Black Mirror e os Controles de Comportamento

Black Mirror e os Controles de Comportamento

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Vamos arriscar a falar sobre uma série que mexe com o psicológico de qualquer um. Esse impacto com certeza faz com que nós, os curiosos, continue assistindo essa série, provocando desde sentimentos horríveis, como nojo, até sentimentos bons de alivio.

E que série!

Black Mirror é uma série em que cada episódio narra uma história diferente. Durante os episódios, consegue-se provocar sérias preocupações nas nossas vidas, pois, nos mostra todas nossas críticas a respeito da tecnologia e assuntos polêmicos que acabam acontecendo da mesma maneira que tememos. A maior dificuldade para continuar assistindo a série é o medo dessa realidade estar tão próxima, como é mostrada no decorrer dos episódios.

A forma na qual Black Mirror prende nossa atenção é, sem dúvida, devido aos sentimentos que ela nos causa. Não daria para dormir, por exemplo, com a sensação de apreensão e nojo que nos dá o primeiro episódio da primeira temporada. Não tem como ir dormir em paz com a apavorada jornada do primeiro episódio da terceira temporada. Tem sentimento para “dar e vender” ao longo das temporadas da série.

Como podemos explicar isso tudo, sendo que estaríamos falando de um futuro, futuro próximo, mas futuro?

Fonte: The Atlantic

Darei uma pausa do que a série nos causa para que possamos entender o que é tudo isso que a série transmite.

Há muitos anos atrás, quando estava estudando análise do comportamento, começaram a falar de “controle” e “agência controladora”, que acredito ser o que hoje se expande na série. Em todos os momentos dos episódios da série, ela volta ao mesmo ponto de manter o controle e ter o controle.

Skinner entende, ao estudar o comportamento, que uma das ideias humanas é a existência da liberdade, o que para ele é uma teoria muito questionável. Segundo a Análise do Comportamento nosso comportamento está sendo sempre controlado, nós não nos comportamentos aleatoriamente, sempre existirá algo que nos fez fazer algo e uma consequência que nos mantém fazendo, que não é necessariamente uma escolha ou liberdade.

O nosso “rei” Skinner, contribuiu analisando que existem grupos que obtém certo controle maior de nossos comportamentos e ele os nomeia como “agência controladora”. Ele ainda ressalta 4 agentes com maior nível de controle sobre o nosso comportamento, sendo elas: Educação, Governo, Religião e Cultura. Em geral, estes agendes estabelecem controle e autocontrole, através da obediência dos seus controlados. Nós acabamos nos comportando da maneira em que o líder nos orienta, e pautado na consequência que na maioria das vezes são ruins, os respeitamos como bons servos.

De maneira alguma estou estabelecendo o que é certo ou errado, mas sim mostrando uma maneira que podemos analisar essa série.

Fonte: Obvious Mag

Vamos entender então a relação entre a teoria e a série.

Porquê que a série acaba sendo tão impactante?

Nosso agente de controle chamando cultura, determinado por Skinner “como o conjunto de contingências de reforço organizadas e mantidas por um grupo social” (SKINNER, 1999) nos permite pensar que a cultura tem parte nesse impacto. Nós aprendemos culturalmente que é um absurdo tudo que acontece na série. Imagina só você assistindo cada episódio com sua mãe e sua avó, as quais tiveram tanta parte na sua aprendizagem cultural? Seria, certamente, uma grande falta de EDUCAÇÃO.

Os episódios vão mostrando inúmeras maneiras de terem controle sobre os nossos comportamentos, como por exemplo, o agente controlador GOVERNO, que faz com que um homem bem envolvido em política tenha que ter relações sexuais com um animal (estou tentando evitar spoilers). Você consegue achar agentes controladores em todos os episódios, como por exemplo, no episódio em que a mulher se perde em sua essência para obter curtidas em um aplicativo. Me arrisco a dizer que um dos mais novos agentes controladores é a internet. A internet que é sem dúvida a maior crítica da série.

Skinner ao propor os estudos de controle quer fazer com que entendamos de maneira científica o que nos controla. Para ele, nós só vamos conseguir entender o que é liberdade quando pararmos de atribuir a causa dos nossos comportamentos às coisas metafísicas e passarmos a ter ciência de como funciona nosso comportamento e como são os controles sobre eles empregados sobre nós ao identificarmos as variáveis que nos controlam.

Por fim, a série reproduz a todo tempo o controle exacerbado que tememos e que muitas vezes não queremos enxergar que temos. A série nos chama atenção do quão pouco preocupados estamos quando nos exibimos e exibimos aos outros para obter curtidas e status. O que fica para o final é a reflexão: o quanto ainda conseguimos sermos humanos com tanto poder nos controlando?

Referencia:

SKINNER, Burrhus Frederic. Ciência e comportamento humano. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

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Psicólogo, pós-graduando em psicologia comportamental e cognitiva pela Universidade de São Paulo- USP. Especialista em psicologia do esporte pelo CEPPE. Capacitação em Dependência Química pela UNIFESP-SUPERA. Redige trabalhos científicos. Experiência em saúde mental, estagiou em hospital psiquiátrico e no centro de atenção psicossocial CAPS1. Fundador da primeira Liga acadêmica de analise comportamental na Universidade de Mogi das Cruzes em que realizou a primeira jornada de análise do comportamento do alto tiête. Realizou monitoria durante a formação em analise experimental do comportamento. Realizou trabalho com o Taekwondo com crianças com as mais diversas deficiências. Atualmente realiza trabalho na enfermaria psiquiátrica infantil e desde de antes de sua formação atua clinicamente com crianças portadoras do espectro autista. Apaixonado por psicologia e esporte, sempre atento as novidades da ciência. Matérias que mais me atrai é analise do comportamento e cognitivo comportamental, porém, diferente do que todos normalmente fazem, amo estudar e aprender as outras abordagens e vasculhar novas áreas da psicologia. Sempre deixo a psicologia me levar para onde ela quer.