O Beijo do Dementador: Uma Representação da Depressão

O Beijo do Dementador: Uma Representação da Depressão

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“Criaturas espectrais e encapuzadas cuja pele é acinzentada e apodrecida. Por baixo do capuz, existe um ser miserável, sem olhos e com um buraco onde seria a boca. Apesar de cegos, sentem a presença de seres humanos através de suas emoções e quando rastejam pelo chão alteram o clima ao seu redor, tornando tudo mais frio e apodrecendo a matéria orgânica próxima. Entre as suas habilidades mais terríveis uma delas é a de sugar a felicidade das pessoas ao seu redor e fazê-las relembrar de seus traumas mais profundos, fazendo com que a vítima perca momentaneamente a esperança.

Essas criaturas sujas se alimentam de pensamentos e memórias felizes até que a vítima as perca totalmente e lhe reste apenas as piores e mais terríveis memórias e sentimentos já experimentados na vida. Esses seres encapuzados fazem com que a pessoa reviva as suas piores experiências, impedindo-a de encontrar dentro dela algo que a faça feliz novamente. Aqueles que ficam próximos a essas criaturas por muito tempo podem tornar-se insanos e quando a vítima está enfraquecida o suficiente, ele faz seu ato final: retira seu capuz e beija seu oponente, sugando completamente sua alma. Ao final, o que fica no lugar é um corpo vazio, como se fosse uma casca, sem lembranças e memórias.”

Se você é um potterhead, fã de carteirinha de Harry Potter, sabe que a descrição acima é de um dementador. Entretanto, o foco deste texto é outro. O foco principal é falar sobre a depressão. Um paralelo entre a figura sombria dos dementadores com a realidade dolorosa da depressão.

Fala-se em depressão e logo já se pensa numa pessoa triste. Pensa-se na perda de interesse, na falta de energia, no sentimento de culpa e inutilidade e no pensamento de morte.

Você talvez possa estar pensando “mas eu já me senti assim uma vez ou outra e nem por isso tenho depressão”. O que é totalmente correto! É comum de um ser humano que às vezes por uma situação específica ele fique ‘meio deprê’, como se diz popularmente, porém a depressão é uma doença séria que necessita de cuidados. A principal diferença entre se sentir meio deprê às vezes e ter um quadro depressivo consiste na duração e intensidade dos sintomas e nos prejuízos que eles possam causar na vida do indivíduo.

Esclarecendo, a tristeza ou o humor deprimido é uma reação emocional normal para diversas situações de frustração pela qual podemos passar na vida e tende a ‘curar-se’ sozinha (sem intervenções médicas ou psicoterápicas) num período de 6 a 8 semanas, que seria o tempo médio de elaboração e adaptação do fato vivenciado. Além disso, nesse contexto, a pessoa é capaz de identificar o que exatamente a deixou triste.

Contudo, na depressão, a pessoa nem sempre sabe o que a deixou triste. Nesse caso, a intensidade do que é sentido é maior, estende-se por um período de tempo mais longo e prejudica a vida da pessoa, que precisa de um apoio profissional e de um tratamento adequado. A quantidade de sintomas, sua duração, intensidade e gravidade classificam a depressão em três níveis:

1) leve, há sofrimento com a presença dos sintomas, porém é possível realizar a maior parte das atividades cotidianas;

2) moderado, há dificuldade para desempenhar as atividades de rotina; e

3) grave, sintomas marcantes e angustiantes, diversos sintomas somáticos e apresentação de comportamento suicida.

A etiologia da palavra dementador (do inglês dementor) quer dizer tornar insano, atormentar, aquele que aflige grande sofrimento. Enquanto dementadores se alimentam de esperanças, podemos dizer que a depressão se nutre da desesperança. Conforme os apontamentos de Beck, a depressão está aliada a dois elementos-chaves. O primeiro são as distorções cognitivas em que invariavelmente há uma visão generalizada e equivocada das experiências e vivências da pessoa. E o segundo elemento é a chamada tríade cognitiva da depressão que consiste na visão negativa:

1) de si mesmo;

2) do mundo; e

3) do futuro.

Veja bem, se a pessoa deprimida tem uma visão negativa de si mesmo e se sente inferior, inadequada, incapaz e inútil ao mesmo tempo em que percebe o mundo ao seu redor como hostil, cheio de obstáculos instransponíveis e não consegue ou não se sente capaz de mudar seu futuro ela se torna uma pessoa desesperançosa. Com sua visão negativa, a pessoa gera para si um humor depressivo. E esse humor faz com que a pessoa tenha mais percepções negativas distorcidas, que vão criar mais humor depressivo. E os pensamentos vão se tornar cada vez mais negativos e o humor cada vez mais depressivo. É como se fosse uma espiral interminável.

Qualquer pessoa pode apresentar um quadro depressivo. QUALQUER PESSOA! Seja uma criança, um adolescente ou um adulto. A depressão, assim como um dementador, não faz distinção sobre a quem ‘atacar’. Para o diagnóstico da depressão é preciso que os principais sintomas (humor deprimido na maior parte do tempo, perda de interesse e/ou prazer nas atividades cotidianas) estejam presentes praticamente todos os dias, por no mínimo duas semanas, e que apresente sintomas adicionais, tais como: apatia; falta de confiança; visões negativas de si e dos outros; alterações no apetite ou peso, sono e atividade psicomotora; fadiga; sentimentos de desvalia ou culpa; energia reduzida; irritabilidade; dificuldade para pensar, concentrar-se ou tomar decisões; perturbação da memória e dificuldade na aprendizagem; isolamento social; pensamentos recorrentes sobre morte ou ideação suicida, planos ou tentativas de suicídio (ROCHA-ALMEIDA; FARO, 2016).

