After: Um Amor Patológico e um Relacionamento Disfuncional

After: Um Amor Patológico e um Relacionamento Disfuncional

114
Compartilhe

Se você leu After, com certeza, deve ter um sentimento, uma opinião e/ou uma crítica ao relacionamento amoroso de Hardin e Tessa. Relacionamento esse intenso, disfuncional e repleto de altos e baixos constantes, impulsivos, agressivos, carinhosos e afetuosos.

Eis que a primeira colocação a se fazer sobre After é que o livro retrata um relacionamento tóxico e abusivo, de certa maneira e em alguns momentos, de forma romantizada. A segunda colocação é que o envolvimento de Hardin e Tessa se constitui como um relacionamento abusivo. Sim, tóxico e abusivo!

Acompanhe esse diálogo entre as personagens num trecho do livro After – Depois do Desencontro:

“Então me diz uma coisa: você acha que vai conseguir encontrar outra pessoa que aguente todas as suas chatices? Sua choradeira, suas reclamações, sua necessidade irritante de manter tudo organizado, seu temperamento?’ ele gesticula com as mãos diante do corpo. Eu dou risada. […] ‘Meu temperamento? Você vive me desrespeitando… beira o abuso emocional, é obsessivo, sufocante e grosseiro. Você virou minha vida do avesso e espera que eu agradeça de joelhos porque tem uma ideia completamente distorcida de si mesmo. […] E, aliás, eu posso ser até difícil de lidar às vezes, mas é só porque estou o tempo todo preocupada com você e todo mundo à minha volta, tentando não irritar você, e acabo esquecendo de mim mesma. Então me desculpa se sou irritante ou reclamo com você, que vive me ofendendo sem motivo nenhum!”

À primeira vista pode parecer exagero ou até mesmo uma simples briga de casal, entretanto, considerando toda a estória como um todo é nesse pequeno diálogo que podemos perceber claramente o tal relacionamento abusivo, que na maioria dos casos é dirigido à figura feminina, sendo chamada de violência doméstica, violência contra a mulher ou violência de gênero. Contudo, mais importante que a denominação que se dê, deve-se atentar para o que ela representa.

Esse tipo de violência pode ser qualquer ato de violência que resulte em sofrimentos e danos físicos, sexuais e psicológicos, incluindo ameaças, coerção e privação da liberdade (na vida pública ou privada).

Fonte: Capinaremos

Talvez (e eu espero que você não esteja pensando assim) você possa estar falando ‘mas ela aceita esse tipo de coisa’, ‘se é um relacionamento abusivo, então porque ela continua com ele?’ ou pode até mesmo estar pensando ‘isso é apenas um livro, porque levar esse assunto tão a sério?’. Relacionamentos tóxicos são comuns. Relacionamentos abusivos são comuns. Relacionamentos violentos são comuns. MAS NÃO SÃO NORMAIS! É normal e até mesmo esperado que em um relacionamento a pessoa vivencie diversas experiências, sentimentos e emoções. Só que se esse relacionamento é carregado de angústia, sofrimento, desprazer e infelicidade, e essa relação não pode ser melhorada ou terminada, algo está errado.

Um termo muito falado e pouco estudado é o chamado Amor Patológico. É possível que em algum momento você tenha ouvido ou até mesmo falado nele. Existem certas características que uma pessoa apresenta e, por isso, denominamos aquela situação como Amor Patológico.

Geralmente, uma pessoa que sofre de Amor Patológico tem excesso de cuidado com o parceiro (a), intensa dedicação e tenta controlar o outro. Mas, talvez você se pergunte por que isso seria considerado patológico se esses comportamentos são facilmente identificados e esperados em muitos relacionamentos amorosos que são ditos normais.

O problema surge quando esses comportamentos possuem frequência excessiva e intensa. Além disso, o comportamento repetitivo e sem controle para com o parceiro possui a intenção (nem sempre clara) de receber afeto do outro e evitar sentimentos pessoais negativos e de baixa estima. Cabe ressaltar também que algo quando dito ‘patológico’ refere-se àquilo que traz prejuízos para a vida do indivíduo, sendo que no Amor Patológico ele refere-se a ambos os parceiros, aos familiares e às pessoas próximas.

Em termos de Amor Patológico (AP), ocorre a perda de controle e liberdade de escolha em relação ao parceiro. A pessoa perde o interesse por coisas que antes considerava importantes e passa, então, a dar prioridade apenas para aquilo que o parceiro solicita, mesmo que isso lhe traga sofrimento.

