Complexo de Édipo e as Contribuições Winnicottianas

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Donald Woods Winnicott, exercendo a função de pediatra desenvolveu sua psicanálise, aprimorando-a com base nas relações familiares entre a criança e o ambiente, sendo sucessor à Freud. De acordo com ele, todo ser humano tem um potencial para o desenvolvimento.

Segundo Winnicott, as turbulências internas do conflito edípico só poderão ser elaboradas se houver uma estabilidade do ambiente, no qual, a criança esta inserida, ou seja, se a família é capaz de se manter intacta, o pai, naturalmente, se ocupa de sua posição, o que significa dizer que ele é capaz de intervir na relação da criança com a mãe, afastando-as.

Sabe-se, desde Freud, que o advento do complexo de Édipo suscita na criança sentimentos intensos de amor e ódio com relação aos pais. Portanto, as figuras reais dos pais e seu modo de relacionar-se com a criança são, para Winnicott, fatores decisivos na resolução e elaboração do conflito edípico.

Neste ponto, Winnicott se opõe as outras leituras psicanalíticas, pois o eixo central da sua abordagem é a sua teoria do desenvolvimento emocional, na qual o foco é a descoberta da importância que o ambiente possui no desenvolvimento humano. Entretanto, as teorias opostas à ele compreende o complexo de édipo como uma constituição de uma fase que ocorre precocemente, ou seja, é encarada como uma tarefa exclusivamente intrapsíquica.

Winnicott se opõe a teoria de Melanie Klein, a cerca da relação do indivíduo com os objetos parciais (seio, falo paterno), pois ele afirma que o conflito edipiano só ocorre nas relações interpessoais, mas mantêm a “grosso modo” a visão de Freud, no qual, afirma que essas relações efetivas com os pais reais, sejam perturbadas pelas fantasias edípicas.

Portanto, a visão do Winnicott diante da vivência do conflito edipiano, é que o desenvolvimento emocional é necessário para que haja maturidade, evitando e/ou elaborando, por assim dizer, o desenvolvimento de uma neurose, sendo fundamental para que ocorra a distinção entre fantasia e relações efetivas com os pais reais.

Por sua vez, se o indivíduo for capaz de distinguir suas fantasias edípicas com a realidade, ou seja, se houver um desenvolvimento emocional adequado para que ocorra isto, a vivência do conflito edípico será saudável, por mais que gere angústias e sintomas infantis.

Note-se, portanto, que o decisivo é a capacidade ou incapacidade da criança em conceber a fantasia ou suas ideias edípicas como fantasias e ideias, o que dependerá da relação efetiva da criança com o ambiente (pais reais). Sendo assim, o conflito edipiano não é um problema que diga respeito apenas às relações fantasiadas com os pais, também diz respeito às relações efetivas com os pais reais, com base na qual é possível a referida distinção.

“Quando os pais existem e também uma estrutura doméstica e a continuidade das coisas familiares, a solução vem através da possibilidade de distinguir entre o que chamamos de realidade e fantasia. Ver os pais juntos torna suportável o sonho de sua separação ou da morte de um deles. A cena primária (os pais sexualmente juntos) é a base da estabilidade do indivíduo, por permitir que exista o sonho de tomar o lugar de um dos pais”. (Winnicott, 1988, p. 77)

Segundo o autor, essa distinção é fundamental, pois resulta em um alívio para a criança ao livrá-la de uma situação violentamente angustiante de impotência. Portanto, o complexo de Édipo na teoria Winnicottiana implica que uma criança só poderá se deparar com conflitos edípicos se houver conseguido estabelecer uma relação interpessoal com objetos objetivamente percebidos, isto é, se houver alcançado o estágio de independência relativa, e isso só ocorreria se houver conseguido apropriar-se de seus impulsos instintuais e se, antes de tudo isso, houver atingido o estágio do “eu sou” que, por sua vez, só é possível se a condição de “ser”  tiver sido bem estabelecida nos estágios primitivos do desenvolvimento emocional (com suas três tarefas primitivas).

Para se chegar ao desenvolvimento completo, a criança passa por fases de dependência rumo à independência – até chegar na fase adulta e estabelecer um padrão que seja uma junção desafiadora entre copiar os pais e formar uma identidade pessoal. Dessa forma, para tornar esse potencial como algo real, o ambiente se faz necessário. Inicialmente, esse ambiente é a mãe – ou alguém que exerça a função materna – e apoiada especialmente pelo pai.

No interior de sua teoria geral, Winnicott redescreve o complexo de Édipo como uma fase tardia do processo de amadurecimento1, que se faz presente apenas a partir do momento em que a

criança, mediante a previa sustentação e adaptação do ambiente às suas necessidades específicas

nas fases mais primitivas, tornou-se uma pessoa integrada, capaz de distinguir o “eu” do “não-eu”.

REFERÊNCIAS

Winnicott, D. W. (1958h). A análise da criança no período de latência. In: O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre, Artes Médicas, 1990.

_____________. (1988). Natureza Humana. Rio de Janeiro, Imago, 1990.

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Psicóloga clínica, especialista em Neuropsicologia infantil, pelo CEPSIC – Hospital das Clínicas da FMUSP. Atende na região do Grande ABC em equipe multidisciplinar e consultório Particular, com foco em transtorno do desenvolvimento infantil, principalmente Transtorno do Espectro Autista (TEA) e Transtorno de Humor em adolescentes e adultos. Admiradora, apaixonada e grata pela Psicologia, tendo como um de seus maiores objetivos, propagar informação e conhecimento em torno dessa profissão tão encantadora.