Aconteceu na Semana: “Se nada der certo” – Tem algo realmente muito...

Aconteceu na Semana: “Se nada der certo” – Tem algo realmente muito errado nisso!!

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De uma maneira reflexiva, quero abordar uma notícia que repercutiu muito em todo o Brasil. Recentemente alunos do terceiro ano de um colégio da cidade de Novo Hamburgo no estado do Rio Grande do Sul organizaram um evento temático na hora do recreio, uma pequena festa com o temase nada der certo no vestibular”.

Então eles escolheram fantasias para representar profissões que seriam opção caso não fossem aprovados no vestibular.

Se nada der certo eu serei gari, empregado doméstico, motoboy, ambulante, revendedor de produtos cosméticos, atendente, balconista, etc.

O que está errado nessa frase? Porque trabalhar de motoboy, ambulante, revendedor de produtos, empregado doméstico é considerado uma derrota perante a sociedade?

Faço essas perguntas, pois o que você está pensando condiz exatamente com o resultado dessa festa, e sim, querendo ou não essa temática foi extremamente desnecessária. A escola não viu nada demais, os pais dos adolescentes não viram nada anormal sobre a festa, e os próprios estudantes nem perceberam o efeito negativo que poderia ser proporcionado com o tipo do evento.

Porque me sentirei rebaixado se trabalhar como gari? Ser balconista de supermercado é humilhante? O que está impregnado no nosso ambiente que não estamos vendo? Como que pode existir uma festa dessa? Porque não enxergarmos esse tipo de falha antes de acontecer?

Há uma doença dentro de nós. Ela está em cada um de vocês que estão lendo esse texto. E todos negaremos que ela existe. Mas, ela está aí. Bem na sua mente, enraizada subconscientemente através de uma cultura implacável dentro de uma sociedade capitalista, que tem como tendência gerar mais casos e casos parecidos com o ocorrido na cidade de Novo Hamburgo.

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Uma verdade cruel de uma sociedade desumana, onde não visamos mais o amor…visamos o lucro. Num caminho que empresas não buscam qualidade nos seus empregados…querem quantidade. Onde gritamos contra a corrupção, vamos as ruas…E no dia seguinte roubamos lugar na fila da padaria. Dizemos que o racismo acabou, mas na novela das nove os protagonistas só podem ser brancos. Dormimos pouco, trabalhamos demais. Se ficarmos doentes precisamos ir para hospitais que encontram-se de greve, então quase morremos esperando um atendimento… E se morrermos? Teremos que pagar o caixão. Desacreditados que o Brasil tenha uma solução. Começamos a acreditar em um político só porque não é corrupto, ele fala que não gosta de homossexuais, mas quem se importa? Pelo menos não é corrupto. Como se o fato de não ter roubado fosse motivo para se orgulhar, gente, isso deveria ser a obrigação de todos.

Sentamos nas cadeiras, acessamos redes sociais, começamos a brincar uns com os outros sobre o político, logo em seguida procuraremos os perfis de cada aluno que se vestiu a rigor para a festa “se nada der certo” e semearemos o ódio, agrediremos com frases preconceituosas, homofobicas, racistas, sexistas, xenofobistas, seremos soberanos e donos da razão! Mas…dentro de nossas casas, porque falar olho no olho é difícil? Não nos importaremos no quanto a saúde mental desses jovens serão afetadas. Nem buscaremos compreender porque eles agiram assim. Em nenhum momento passará na nossa cabeça que isso que eles fizeram é N-O-R-M-A-L.

Nessa sociedade? É sim.

E não adianta você me xingar também. Porque essa é a verdade. E se esses garotos não tivessem feito, alguém em outro lugar faria. Porque seus avós passaram essa cultura para os pais, que por sua vez, repassaram esses ideais para seus filhos, que quando eram pequenos, já enxergavam a vulnerabilidade social, mas em nenhum momento seus cuidadores perceberam o quanto era importante ensina-los a importância de lutar na vida. E o quanto digno pode ser também trabalhar como gari. Em nenhum momento foi conversado com eles sobre a demanda existente no mundo, e que determinadas tarefas devem ser feitas, por mais estranhas ou bizarras. Precisam ser feitas, mas isso não quer dizer que aquele empregado sente-se humilhado.

Pelo contrário, ele pode chegar em casa após um expediente intenso, e se sentir orgulhoso por alimentar toda sua família com o salário que recebe. E nesse momento, os responsáveis por esses estudantes, e isso inclui a escola, deveriam pegar um por um e dizer: pobreza não é derrota. Pobre significa desprovido ou mal provido do necessário, em outras palavras, não ter dinheiro não significa que você é infeliz. Que você deve ser humilhado em uma sociedade. Não significa que você é fraco. Não significa que és um lixo, só por estar trabalhando em um local que contém lixo.

NÃO, NÃO, NÃO.

E é por isso que não podemos chegar nas redes sociais de cada estudante que cometeram essa lástima social e condená-los até a morte. Porque eles fazem parte de um sistema que todos nós nascemos, e que seus pais não conseguiram fugir de tal alienação e transmitiram o mesmo veneno que receberam de seus pais. E num círculo sem fim, vai seguir-se assim até algum louco parar e dizer:

PERAÍ, TEM ALGO ERRADO NESSA SOCIEDADE.

