Sr. Valentão, O Que Eu Fiz Para Você? – Compreendendo o Bullying

Sr. Valentão, O Que Eu Fiz Para Você? – Compreendendo o Bullying

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A palavra bullying tornou-se alvo de muitos mitos e preconceitos. Há quem diga que é brincadeira de criança, frescura de psicólogo ou apenas que foi inventado um nome bonitinho e bobo para algo que já existe há muito tempo. O que se pode perceber é que esses preconceitos são concebidos a partir do desconhecimento do que realmente é o processo de bullying.

O termo bullying é utilizado universalmente pela dificuldade de tradução da palavra para diversos idiomas. No Brasil, o termo bullying é expressado por diversas palavras, tais como, zoar, humilhar, ameaçar, excluir, difamar, discriminar, oprimir, vitimizar, agredir.

Bullying é um fenômeno em que ocorrem ações agressivas e gratuitas contra uma mesma vítima, num período de tempo prolongado e marcadas pelo desequilíbrio de poder, diferindo de outras formas de agressões por ser um comportamento repetitivo, deliberado e intencional.

Muitas vezes, no cotidiano, o conceito e o entendimento desse fenômeno são utilizados genérica e erroneamente para designar diversas situações que de fato não se caracterizam como bullying. É preciso compreender que o bullying não é uma brincadeira e que também não é uma situação natural.

Fonte: doutissima

Um ponto que também é preciso destacar é que estudantes nem sempre possuem a percepção dos atos de violência na prática do bullying. É por este motivo que, geralmente, crianças e adolescentes não conseguem diferenciar os limites entre brincadeiras, agressões verbais e maus tratos violentos.

Geralmente, costuma-se associar a ocorrência do bullying apenas no ambiente escolar. Contudo, essa forma de violência também pode ser observada em ambientes de trabalho, ambiente familiar, forças armadas, prisões, condomínios, clubes e asilos.

O bullying também pode ocorrer no contexto virtual, sendo denominado como cyberbullying. Caracteriza-se pelo uso das tecnologias de informação e comunicação para agredir um indivíduo ou grupo. Esse fenômeno também apresenta desequilíbrio de poder, pois as vítimas geralmente apresentam dificuldade para se defender e/ou identificar o(s) agressor(es).

Um dos agravantes do cyberbullying é o acesso e divulgação da informação. Quando os atos agressivos são registrados e compartilhados qualquer pessoa pode ter acesso às humilhações sofridas pela vítima, sendo expostas a audiência infinita e também acabam coexistindo atemporalmente.

É importante ressaltar que o bullying é um tipo de violência que ocorre nas relações entre pares, ou seja, entre pessoas com o mesmo status social. Por exemplo, o bullying pode ocorrer nas relações aluno-aluno e professor-professor. Violências que surgem nas relações entre aluno-professor professor-aluno, por exemplo, não se enquadram no bullying.

[https://www.youtube.com/watch?v=SPJ61h66boE]

O bullying pode ser identificado em dois grandes tipos:

  • Direto: caracterizado pela presença de agressões físicas, roubos, ameaças, ofensas verbais, extorsão;
  • Indireto: caracterizado pela ocorrência de exclusão sistemática, indiferença, isolamento e difamação.

Os tipos de agressões no bullying podem ser classificados como:

  • Verbal: deboches, ironias, insultos, apelidos pejorativos;
  • Físico: chutes, empurrões, agressões;
  • Relacional: acusações injustas e indiretas, ameaças, roubo de dinheiro e pertences, difamações sutis, degradação de imagem social;
  • Cyberbullying: postagem de comentários ofensivos em redes sociais, uso de perfis falsos para intimidar a vítima, acesso e roubo de dados pessoais, divulgação de fotos/vídeos que causem constrangimento para a vítima.
Fonte: programasabrace

Estudos sugerem que algumas características individuais tornam crianças e adolescentes mais vulneráveis a situações e processos de bullying. Alguns autores defendem a teoria de que o bullying ocorre na escola como uma forma de legitimar preconceitos ao mesmo tempo em que privilegia e fortalece determinados grupos. Sendo assim, aponta-se como vítimas mais propensas ao bullying jovens com características que são culturalmente excluídas socialmente e jovens com características atraentes que são vistos como rivais e ameaças ao grupo dominante.