Mas um alerta! A depressão em crianças e adolescentes pode apresentar características diferentes daquelas apresentadas por um adulto.

Os sintomas depressivos na infância podem incluir: oscilações de humor (tristeza/euforia); comportamentos agressivos; baixo rendimento escolar; alterações no desempenho escolar; auto desvalorização e baixa autoestima; diminuição da socialização; perda de energia; desinteresse, retraimento e isolamento social; queixas somáticas (dores de cabeça, enurese, encoprese, eczema); alterações do sono e apetite; cansaço excessivo; desmotivação; alterações do peso corporal; irritabilidade ou choro fácil; comportamentos agressivos; ansiedade; condutas antissociais e destrutivas; ideias mórbidas sobre a vida.

Com as significativas mudanças hormonais do organismo durante a fase da adolescência, o adolescente acaba apresentando uma grande e rápida variação de humor. Sendo assim, a depressão se torna mais difícil de ser identificada já que a própria condição do organismo do jovem propicia as flutuações de humor e as mudanças expressivas do comportamento. Apesar da depressão nessa fase apresentar-se de forma semelhante à de um adulto, os adolescentes nem sempre estão tristes, mas sim irritados. Outros sintomas relevantes que devem ser observados nessa idade são: perda de energia; apatia; sentimento de culpa; alterações do sono; desinteresse; alterações no apetite e no peso, comportamentos autolesivos e comportamento suicida.

Também existem diferenças clínicas entre meninos e meninas. As meninas podem apresentar: tristeza, sensação de vazio, raiva, ansiedade e preocupação com a aparência. Os meninos por sua vez podem demonstrar: desprezo, comportamento desafiador, problemas de conduta e comportamentos violentos.

Dementadores impedem que prisioneiros saiam de Azkaban e a depressão aprisiona cada vez mais a pessoa na ‘escuridão’. A depressão pode prejudicar a saúde física da pessoa e levá-la à morte prematura – seja através do suicídio ou por acelerar a morte de um organismo com a saúde previamente debilitada – ou piorar consideravelmente a saúde da pessoa quando associada com problemas crônicos (em comparação com outras doenças físicas).

Dementadores não podem ser mortos por qualquer meio físico, podem apenas ser expulsos ou repelidos por um tempo através do feitiço do Patrono (energia positiva provinda de suas lembranças mais felizes). O tratamento da depressão atualmente consiste na psicoterapia com complementação da medicação antidepressiva. Em certos casos, ocorrem alterações nos sistemas de neurotransmissores derivados do modo como a pessoa interage com o ambiente, que no caso da depressão seria o comportamento de deprimir-se. O papel da medicação seria, portanto, restaurar o equilíbrio químico do cérebro, ou seja, seria um complemento da terapia, já que a medicação não atua na relação especifica do paciente com o meio ‘depressivo’. Sabe o chocolate que se come depois do contato com o dementador? Ele apenas te faz se sentir um pouco melhor, mas não faz com que a presença do dementador seja eliminada daquele ambiente.

O papel do psicólogo é auxiliar o paciente a melhorar sua qualidade de vida através de mudanças. O processo, a longo prazo, se importa em melhorar a forma como a pessoa se relaciona com o meio em que vive e proporcionar ao indivíduo a descoberta de que suas próprias ações podem lhe gerar uma vida feliz e saudável.

Você não precisa ser beijado pela depressão todos os dias.

Não podemos nos esquecer de que “a felicidade pode ser encontrada mesmo nas horas mais difíceis, se você se lembrar de acender a luz”. Evitar o beijo do dementador pode ser difícil (talvez se possa até pensar que seja impossível), mas se houver alguém ao seu lado para lhe oferecer um chocolate e tiver um grande psicólogo-professor-bruxo para te ensinar o feitiço do Patrono tudo ficará bem.

Referências

CARDOSO, Karla Behring. Depressão: da fisiopatologia do comportamento à eficácia da associação entre TCC e psicofármacos. [Online]. 2015.

LEGIÃO DOS HERÓIS. 10 coisas que você precisa saber sobre os Dementadores de Harry Potter. [Online]. 2017.

MARQUES, Natielly Nattach Colombo. Depressão em adolescentes e suas consequências – uma revisão bibliográfica. Monografia. Centro Universitário de Brasília: Faculdade de Ciências da Educação e Saúde, Brasília. 2014.

PALOSKI, Luis Henrique; CHRIST, Helena Diefenthaeler. Terapia cognitivo-comportamental para depressão com sintomas psicóticos: uma revisão teórica.Contextos Clínic, v. 7, n. 2, p. 220-228. 2014.

ROCHA-ALMEIDA, Laís Gabriela; FARO, André. Levantamento e principais achados de estudos nacionais sobre a depressão – uma revisão sistemática de literatura. Rev. IPI, v. 2, n. 1. 2016.

SANTANA, Karina Kerly Valente; MARTINS, Maria das Graças Teles. As contribuições da terapia cognitivo-comportamental na depressão infantil. Estação Científica, n. 14. 2015.

TAVARES, Lorine. Abordagem cognitivo-comportamental no atendimento de pacientes com história de depressão e déficit em habilidades sociais. Relatório de estágio. Universidade Federal de Santa Catarina: Centro de Filosofia e Ciências Humanas. 2005.

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