Psicologia do Desenvolvimento – Superando os desafios para uma vida saudável

Psicologia do Desenvolvimento – Superando os desafios para uma vida saudável

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Como o ser humano se desenvolve? Como passamos de um simples bebê indefeso, que possui apenas comportamentos básicos e instintivos como sucção e movimentos de agarrar, e nos tornamos sujeitos com pensamentos complexos, capazes de pensar a respeito do passado, presente e futuro? Como conseguimos nos desenvolver e criar operações matemáticas complexas, prédios e cidades inteiras, ir para a lua (apesar das controvérsias, mas isso é assunto para outro artigo) e criar tecnologia? São essas algumas perguntas que os Psicólogos do Desenvolvimento Humano buscam responder.

Entre os teóricos do Desenvolvimento, Erik Erickson se destaca por sua teoria das Fases dos Desenvolvimento Psicossocial.

Erikson, que tem suas teorias baseadas na Psicanálise Freudiana, realizou estudos que não se limitaram à infância, mas que foram além da puberdade, abarcando a vida adulta, pois acreditava que as experiências, – tanto na fase infantil (seguindo o viés do Dr. Freud) quanto nas outras fases da vida – seriam modeladoras da personalidade do indivíduo.

O objetivo, segundo ele, é o fortalecimento do ego, do eu. 

Conforme cada fase se aproxima, o indivíduo é confrontado com um desafio. Se conseguir superar esse desafio, o ego se fortalece, e a pessoa consegue seguir de forma saudável para a fase seguinte. Porém, se não conseguir superar o desafio, a pessoa segue para a fase seguinte, mas terá que lidar com as consequências do desafio não realizado da fase precedente.

Segundo o autor, as fases do desenvolvimento psicossocial são as seguintes:

Estágio 1: “Confiança Básica versus Desconfiança Básica” (do nascimento até cerca de 1 ano)

Mother Resting Head on Infant's Chest

Fonte: Psicologia D

Nessa fase, que coincide com a fase oral da teoria do Desenvolvimento Psicossexual de Freud (onde a boca é a zona erógena [de prazer] do sujeito), a criança tem seu foco na obtenção de nutrientes através da sucção do leite materno. É nessa fase que a mãe cria uma relação de confiança com sua prole, atendendo às necessidades da criança, e é através dessa confiança inicial que a criança poderá sentir-se segura para futuramente explorar o ambiente.

Entretanto, se esse vínculo não for formado, e as necessidades do bebê não forem atendidas, ele pode sentir-se inseguro diante do novo mundo que se apresenta para ele e poderá apresentar dificuldades futuras em explorá-lo. Portanto, nessa fase, o maior desafio é criar um ambiente seguro, no qual a criança sinta-se acolhida e capaz de demonstrar sinais iniciais de confiança na mãe (e posteriormente nos cuidadores) para poder interagir melhor com o mundo que a cerca.

  • Desafio: criar confiança através dos laços com o cuidador (mãe, pai, avó etc) afim de sentir-se minimamente segura para explorar o novo mundo que a cerca.
  • Virtude social desenvolvida: esperança.

  

Estágio 2: “Autonomia versus Vergonha e Dúvida” (de 1 a 3 anos, aproximadamente)

 


luiz02

 

Fonte: Saúde Plena

Nessa fase, a criança passa a compreender que existem algumas regras no mundo, e que ela não pode simplesmente ter todos os seus desejos gratificados. Existe uma contradição entre o que ela deseja (impulsos) e o mundo (as regras sociais apreendidas por meio da cultura em que ela está inserida). Nesse período, a criança aprende a controlar os esfíncteres, e já pode ser ensinada a ir ao banheiro sozinha. Além disso, ela já tem uma noção do eu corporal e do outro, ou seja, distingue que ela é uma pessoa e que existem outras pessoas que são separadas dela. Essa fase coincide com a fase anal de Freud (onde a zona de prazer concentra-se agora no ânus).

É típico nessa fase acontecerem as chamadas birras, pois como a criança havia aprendido na fase anterior que todos os seus desejos e necessidades seriam realizados, ela tem dificuldades em lidar com um mundo que se mostra cheio de regras no qual ela precisa se adaptar para viver em sociedade. Nesse sentido, é importante que os cuidadores saibam lidar de forma adequada com a criança, não permitindo que ela faça tudo que quiser (laissez-faire) nem a punindo por ter alguns atos de autonomia.