Os fatores de risco mais importantes para o envolvimento no processo de bullying no papel de agressor são os comportamentos disruptivos, agressivos ou antissociais, a impulsividade, a hiperatividade e a baixa capacidade de empatia.

Existem diversos papeis que as crianças e os adolescentes podem assumir no bullying:

  • Agressor: aquele que pratica o bullying;
  • Vítima: aquele que sofre o bullying;
  • Vítima-agressor: a criança que se envolve ora como vítima, ora como agressora. Ocorre variação de papel conforme o contexto e o momento;
  • Assistente: aquele que toma parte ativa no processo de bullying, mas como seguidor do agressor líder;
  • Reforçador: age de forma a reforçar os comportamentos de bullying e quando há uma vítima, aproxima-se para ver o que está acontecendo, ri da vítima, incita o bullying, etc;
  • Defensor: fica ao lado da vítima para apoiá-la e aconselhá-la, agindo ativamente para fazer os outros pararem o bullying;
  • Testemunhas: observam a situação e não tomam nenhuma atitude para impedir o bullying por medo de se tornarem vítimas.
Fonte: aqueladiversao

A exposição contínua ao bullying pode levar os indivíduos a apresentarem problemas comportamentais e emocionais. Dentre eles, destaca-se aparecimento de quadros de estresse, ansiedade, depressão e suicídio. Pesquisas recentes apontam que estudantes vítimas de bullying podem apresentar baixo rendimento escolar, baixa autoestima, enurese, dores de cabeça/estomago, agressividade, ataques de pânico, depressão, comportamentos autolesivos e suicídio.

Para que ocorra uma intervenção eficaz é necessário inicialmente identificar o fenômeno. Existem alguns indicativos que podem alertar quanto a ocorrência do bullying. É importante e fundamental que profissionais tenham conhecimento claro e bem definido a respeito dos tipos de comportamento que indicam envolvimento em situações que abrangem esse tipo de violência.

No próximo texto, serão abordados os comportamentos indicadores para identificação da vítima e do agressor.

Referências:

ANTUNES, Deborah Christina; ZUIN, Antônio Álvaro Soares. Do bullying ao preconceito: os desafios da barbárie à educação. Psicol. Soc.,  Porto Alegre,  v. 20, n. 1, p. 33-41,  Apr.  2008.

BANDEIRA, Cláudia de Moraes; HUTZ, Claudio Simon. Bullying: prevalência, implicações e diferenças entre os gêneros. Psicol. Esc. Educ.,  Maringá,  v. 16, n. 1, p. 35-44,  June  2012.

FREIRE, Alane Novais; AIRES, Januária Silva. A contribuição da psicologia escolar na prevenção e no enfrentamento do bullying. Revista Semestral da Associação Brasileira de Psicologia Escolar e Educacional, São Paulo, v. 16, n. 1. 2012.

LINDERN, D.; LISBOA, C. S. M. Bullying e terapia cognitivo-comportamental. In Federação Brasileira de Terapias Cognitivas; NEUFELD, C. B; FALCONE, E. M. O.; RANGÉ, B. (orgs). PROCOGNITIVA Programa de Atualização em Terapia Cognitivo-Comportamental: Ciclo 1. Porto Alegre: Artmed Panamericana. (Sistema de Educação Continuada a Distância, v. 4).

MALTA, Deborah Carvalho et al . Bullying in Brazilian schools: results from the National School-based Health Survey (PeNSE), 2009. Ciênc. saúde coletiva,  Rio de Janeiro,  v. 15, supl. 2, p. 3065-3076, Oct.  2010. 

SANTOS, Mariana Michelena; KIENEN, Nádia. Características do bullying na percepção de alunos e professores de uma escola de ensino fundamental. Temas psicol.,  Ribeirão Preto,  v. 22, n. 1, p. 161-178, abr.  2014 .  

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