É só um Lance de Sábado a Noite? – Conversando Sobre Drogas

É só um Lance de Sábado a Noite? – Conversando Sobre Drogas

932
Compartilhe

Todos nós passamos por um processo em nosso desenvolvimento e acredito que a adolescência seja o mais conflituoso, pois é o momento que ocorre transformações biológicas e principalmente psicológicas. O adolescente costuma aprimorar sua capacidade de tomar decisões, tendo como objetivo a busca da sua própria identidade, não tendo com base apenas  orientações e exemplos dos pais, mas também, as relações que são construídas com o grupo social que está ou deseja estar inserido.

Caracteriza-se a adolescência como sendo um período de transição, havendo inúmeras e grandes crises, baseadas em sentimentos de medo e insegurança. É a fase de abandonar o papel de uma pessoa “alheia” ao Mundo, para uma pessoa responsável pelo seu próprio Mundo, tendo um novo conceito e foco: de serem reconhecidos pelo o que são e não mais como filhos de alguém.

Na Psicologia atribui-se a esta etapa, como sendo um período de luto, pois o individuo tende a se desprender da sua forma infantil de como existia, para se tornar o que é adequadamente esperado. É um processo de lenta e dolorosa elaboração, pois envolve o luto pelo corpo infantil, identidade infantil e pela relação com os pais da infância.

Por vezes, o adolescente sente-se  incompreendido pela família, pela sociedade e por seus pares, enxergando o Mundo externo como cruel. O jovem projeta nos Outros a sua confusão interna diante desta fase de transição, através dos seus sentimentos de incapacidade de como lidar e agir, ou seja, é o próprio adolescente que não compreende a si mesmo e o que está acontecendo com a sua própria vida, porém atribui tal responsabilidade para as outras pessoas. 

O motivo, pelo qual, os adolescentes começam a consumir drogas?

Diante de tantos conflitos, incompreensão, curiosidades e questionamentos, o consumo de drogas surge na adolescência, pelos jovens não saberem lidar com suas emoções e como expressá-las, a partir disso, a dependência química pode vir a se tornar a  “válvura de escape” desses indivíduos.  As drogas trazem a sensação errônea e falsa de realização pessoal, então durante seu consumo o foco acaba não sendo as fragilidades e angústias, mas sim a sensação de força e auto-suficiência, “solucionando-se” os problemas, além de facilitarem o estabelecimento de relações, aceitação e formação de laços sociais.

São inúmeras as drogas existentes no Brasil e em todo o mundo. São classificadas de acordo como funcionam e a reação que exercem sobre o sistema nervoso central (SNC) do nosso cérebro e são chamadas de: Lícitas (são as legalizadas, ou seja, são comercializadas e aceitas pela sociedade. Os exemplos desse tipo de drogas é o álcool e o cigarro, porém,  há aquelas de origem farmacológica, como os ansiolíticos, os para induzir o sono, os descongestionantes nasais, os utilizados para reduzir o apetite e controlar o peso e os anabolizantes) e  Ilícitas (sendo aquelas que não são legalizadas, ou seja, seu consumo são proibidos).

fatonovo.com.br

Dentre as drogas ilícitas há vários tipos, no qual, são classificadas como:

  • Estimulantes: Os estímulos nervosos ficam mais rápidos, ou seja, aumentam a atividade cerebral, tendo ação imediata em duas regiões especificas do nosso cérebro, como: sensorial e motora. Exemplos: anfetamina, a cocaína, crack e seus derivados.
  • Depressivas: Os estímulos nervosos ficam mais lentos, o que diminui a atividade da função cerebral. Exemplos: álcool, tranquilizantes e alguns tipos de medicamentos de alta competência para dor, dentre eles: a morfina.
  • Perturbadoras: Não alteram a velocidade dos estímulos cerebrais, mas causam perturbações na mente do indivíduo, muitas vezes com efeito alucinógeno. Exemplos: maconha, haxixe , os solventes orgânicos (como a cola de sapateiro) e o ácido lisérgico (LCD).
  • Mistas: São drogas que apresentam em conjunto, duas ou mais reações descritas acima. Exemplo: a mais comum desse grupo é o metileno dioxi-metanfetamina (MDMA), ecstasy, ou seja, a sensação é ao mesmo tempo estimulante, como também alucinógena.

Estudo realizado em 1997 pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas em Atenção ao Uso de Drogas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, avaliou 3.139 estudantes da quinta série do primeiro grau à terceira série do segundo grau de escolas públicas, possibilitando comparar as taxas de uso experimental ao longo da vida com as de uso habitual (últimos 30 dias). O estudo encontrou um consumo ao longo da vida e nos últimos 30 dias, respectivamente, de 77,7% e 19,5% para álcool; 34,9% e 4,6% para tabaco; 9,2% e 2,8% para inalantes; 7,1% e 1,6% para tranquilizantes; 6,3% e 2,0% para maconha; e 1,9% e 0,6% para cocaína.

Quais são os efeitos aparentes de um jovem viciado?

vivimetaliun.wordpress.com

É bastante comum os pais só perceberem o consumo de drogas feitas pelos seus filhos, quando o mesmo já se encontra viciado, porém é válido lembrar de que há formas de se tratar tal conduta. As características apresentadas são:

  • Desinteresse pelo ambiente escolar;
  • Piora em seu desempenho escolar;
  • Comportamentos ansiosos e/ou depressivos;
  • Alterações constantes e inadequadas de humor;
  • Baixa autoestima, frente a diversas situações;
  • Apatia;
  • Agressividade e dificuldade de aceitar ser contrariado.
  • Dificuldade de relacionamento em mais de um ambiente, principalmente o familiar.