Ele vai perceber que o capitalismo fracassou como sociedade. E começará a luta contra esse mal que nos assombra. Então eventos como esse surgem com um propósito: eles são feridas que expostas demais, começam a nos ferir, como se tentassem nos alertar “se vocês não me resolverem, o problema vai piorar”.

Espero, que com a experiência, esses alunos tenham aprendido com a lição e tenham admitido o erro. Quem sabe agora, não se rebelem contra esse sistema falho? Para isso, não podemos julga-los, precisamos sentar do lado deles, perdoar e dizer: “agora vocês possuem a obrigação de se juntarem a nosso pequeno exército que luta contra essa sociedade falha”

E tem gente que vai dizer:

“COMO ASSIM NÃO VAI CULPAR? ÓDIO MORTAL A TODOS ELES! VAMOS INVADIR CADA PERFIL DOS ESTUDANTES E XINGAR ELES ATÉ SE SENTIREM HUMILHADOS O SUFICIENTES PERANTE A DEUS…

E…

PERANTE A NÓS! ”

Para esses, ficarei com minha eterna cara de paisagem, tomando café. Esperando todo esse ódio passar, para enfim poder conversar sobre esse caso. É mais importante entendermos como limpar e estancar o ferimento, do que simplesmente amputar o braço.

Não é com ódio que vamos resolver. A solução não está em pegarmos tochas de fogo e sair atrás desses adolescentes. Se fizermos isso, estaremos dando continuidade a esse sistema falho, vamos estar nos tornando cada vez mais primitivos. Sem perceber, continuaremos um ciclo vicioso que nos leva aos tempos das cavernas em relação a nossa intelectualidade. Daqui alguns dias isso acontecerá em outra escola, e vai passar um mês e acontecerá em outra instituição e assim seguirá num ritmo sem fim.

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“COMO ASSIM VAI ACONTECER NOVAMENTE? ENTÃO, VAMOS NOS PREPARAR PARA ATACARMOS OS PRÓXIMOS QUE FIZEREM ISSO DAQUI ALGUNS DIAS, LOGO ATACAREMOS AQUELES QUE FARÃO DAQUI UM MÊS E ASSIM SEMPRE ATACAREMOS”

Veja, isso está enraizado no sistema. Esse veneno já existe, e podemos ver nas redes sociais. Numa leve busca vemos comentários bizarros que fogem dos padrões moral que deveríamos todos termos. Os primeiros jovens, não compreenderão porque estão sendo julgados dessa maneira. Porque estão sendo odiados dessa maneira, por mais que tenham pedido desculpas já – a escola já prestou uma nota de esclarecimento – e as chances de todo esse transtorno afetar sua saúde física e mental são altas. E aí estaremos mais uma vez vendo somente para o nosso umbigo, e não necessariamente enxergando o problema real de toda a situação.

Entenda que alienação é considerado uma condição psico-sociológica de perda da identidade individual, ou coletiva. E quando falamos de alienação na nossa sociedade capitalista, meu caro amigo, esse problema na escola é apenas a ponta de um iceberg. Empregada doméstica, gari, motoboy e por aí vai. Uma lista de empregos que são considerados insignificantes na sociedade capitalista.

O “câncer” da sociedade não são esses estudantes. Todos nós já estamos envenenados por esses pré-conceitos. Tudo começou quando felicidade mudou seu significado para “ter poder e dinheiro”. E o dinheiro resume a felicidade para muita gente. Isso está no nosso sistema, e quando felicidade muda seu significado para dinheiro…Muitos conceitos são alterados:

Porque, na teoria capitalista, para ter dinheiro é necessário ter escolaridade, um emprego que pague bem com direito a um carro do ano e uma casa de 47 cômodos (exagerei, eu sei). Então, para ser feliz, você necessariamente precisa fazer uma faculdade, ingressar num emprego que pague muito dinheiro, e ganhe muita grana ao ponto de ignorar que estás na profissão errada. E que na verdade só estas ali, porque com esse serviço você pode comprar o mundo.

Então aquele que não estudou, que não recebeu oportunidade, que estudou em escolas precárias onde não teve um ensino qualificado, não conseguirá encontrar um serviço que pague bem. Assim aceitará empregos mais “vulneráveis”…Agora me diga, porque a sociedade não deu mais oportunidades para ele? Olha, se nada der certo como você quer, não significa que outro caminho será necessariamente uma derrota. Não significa que trabalhar como gari será considerado um fracasso, pelo contrário, caro amigo (a), é algo digno, e muito importante. O problema está nesse preconceito enraizado em todos nós, o veneno que carregamos do sistema capitalista é que nos faz acreditar nesse tipo de idealismo. E assim todos buscamos uma vida perfeita em torno do dinheiro.

É nesse momento que pergunto para vocês, quem sabe não seja a hora de todos nós sermos aquele “louco” que citei, e nos rebelarmos contra esse ciclo vicioso que escurece nossa sociedade?

Ainda está confuso? Queres conversar? Prepare o café e entre em contato pelo e-mail pablofsalomao@hotmail.com

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