Se tudo for permitido a ela, poderá ter problemas futuros com regras sociais, e apresentar comportamento transgressor. Se for punida por qualquer comportamento que exiba autonomia poderá tornar-se extremamente tímida e ter dificuldades de desenvolver-se socialmente, além de apresentar sinais de vergonha e raiva. Se for equilibrado, a criança poderá compreender que existem regras, e que ela também é capaz de agir no mundo de forma autônoma e se auto-realizar.

  • Desafio: o equilíbrio entre o pode e o não pode, entre a autonomia e as regras sociais e culturais.
  • Virtude social desenvolvida: desejo.

 

 

Estágio 3: “Iniciativa versus culpa” (dos 3 aos 5 anos)

Beloved Parrot

Fonte: Beloved Parrot

É uma continuação da fase anterior, porém, de forma mais amadurecida. A criança já tem noção do eu e do outro, controla os esfíncteres e sabe que existem regras a serem seguidas. Porém, seu desenvolvimento motor e intelectual depende do quanto é estimulada a explorar o mundo. Ela pode manifestar bastante iniciativa em explorar o ambiente se for estimulada; caso contrário, sentirá culpa ao fazer as coisas pelas quais será punida depois.

Nessa fase, a criança também experimenta diversas vivências através dos papéis que desempenha nos jogos infantis, o que a permite ver as situações de diversas perspectivas. A preocupação da criança é desenvolver-se em todas as suas capacidades  (motoras, intelectuais, linguagem, imaginação e curiosidade), de aprender que seu repertório de comportamentos pode ser positivo e negativo, e que ela pode escolher de que forma que irá se comportar e que tipo de pessoa é ou se tornará (serei uma criança bom ou mal?).

  • Desafio: explorar o mundo e saber equilibrar entre seus desejos e regras sociais. Se bem desenvolvidas, adquire confiabilidade, responsabilidade e autodisciplina.
  • Virtude social desenvolvida: propósito.

 

Estágio 4: “Indústria versus Inferioridade” (6 ao 11 anos)

Terra

 

Fonte: Terra

É o período de idade escolar. A criança consegue perceber que produz, e sente-se competente diante das tarefas que lhe são apresentadas. É nessa fase que os desafios das fases anteriores se tornam mais evidentes: se a criança recebeu estímulos adequados, se adquiriu confiança em explorar o mundo, se não foi punida em excesso (o que geraria culpa exacerbada), se foi estimulada a ter iniciativa e autonomia ela irá sentir-se segura em desempenhar seu novo papel como estudante e se sentirá capaz de explorar ainda mais o mundo, demonstrando suas habilidades motoras,sociais, cognitivas e linguísticas. Porém, se não houve estímulo nas fases anteriores, irá sentir-se inferior, apresentar sentimentos de baixo autoestima e descrença quanto às suas capacidades intelectuais e de realização no mundo.

  • Desafio: integrar-se na escola (social) e demonstrar confiança em suas habilidades em várias competências.
  • Virtude social desenvolvida: competência, habilidade.
  • Vertente negativa: a repetição obsessiva de formalidades que não possuem sentido ou propósito.

 

Estágio 5: “Identidade versus Difusão de papéis” (dos 11 ao final da adolescência)

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Fonte: Virar a Cabeça

O grande desafio desta fase é desenvolver um senso próprio de identidade. Quem sou eu? Como eu ajo? Como sou? Como as pessoas me veem? Qual é minha tribo, meu grupo? Essas são algumas das perguntas que são feitas nessa fase. Ela coincide com o período da adolescência, onde as características sexuais começam a se fazerem mais presente (nas meninas: menarca [primeira menstruação], crescimento dos seios, surgimentos dos pelos pubianos; nos meninos: espermarca [primeira ejaculação], aumento do pênis e dos testículos, surgimento dos pelos pubianos e da face).

De acordo com Erikson, uma identidade bem construída é resultado de bons resultados nas fases anteriores. O adolescente pode ter vários começos e recomeços até definir a  sua identidade. Nessa fase, o grupo de amigos torna-se muito importante, os tipos de roupas que irão vestir, as músicas que irão ouvir e os lugares que irão frequentar. A aceitação do grupo é muito importante nessa fase, pois dá um sentido de pertencimento. Se o desafio dessa fase não for superado, o sujeito corre o risco de procurar sua identidade em outras pessoas, como em relacionamentos amorosos, tornando-se excessivamente dependente do outro e da opinião alheia.