Como prevenir?

Do ponto de vista psicológico, a prevenção do uso de drogas durante a adolescência ocorre através da relação existente dentro do âmbito familiar desse indivíduo, pois um dos principais motivos de jovens do mundo inteiro recorrerem as drogas, é o fato de se sentirem sozinhos ou perdidos, sem uma assistência afetiva adequada e/ou suporte, direcionamento e informação dada atenciosamente pelas suas figuras significativas. O fato não é generalizar e atribuir a responsabilidade do vício e consumo dos filhos para os pais e familiares, mas é alertá-los do grau da importância que se tem em estabelecer uma relação saudável com jovens.

O adolescente só se tornará um indivíduo maduro emocionalmente e consciente, se o mesmo possuir alguém a quem se espelhar, pois temos a tendência a repetir aquilo que nos é exposto. Se o jovem é ensinado a não ter um bom diálogo, não ser estimulado a lidar com seus sentimentos e emoções, além de não possuir regras, limites, bom senso e relações saudáveis e afetuosas, terá grandes chances de não desenvolver estratégias internas saudáveis para lidar futuramente com  sua vida. 

Como lidar e ajudar?

Somos hoje exemplo para os nossos adultos de amanhã, então se querem seres humanos e principalmente filhos honestos, sejam também, ou seja, o melhor caminho a se percorrer diante de um adolescente usuário de drogas é de acolhê-lo. Ao se ter uma conversa, ela precisa ser franca, sejam firmes, porém não raivosos, projetando neles suas expectativas e seus sentimentos, use suas emoções a favor de vocês, sejam sinceros, expressem preocupações e mágoa, se for o caso, pois transmitindo seus sentimentos, a chance do adolescente expressar os deles é muito maior.

thb1

É preciso fazer com que o adolescente, em uma fase de tanta variância e confusão, saiba que é bom em alguma coisa, pois dessa forma, ele saberá representar sua identidade e sua função diante da vida.

Convide-os a refletir, pois humilhação e qualquer tipo de julgamento, pode ferir ainda mais  a autoestima de qualquer pessoa. Mantenham a calma e se for o caso diga:

“você quer pensar nisso que eu te falei e conversar mais tarde? Depois a gente conversa de novo sobre isso, pois eu gostaria muito de saber sua opinião”. Dando-lhe a oportunidade de haver uma reflexão sobre suas atitudes, escolhas feitas, além de todas as consequências.

Como tratar?

Alguns dependentes químicos conseguem se recuperar sozinhos, mas não são todos. Lembrem-se de que são indivíduos que estão com algum tipo de sofrimento e que não conseguiram lidar com ele sozinhos, ou seja, são pessoas pedindo por ajuda, mas de forma velada.

Diante disso, na maior parte dos casos, o individuo necessita de algum tipo de tratamento com acompanhamento de pessoas especializadas no assunto, ou até mesmo necessitando de um tratamento de internação, porém somente profissionais capacitados podem avaliar a verdadeira necessidade e qual o melhor tipo de tratamento a ser desenvolvido para cada pessoa.

As formas de tratar-se uma dependência química mais eficazes são:

1 – Acompanhamento Psiquiátrico;

2 – Acompanhamento Psicológico;

3 – Comunidades Terapêuticas;

4 – Grupos de auto-ajuda.

Há quem diga que ocorre a cura pela fala, mas lembrem-se, para a fala ter seu sentido completo, é necessário que ela seja escutada. O ato de escutar e falar cura, o que tanto dói, machuca, incomoda, chateia (…). É a válvula de escape que o mundo necessita.

REFERÊNCIAS:

DE MICHELI, D. Uso de Drogas por adolescentes: Adaptação e Validação de um Instrumento de Triagem (DUSI) e Estudo das Razões do Uso Inicial. 2000. Tese (Doutorado em Ciências) – Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, 2000.

Drogas na adolescência: temores e reações dos pais. Acessado em 20 de julho de 2015 <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-36872006000100004>

Marquesa, A.C.R; Cruz, S.M. O adolescente e o uso de drogas. Universidade deDependência de Drogas do Departamento de Psicobiologia da Universidade Federal de São Paulo (UDED/Unifesp). Núcleo de Estudos e Pesquisas em Atenção ao Uso de Drogas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (NEPAD/UERJ). Acessado em: 20 de julho de 2015. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1516-44462000000600009&script=sci_arttext>

Meira, O. Drogas na adolescência. Acessado em 20 de julho de 2015. Disponível em: <http://drodamirpsicologiaclinica.site.med.br/index.asp?PageName=drogas-na-adolescencia>

Views All Time
Views All Time
813
Views Today
Views Today
4

Comentários

comments

Compartilhe
AnteriorVida de um Estudante de Psicologia
PróximoComo Encontrar o Amor Ideal
Psicóloga formada pela Universidade Metodista de São Paulo. Se especializando em Neuropiscologia pelo Centro de Neurologia da Faculdade de Medicina da USP e há quase 3 anos trabalha no enfoque clínico na região do ABC Paulista. Admiradora, apaixonada e grata pela Psicologia, tendo como um de seus maiores objetivos, propagar informação e conhecimento em torno dessa profissão tão encantadora