A importância dos contos de Fadas para as crianças

A importância dos contos de Fadas para as crianças

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“Se desejamos viver, não momentaneamente, senão sendo realmente conscientes de nossa existência, nossa necessidade mais urgente e difícil é encontrar um significado na nossa vida” (Bettleheim, 1976)

É assim que começa Bettleheim, no seu livro: psicanálises dos contos de fadas. Esse sentido de vida que ele menciona, essa compreensão de vida e o rumo que ela vai tomar não é determinada por uma idade, se adquire quando o sujeito consegue um amadurecimento psicológico.

Tal amadurecimento é um processo de desenvolvimento ao longo de nossa vida, que vai se adquirindo no momento em que vamos encontrando significados congruentes a nossas experiências nesse mundo. Por isso é uma tarefa difícil, mas  totalmente importante.

E é através da educação que as crianças podem achar o caminho para encontrar o sentido da vida. Para chegar nesse amadurecimento a criança precisa se compreender, conhecer-se e resolver suas dúvidas e demais conflitos internos, com o fim de desenvolver a capacidade de empatia (compreender os outros) assim como relacionar-se com eles de uma forma saudável.

Para conseguir esse reencontro com o seu interior a criança precisa desenvolver seus recursos internos, para que as emoções, a imaginação e o intelecto se juntem e se aprimorem entre eles. Permitindo assim que a criança desenvolva uma força interior que vai sustenta-lá nas adversidades com as quais inevitavelmente vai enfrentar.

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Fonte: Mais que Nerds

O autor Bettleheim, durante seu processo como terapeuta e educador, chega à conclusão de que os pais ou cuidadores possuem um grande impacto no desenvolvimento infantil, seguidos em segundo lugar, por toda a herança cultural transmitida de uma forma organizada.

Quando as crianças têm pouca idade à literatura é a melhor forma de transmitir essa herança, de modo que seja uma algo que desenvolva a mente e a personalidade, estimulando os recursos necessários para que a criança possa vencer os seus conflitos internos. Normalmente nas escolas a literatura que é usada está desenhada para ensinar regras e normas de como devem se comportar, mas carece de significado para a criança. Se encontram descontextualizados e tem o fim de ‘informar’ ou entreter, na maioria das vezes de um jeito superficial e sem sentido.

A ideia que o autor expôs no seu livro, é que ao aprender a ler a criança se enriquece com a leitura, permitindo assim o acesso a um sentido mais profundo, claro, dentro de seu estágio de desenvolvimento.  Para que uma história seja atraente para uma criança ela precisa ser divertida e curiosa, mas para que uma história forneça ganhos na vida da criança, esta deve estimular sua imaginação, auxiliar no desenvolvimento de sua inteligência e clarificar suas emoções; tem que ser congruente com seus anseios e aspirações, fazendo-lhe reconhecer seus problemas e ao mesmo tempo sugerindo-lhe soluções.

Portanto os contos de fadas são considerados como a literatura infantil que mais enriquece e satisfaz a criança, não desde a sociedade moderna e concreta já que esses relatos foram criados muito antes do surgimento da agitada sociedade na qual vivemos, no entanto, dessas historias pode se aprender sobre os problemas internos dos seres humanos e sobre as soluções para essas dificuldades, em um nível no qual a criança possa compreender.

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Fonte: FairyTales

Como se vem mencionando a criança precisa ter o momento e espaço para poder se compreender já que muitas vezes o mundo e sua complexidade lhe desconcertam. Porém ela precisa colocar em ordem suas ideias, seu interior para assim estabelecer uma ordem na sua vida em geral, “precisa uma educação moral que lhe transmita, sutilmente, as vantagens de uma conduta moral, não através de conceitos abstratos, senão mediante o que parece tangivelmente correto e por isso, cheio de significado para a criança” (Bettleheim, 1976)

Bettleheim, afirma que os contos de fadas impactam no ser psicológico e emocional da criança, já que lhe oferece à imaginação novas dimensões, as quais dificilmente seriam ativadas por si só.

 Muitos pais acreditam que a criança não deve ser exposta às preocupações: seus anseios desconhecidos e suas fantasias. Acreditando que as crianças só devem ser expostas à realidade “bonita”, o que implica conhecer só o lado bom das coisas. Porém, como todos sabemos, a vida real não é sempre agradável, já que o ser humano continuamente vivencia diversas forças contraditarias em seu cotidiano, ou seja o ser humano as vezes age de maneira agressiva, as vezes de forma antissocial inclusive com ira ou ansiedade; a criança também experimenta diversos sentimentos que a faz pensar que as vezes ela não é boa, já que é contrário ao que seus pais querem que ela conheça, gerando assim diversos conflitos internos.

Por isso que os contos de fadas são importantes, já que a mensagem que eles transmitem é que a luta contra as dificuldades da vida é inevitável e parte intrínseca da existência humana; mas se a pessoa não foge, pelo contrário, se enfrenta, consegue dominar os obstáculos, chegando assim à vitória.

 

Exemplo de caso «João e o pé de feijão»

Bettleheim comenta um caso onde uma mãe estava em dúvida sobre se contava ou não uma história “sangrenta e ameaçadora”. Depois de ter umas conversas com seu filho, ela descobriu que ele tinha fantasias sobre devorar pessoas, ou sobre pessoas sendo devoradas assim decidiu ler o conto «João e o pé de feijão», a reação do menino ao terminar a história foi «não, existem coisas assim como os gigantes, né?» e antes de que a mãe desse uma resposta, o menino continuo falando:  «mas existem essas coisas que se chamam adultos, e que são como gigantes» com a maturidade de uma criança de 5 anos ele compreendeu a mensagem: “se os adultos podem ser como gigantes ameaçadores, uma criança pode se aproveitar deles com inteligência”

 

 

lina 04Fonte: Rodio Rodi

E é ai que está o medo que alguns pais têm quando contam esses contos, já que eles não se sentem à vontade com a ideia de que diante os olhos de seus filhos eles pareçam gigantes ameaçadores. Por outro lado, os pais não querem que pensem que são fáceis de enganar e muito menos que os filhos se sintam cômodos com essa ideia.

Referência

Bruno Bettelheim. ‘Psicoanalisis de los cuentos de hadas’. CRÍTICA (Grijalbo Mondadori, S.A.) 1976

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