“Os 13 Porquês” de se falar sobre suicídio na adolescência – Parte...

“Os 13 Porquês” de se falar sobre suicídio na adolescência – Parte III

266
Compartilhe

Este texto possui duas partes anteriores, para acessá-las clique sobre os títulos a seguir:

-> Parte 01

-> Parte 02

10 ~ Bullying e suicídio

“Vocês não sabem o que estava passando no resto da minha vida. Em casa. Nem mesmo na escola. Não sabem o que se passa na vida de ninguém, a não ser a de vocês. E quando estragam alguma parte da vida de uma pessoa, não estão estragando apenas aquela parte. Infelizmente, não dá para ser tão preciso ou seletivo. Quando você estraga uma parte da vida de alguém, você estraga a vida inteira da pessoa. Tudo… é afetado.”

Dentre as várias consequências provocadas pelo bullying (p. ex. baixa autoestima, depressão, ansiedade, pensamentos de vingança), o suicídio está presente como um fator interligado a esse fenômeno.

Diversos autores têm apontado o bullying como um fator de risco que aumentou consideravelmente os casos de suicídio entre adolescentes, de forma que quando um acontece, provavelmente o outro poderá ocorrer.

Geralmente, a prática do bullying acarreta dor, desconforto, insegurança e angústia na vítima, então, dessa forma, o suicídio surgiria como uma alternativa para aqueles que não suportam a pressão sofrida pelo bullying.

11 ~ O preconceito e o tabu em torno do suicídio

“Então, o que será que eu queria? Queria, principalmente, escutar o que todos tinham a dizer. Seus pensamentos. Seus sentimentos. E, cara, eles disseram muita coisa. Uma pessoa falou que seria difícil ajudar o fulano sem saber por que ele queria se matar. […] Ai, os outros começaram a dar suas opiniões. […] Mas tudo o que eles disseram – tudo! – veio com certo tom de irritação. Até que uma das garotas, cujo nome não interessa, disse o que todo mundo tava pensando. ‘Parece que essa pessoa que escreveu esse bilhete só quer atenção. Se fosse sério ela teria dito quem é’. Eu não consegui acreditar.”

Muitos tabus, preconceitos e pré-conceitos permeiam o tema suicídio.

É costume em nossa sociedade evitar falar sobre assuntos relacionados à morte e à finitude da vida, entretanto, a discussão desses assuntos poderia aumentar a clareza sobre o tema e diminuiria crenças errôneas.

Falar sobre o suicídio não induz o indivíduo a praticar o ato. Da mesma forma que falar sobre o suicídio também não garante que ele será prevenido ou que se conseguirá informações precisas e completas sobre o quadro.

Contudo, em muitos casos tal indagação pode trazer alivio para o indivíduo, que poderá falar sobre seus sentimentos. Falar sobre o suicídio também é um jeito de manifestar apoio e interesse, o que pode ajudar a pessoa em procurar ajuda.

Fonte: livrosecoisasafins

12 ~ Os sobreviventes do suicídio

“O problema é que não ficamos sabendo o que realmente sentem as pessoas com as quais convivemos.”

Os sobreviventes do suicídio são aquelas pessoas que perderam ou foram afetadas pela morte de uma pessoa próxima (familiares ou amigos) por suicídio.

De acordo com a OMS, cada suicídio tem um sério impacto em pelo menos outras seis pessoas. A morte por suicídio é violenta e repentina, sem contar que é uma morte permeada por tabus e preconceitos. Nesse contexto, essa morte em específico pode comprometer o desenvolvimento do processo de luto. O suicídio causa impacto negativo nos sobreviventes e muitas vezes ocasiona um luto complicado, que pode se tornar um fator de risco para suicídio.

Em muitos casos, esses sobreviventes apresentam sentimento de culpa e autoacusação. Sentimentos de vergonha também são comuns, já que podem enfrentar situações preconceituosas.

Em alguns contextos e situações sociais, os familiares enlutados podem se sentir julgados por não terem percebido sinais de que a pessoa iria se suicidar ou que são doentes e loucos.

 13 ~ Suicídio, adolescência e empatia

“Era exatamente isso que eu queria para mim. Queria que as pessoas confiassem em mim, apesar de qualquer coisa que tivessem ouvido. E, mais do que isso, queria que me conhecessem. Não aquilo que pensavam saber a meu respeito. Mas eu de verdade.”