 

  • Desafio: estabelecer um senso de identidade
  • Vertente Positiva: Socialização
  • Vertente negativa: O fanatismo

 

Estágio 6: “Identidade versus autoabsorção ou isolamento” (dos 21 aos 40 anos)

portal vital

 

Fonte: Portal Vital

Nessa fase, o sujeito procurar estabelecer relações de intimidade com o outro, de ligar-se ao outro (socialização,amizade e sexualidade).

Se bem resolvida, o sujeito consegue desenvolver habilidades de autonomia e de troca nas relações sociais. Porém, se não superar o desafio que esse momento impõe, pode isolar-se (chegando a casos extremos de fobia social) e não ser bem sucedido em estabelecer vínculos com os outros nem conseguir expressar sua intimidade.

 

  • Desafio: desenvolver vínculo social (amizade, sexual, amoroso).
  • Virtude social desenvolvida: amor

 

Estágio 7: “Geratividade versus estagnação” (dos 40 aos 65 anos)

Soliloquios Psicanaliticos

 

Fonte: Solilóquios Psicanalíticos

A maior preocupação nessa fase é orientar as gerações que virão. Não necessariamente os filhos (pois alguns escolheram ou não puderam tê-los), mas caracteriza-se por um momento no qual o foco está em orientar os mais novos, os que o sucederão. Pode ser uma fase de bastante trabalho, de construção e atividade no mundo; de investir na sociedade em que se vive.

Se esse desafio não for superado, o sujeito pode ficar estagnado, com poucos ou nenhum contato social, e pouca atividade no mundo. Pode tornar-se apático e sem criatividade, e também preocupar-se apenas consigo mesmo.

 

  • Desafio: orientar aos outros
  • Virtude social desenvolvida: cuidado do outro.

 

Estágio 8: “Integridade versus desespero” (terceira idade)

Group of older people showing thumbs up

 

Fonte: Psicologia D

Este é o último estágio. Uma característica comum dele é o conflito entre a integridade e o desespero. O sujeito costuma refletir a respeito da sua vida, se teve uma vida produtiva ou não. Se concluir que sim, o idoso experimentará um senso de satisfação e integridade, o que o possibilitará a encarar a experiência de morte de forma mais serena. Porém, se concluir que sua vida não foi bem vivida, se não teve uma vida produtiva, poderá experimentar sentimentos de menos valia e desgosto. A preocupação com as gerações vindouras, que também é característica da fase anterior, permanece.

  • Desafio: reflexão sobre ter vivido ou não uma vida plena.
  • Virtude social desenvolvida: sabedoria.

Para Erikson, cada fase do desenvolvimento psicossocial do sujeito é importante (assim como para Freud era cada fase do desenvolvimento psicossexual).

Através de uma análise das 8 fases propostas por Erikson, podemos compreender as diferenças atuais entre as pessoas (e também olharmos para nós mesmos). Ele também nos leva a refletir sobre a nossa história de vida e em como podemos lidar com nossos atuais conflitos e quais seriam suas prováveis causas sócio-históricas, ou seja, a história individual de cada um de nós.

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Fonte: Grupo A

Longe de ser um autor determinista/inatista, Erikson nos convida a refletir e nos perguntarmos: o que posso fazer, apesar de minha história talvez não tão bem sucedida em cada fase de desenvolvimento, para viver melhor agora comigo mesmo e com os outros?

 

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA:

DESENVOLVIMENTO HUMANO Diane E. Papalia Sally Wendkos Olds • Ruth Duskin Feldman colaboração Dana Gross 8 a Edição

Harold Kaplan Benjamin Sadock e Jack A. Grebb1997, Psicologia.

Noack, J. (2007): Reflexões sobre o acesso empírico da teoria de Erik H. Erikson. Interação em Psicologia, n. 11, v. 1

O Livro da Psicologia  Benson, NigelCollin, CatherineGinsburg, JoannahGrand, VoulaLazyan, MerrinWeeks, Marcus, Globo Livros.

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