Existem alguns critérios para a identificação do Amor Patológico, que se assemelham aos critérios diagnósticos da dependência de álcool e outras drogas. São eles:

  • Sinais e sintomas de abstinência – quando o parceiro está distante (física ou emocionalmente) ou perante ameaça de abandono, podem ocorrer: insônia, taquicardia, tensão muscular, alternando períodos de letargia e intensa atividade;
  • O ato de cuidar do parceiro ocorre em maior quantidade do que o indivíduo gostaria;
  • Atitudes para reduzir ou controlar o comportamento patológico são malsucedidas;
  • É despendido muito tempo para controlar as atividades do parceiro;
  • Abandono de interesses e atividades antes valorizadas, passando a viver em função dos interesses do parceiro;
  • O Amor Patológico é mantido, apesar dos problemas pessoais e familiares.

Sentimentos amorosos utilizam as mesmas vias neurais que as substâncias psicoativas e cria sintomas similares de dependência. Indivíduos dependentes emocionais tendem a apresentar comportamento submisso, possuem dificuldade em tomar decisões nas relações interpessoais, sentem-se responsáveis por tudo que acontece e costumam se centrar completamente em seu relacionamento amoroso. A dependência de relacionamentos possui comportamentos aditivos e se associa a quatro elementos:

  • Motivacional: necessidade de suporte, orientação e aprovação;
  • Afetivo: ansiedade sentida em situação em que o indivíduo precisa agir de forma independente;
  • Comportamental: procura de ajuda de outros e submissão em relações interpessoais;
  • Cognitivo: a pessoa se percebe como impotente e ineficaz.

Diversos autores apontam que pessoas que sofrem de Amor Patológico, em sua maioria, comumente vivenciaram situações de abandono, negligência ou carência afetiva em suas vidas, principalmente na infância. Vamos entender que a história de vida dos protagonistas moldou seus comportamentos, crenças, regras e modo de agir e pensar. Tessa veio de um lar desestruturado em que seu pai era alcoolista, agredia a esposa e as abandonou quando ela era criança. A mãe de Tessa, por sua vez, após o abandono do marido, torna-se uma pessoa manipuladora, autoritária e que passa a determinar o direcionamento da vida de Tessa e a influenciar diretamente em suas decisões.

Hardin também veio de um lar desestruturado. Seu pai também era alcoolista e costumava direcionar agressões a ele e sua mãe. Em sua infância, viu sua mãe ser violentada em casa e, desde então, passou a não conseguir dormir a noite devido aos pesadelos com este acontecimento (TEPT). Já adulto, sua convivência familiar torna-se conturbada à medida que seu pai tenta se reconciliar com ele e que sua madrasta e o filho desta tentam fazer com que Hardin se aproxime da família. Outras questões familiares vão aparecendo ao longo da estória, contribuindo para que se intensifiquem os conflitos familiares de Hardin com seus pais. Durante sua adolescência e início da idade adulta, Hardin tornou-se usuário de drogas e alcoolista, além de apresentar comportamentos sexuais promíscuos, oscilações de humor, comportamentos agressivos, controladores, impulsivos e violentos.

A literatura científica nos esclarece que crianças que não tiveram nenhum suporte em seu contexto familiar e não receberam cuidados necessários a seu crescimento, atenção, proteção, afeto, amparo, não se sentem seguras e protegidas, podem se tornar adultos inseguros e com medo de serem abandonados.

“Quando vivem relações afetivas mais intimas, essas pessoas se queixam da vida e fazem cobranças de afeto, consideração e respeito, como se as pessoas a sua volta não a valorizassem. As pessoas com baixa autoestima são muito carentes de afeto. Para obter segurança afetiva vai-se fazer necessária a presença do outro na vida delas e, precisar do outro muitas vezes as coloca numa condição de fragilidade. A fragilidade é observada, pois o outro pode não estar disponível quando elas solicitam, o que pode provocar sentimento de humilhação. Ao sentir-se inferior, o indivíduo pode pensar que não têm nada que agrade aos outros e se coloca nos relacionamentos sem direitos” (SILVA e MARINHO, 2003).

Alguns autores explicam que o mais provável é que as pessoas repitam o padrão de relacionamento que tinham na infância e, sendo assim, a pessoa com AP se envolve com pessoas também carentes de afeto, dependentes de alguma substância, que necessite de cuidado e/ou que sejam instáveis emocionalmente. Os comportamentos da pessoa com AP são impulsivos e sem controle, seguidos por sentimentos de culpa e arrependimento.

Fonte: oquequehá?