Não se pode desconsiderar a dor do outro, mesmo quando ela pareça não possuir um significado concreto ou uma razão justificável aparente. O não julgamento também deve ser estendido aos sentimentos da família e das pessoas próximas à pessoa que tentou ou cometeu suicídio.

Vamos entender um ponto crítico da situação. Em muitos casos os adolescentes que apresentam o comportamento suicida não possuíam o desejo de morrer. Essas tentativas podem acontecer por impulso, sendo que representam pouca ameaça à vida. Entretanto, é preciso observar que esse tipo de comportamento pode ter ocorrido como uma forma de comunicação ou simplesmente como forma de escapar de alguma situação dolorosa.

Esse adolescente, que tentou suicídio, precisa de acolhimento, compreensão e respeito. Geralmente, são adolescentes que se sentem tristes e inseguros, têm a sensação de desamparo e desesperança e costumam mascarar esses sentimentos através da rebeldia e/ou impulsividade.

Não há como determinar a intensidade de uma situação de sofrimento capaz de levar o indivíduo ao ato suicida. Existem pessoas que vivenciam e suportam experiências intensamente dolorosas, do mesmo modo que existem outras pessoas que podem tentar suicídio diante de um evento estressor “pequeno” e “corriqueiro”. A percepção de cada pessoa a respeito da intensidade aversiva da situação vivenciada é única, daí a importância do não julgamento e da empatia. 

Referências

ABREU, Lena Nabuco de. Avaliação do impacto da comorbidade com transtornos ansiosos no comportamento suicida em pacientes com transtornos de humor. Tese [doutorado], Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, São Paulo. 2015.

ARAUJO, Luciene da Costa; VIEIRA, Kay Francis Leal; COUTINHO, Maria da Penha de Lima. Ideação suicida na adolescência: um enfoque psicossociológico no contexto do ensino médio. Psico-USF (Impr.),  Itatiba,  v. 15, n. 1, p. 47-57,  Apr.  2010.

BAGGIO, Lissandra; PALAZZO, Lílian S.; AERTS, Denise Rangel Ganzo de Castro. Planejamento suicida entre adolescentes escolares: prevalência e fatores associados. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 25(1):142-150, jan, 2009.

BARBOSA, Ana Karoline Lôbo; PARENTE, Thereza Denise Luna; BEZERRA, Martha Maria Macêdo; MARANHÃO, Thércia Lucena Grangeiro. Bullying e sua relação com o suicídio na adolescência. Id on Line Rev. Psic., v. 10, n. 31. 2016.

BOAS, Laís Macêdo Vilas. O julgamento clínico no contexto do risco de suicídio. [Online]. 2011.

BRAGA, Luiza de Lima; DELL’AGLIO, Débora Dalbosco. Suicídio na adolescência: fatores de risco, depressão e gênero. Contextos Clínic,  São Leopoldo,  v. 6, n. 1, p. 2-14, jun.  2013.  

FUKUMITSU, Karina Okajima; KOVACS, Maria Júlia. Especificidades sobre processo de luto frente ao suicídio. Psico (Porto Alegre),  Porto Alegre,  v. 47, n. 1, p. 03-12,   2016.  

HILDEBRANDT, Leila Mariza; ZART, Franciele; LEITE, Marinês Tambara. A tentativa de suicídio na percepção de adolescentes: um estudo descritivo. Rev. Eletr. Enf. [Internet], v. 13, n. 2. 2011.

MELEIRO, Alexandrina Maria Augusto da Silva. Atendimento de pacientes com comportamento suicida na prática médica. Rev. Bras. Med., v. 70, n. 4. 2013.  

NUNES, Fernanda Daniela Dornelas et al . O fenômeno do suicídio entre os familiares sobreviventes: Revisão integrativa. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental,  Porto,  n. 15, p. 17-22,  jun.  2016.  

SOUZA, Ana Claudia Gondim; BARBOSA, Guilherme Correa; MORENO, Vânia. Suicídio na adolescência: revisão de literatura. Rev. UNINGÁ, v. 43. 2015.

SOUZA, Luciano Dias de Mattos; ORES, Liliane; OLIVEIRA, Gabriela Teixeira de; CRUZEIRO, Ana Laura Sica; SILVA, Ricardo Azevedo; PINHEIRO, Ricardo Tavares; HORTA, Bernardo Lessa. Ideação suicida na adolescência: prevalência e fatores associados. J. Bras. Psiquiatr., v. 59, n. 4. 2010.

Views All Time
Views All Time
326
Views Today
Views Today
1

Comentários

comments