 24, n.1. 2011.

LEITE, Hilusca Alves; SILVA, Renata da; TULESKI, Silvana Calvo. A emoção como função superior. Interfaces da Educação, Paranaíba, v. 3, n. 7. 2013.

MIGUEL, Fabiano Koich. Psicologia das emoções: uma proposta integrativa para compreender a expressão emocional. Psico-USF, Bragança Paulista, v. 20, n. 1. 2015.

PRIMI, Ricardo. Inteligência: avanços nos modelos teóricos e nos instrumentos de medida. Aval. psicol.,  Porto Alegre ,  v. 2, n. 1, jun.  2003.

RODRIGUES, Ana Paula Grillo; GONDIM, Sônia Guedes. Expressão e regulação emocional no contexto de trabalho: um estudo com servidores públicos. RAM, Rev. Adm. Mackenzie,  São Paulo,  v. 15, n. 2. 2014.

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