Tais características estão dentro do chamado Transtorno do Impulso. Nele, o indivíduo não consegue resistir aos impulsos, apresentando reações rápidas e não planejadas, sem avaliar as consequências daquele comportamento. Para se caracterizar como Transtorno do Impulso é necessário a presença de algumas características:

  • A frequência na perda de controle sobre a agressividade;
  • Os momentos agressivos são exagerados comparados ao fato que os gerou;
  • Quando os ataques explosivos não são premeditados;
  • Se após as explosões ocorrem sentimentos de vergonha, culpa, arrependimentos, tristeza, choro, entre outros;
  • Se a família possui outros membros com o mesmo comportamento;
  • Se os episódios de agressividade incluem ataques físicos e destruição de objetos;
  • Quando os ataques de agressividade são repentinos;
  • Quando o comportamento agressivo é acompanhado por sensações físicas de fadiga, forte tensão, formigamento, tremores, palpitações, aperto no peito, tensão nas costas e pressão na cabeça, pensamentos raivosos que os levam a fortes impulsos de agir agressivamente, podendo influenciar de forma negativa na vida do indivíduo gerando perda de emprego, divórcio e queda na vida social.

Os protagonistas tinham uma história de vida permeada pelo abandono, pela dependência química e por relações familiares instáveis e desfavoráveis; e em seu relacionamento viviam uma relação de dependência extrema. Tessa possuía dificuldades em tomar decisões pessoais e profissionais sem levar em consideração o que Hardin queria e ele, por sua vez, possuía dificuldades em controlar seu ciúme, seus comportamentos agressivos e impulsivos. Ao mesmo tempo em que se separavam, diziam não aguentar ficar longe um do outro. E logo em seguida, as situações cotidianas simplesmente evoluíram para brigas constantes, agressões verbais e psicológicas.

É um fato que a dependência emocional é um fator de risco para a violência, assim como também é um fato que homens e mulheres podem ser dependentes emocionais. Essas relações são permeadas pela possessividade, ciúme, impulsividade e medo de ser abandonado. Então, homens podem se tornar violentos e abusadores e mulheres geralmente possuem dificuldades em terminar o relacionamento.

“O indivíduo, portanto, prevendo sofrimento ou fracasso evita determinados contextos. Percebendo-se falho, o indivíduo avalia-se inferior e supervaloriza o outro. E então, passa a se comportar de maneira a obter reconhecimento; porém, mesmo mudando seus comportamentos e obtendo as coisas das quais ache que precisa, o indivíduo sente-se sozinho e incapaz de obter o afeto do outro. Ao não ser valorizado pelo outro, o indivíduo pode emitir comportamentos agressivos. Para a pessoa, é uma forma de defender-se da humilhação (do não querer do outro). Nesse sentido, são confirmadas a sensação de inferioridade e a regra de que “os outros não gostam de mim”. A outra pessoa se afastou em função da agressão e o indivíduo fica pensando que é porque é rejeitado” (SILVA e MARINHO, 2003).

Amor Patológico, Dependência Emocional e Transtorno de Impulso são muitas vezes ignorados por muitos profissionais e são bem frequentes no cotidiano clínico, além de estarem associadas com quadros psicopatológicos, tais como, depressão, transtornos alimentares, transtornos de personalidade e transtornos ansiosos. Eles são comuns em livros, filmes e programas de televisão, mas quando se trata da vida cotidiana são por vezes ignorados completamente. Pode ser apenas um livro, uma estória fictícia. Porém, quantos Hardins ou Tessas você já conheceu? Ou até mesmo você pode ser um Hardin ou uma Tessa. Ao perceber que algo em seus relacionamentos não está adequado, não hesite em procurar ajuda. Além da psicoterapia, existem grupos de apoios e centros de assistência específicos para te ajudar. Procure o mais próximo!

Referências

BUTION, Denise Catricala; WECHSLER, Amanda Muglia. Dependência emocional: uma revisão sistemática da literatura. Est. Interd. Psic., v. 6,n. 1, p. 77-101. 2016.

LACERDA, Larissa; COSTA, Nazaré. Relação entre comportamentos emocionais ciumentos e violência contra a mulher. Rev. bras. ter. comport. cogn., v. 15, n. 3, p. 21-36. 2013.

SILVA, Antônio Isidro da; MARINHO, Geison Isidro. Autoestima e relações afetivas. Universitas Ciên. Saúde, v. 1, n. 2, p. 229-237. 2003.

SOPHIA, Eglacy C; TAVARES, Hermano; ZILBERMAN, Monica L. Amor patológico: um novo transtorno psiquiátrico?. Rev. Bras. Psiquiatr., v. 29, n. 1, p. 55-62. 2007.

TEIXEIRA, Daiane Silva Oliveira; PEREIRA, Nathalia Ribeiro; SILVA, Kelly Cristina Atalaia da. Amor patológico: análise comparativa entre o tratamento pela terapia cognitivo-comportamental e o grupo MADA. Rev.Eletr. Mach. Sob., v. 11, n. 1, p. 23-35. 2015.

Views All Time
Views All Time
237
Views Today
Views Today
1

Comentários

comments